
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
“Nunca pensei em sair do país.” A frase foi dita por Flávio Bolsonaro ontem, em vídeo nas redes, após ser intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes, comum e diplomático, por determinação de Alexandre de Moraes. Diante do histórico recente do senador, a pergunta é inevitável: dá para acreditar?
Afinal, ele também havia dito que aceitaria o resultado das urnas. Em 2 de agosto, no programa Canal Livre, da BandNews, garantiu: “Eu vou aceitar, vou concorrer com essas regras”. E, em sabatina na TV Globo no dia 16 de outubro, reforçou: “Independentemente de qual for o resultado, vou respeitar.”
Respeitou até abrir a boca. Logo após o TSE confirmar a reeleição de Lula, por 51,79% a 48,21%, Flávio disse que não aceitaria o que as urnas lhe disseram, devido à extensão no horário de votação e anunciou que pediria a anulação do pleito. Ainda afirmou que fiscais do PL haviam sido retirados da sala-cofre, o que foi desmentido pelo próprio TSE.
O pretexto foi a decisão do ministro Cristiano Zanin de prorrogar o horário de votação a pedido do PT devido ao bloqueio de ônibus em cidades como Salvador e São Paulo, mas também da campanha de Flávio – que havia solicitado mais duas horas em cinco estados por conta das chuvas. Dados do TSE mostram que apenas 35 mil votos foram registrados após as 17h. Lula venceu por mais de 4,4 milhões.
Nesta segunda, ele refugou diante do ridículo: em vez de anulação, vai pedir a cassação da chapa Lula-Alckmin por abuso de poder político e econômico. E uma frase que resume o espírito da coisa: “Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou”. É o manual de quem não sabe perder: a culpa é do juiz, do gramado, da bola, do gandula. Nunca do time.

Segundo o próprio Flávio, a decisão de Moraes de apreensão dos passaportes se baseou numa fala de Eduardo, de 23 de outubro, no programa do comentarista norte0americano Steven Crowder, sugerindo que o senador deixasse o país se perdesse a eleição. Conselho de quem fala com conhecimento de causa, diga-se.
O pano de fundo é uma investigação por lavagem de dinheiro. A PF aponta que Flávio e o advogado Willer Tomaz dividiam uma conta no Santander. Tomaz, alvo de busca em agosto por suspeita de lavar dinheiro desviado de aposentadorias, teve o passaporte cancelado na sexta – mas já está fora do país, e a medida só terá efeito quando voltar. Moraes também proibiu o senador de se comunicar com o amigo.
Flávio chamou a decisão de “aberração” e de tentativa de intimidá-lo. As defesas dele e de Tomaz negam as acusações, e ambos têm todo o direito de se defender.
O benefício da dúvida vai ficando cada vez mais desgastado diante do modus operandi do clã Bolsonaro. Jair disse que não daria um golpe, tentou um golpe, e agora está preso por causa disso. Disse que não tentaria fugir, e fez um teste drive de fuga na Embaixada da Hungria, em 2024, além de ter sido encontrado em investigações da Polícia Federal um plano de fuga através da Argentina.
Em política, palavra empenhada é patrimônio. Flávio torrou a sua em poucas horas ao dar as declarações grávidas de golpismo. Se diz que não pensa em sair do país, não estranhe se, desta vez, ninguém aceitar a promessa dele como garantia.