Sakamoto: Flávio prometeu ser o candidato da mudança. Começou mudando-se de país

Atualizado em 28 de outubro de 2026 às 6:49
O senador Flávio Bolsonaro após declarar que não reconhece o resultado das eleições. Foto: Adriano Machado/Reuters

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Flávio Bolsonaro prometeu ser o candidato da mudança. Em dois dias, cumpriu a promessa e de mudou-se de país. Cruzou a fronteira, pegou um voo particular e se pirulitou, segundo seus aliados, para os Estados Unidos, com a ajuda do governo Donald Trump.

Lá, ele vai estar confortável e longe da Justiça brasileira, onde é alvo de dois inquéritos sobre crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Somará forças ao irmão Eduardo (foragido das autoridades daqui após ser condenado por interferir no julgamento do pai por tentativa de golpe) no ataque ao governo reeleito e ao Supremo Tribunal Federal.

E não estará desassistido. Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, havia transferido a seu pedido ao menos R$ 70 milhões para um fundo nos EUA sob a justificativa de financiar o filme Dark Horse (a PF investiga se não foi para o próprio bolso da família). Isso sem considerar as contas e negócios que tinha com seu amigo Willer Tomaz — volto a este assunto mais adiante.

Mostra, com sua decisão, um padrão da sua família. Que, diante da Justiça, foge. E, da imprensa, mente. “Nunca pensei em sair do país.” A frase foi dita por ele ontem, em vídeo nas redes, após ser intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes, comum e diplomático, por determinação de Alexandre de Moraes. Diante do histórico recente do senador, a pergunta é inevitável: quem acreditou?

Afinal, ele também havia dito que aceitaria o resultado das urnas. Em 2 de agosto, no programa Canal Livre, da BandNews, garantiu: “Eu vou aceitar, vou concorrer com essas regras”. E, em sabatina na TV Globo no dia 16 de outubro, reforçou: “Independentemente de qual for o resultado, vou respeitar.”

 

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Respeitou até abrir a boca. Logo após o TSE confirmar a reeleição de Lula, por 51,8% a 48,2%, Flávio disse que não aceitaria o que as urnas lhe disseram, dando como desculpa a extensão no horário de votação. Anunciou que pediria a anulação do pleito. Só omitiu que o pedido para que as urnas permanecessem abertas até às 19h partiu do PT e do seu partido, o PL. Dados do TSE mostram que apenas 35 mil votos foram registrados após as 17h. Lula venceu por mais de 4,4 milhões.

Nesta segunda, ele refugou diante do ridículo: em vez de anulação, vai pedir a cassação da chapa Lula-Alckmin por abuso de poder político e econômico. E uma frase que resume o espírito da coisa: “Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou”. É o manual de quem não sabe perder: a culpa é do juiz, do gramado, da bola, do gandula. Nunca do time.

O pano de fundo da fuga é a PF, que aponta que Flávio e o advogado Willer Tomaz dividiam uma conta no Santander. Tomaz, alvo de busca em agosto por suspeita de lavar dinheiro desviado de aposentadorias do INSS, teve o passaporte cancelado na sexta. Como está fora do país, a medida só terá efeito quando (e se) voltar. Flávio chamou a decisão de “aberração” e de tentativa de intimidá-lo. As defesas dele e de Tomaz negam as acusações.

Faz parte do jogo criticar a decisão de Moraes, discutindo se a apreensão dos documentos teria sido desnecessária. Mas a saída do senador acaba justificando o pedido da PF chancelado pelo ministro do STF.

Jair disse que não daria um golpe, tentou um golpe, e agora está preso por causa disso. Disse que não tentaria fugir, e fez um teste drive de fuga na Embaixada da Hungria, em 2024, bolou um plano de fuga para a Argentina e, como esquecer, sua icônica tentativa de derreter a sua tornozeleira eletrônica. O que mostra que dois de seus filhos foram mais bem sucedidos que ele em fugir. Não é isso, afinal, o que todo pai quer?

Imagem relacionada ao contexto da nota
Imagem relacionada ao contexto da nota. Foto: Reprodução

Em política, palavra empenhada é patrimônio. Flávio torrou a sua em poucas horas ao dar as declarações grávidas de golpismo e ao escafeder-se. Se não voltar ao Brasil para responder ao que pesa contra ele, com o medo do que virá com o fim de sua imunidade parlamentar, o senador abre mão de ser líder da oposição. Mas dada as evidências que pesam contra ele, uma saída do país provavelmente já estava nos planos. A solicitação dos passaportes por Moraes apenas a adiantou.

Com dois irmãos nos EUA, dois no Congresso sem a mesma capacidade de articulação e o pai preso, o clã Bolsonaro perde força. Lembrando que Michelle carrega o sobrenome, mas nunca foi considerada pelo marido e enteados como parte do núcleo político. A fuga de Flávio pode representar a primeira grande chance de renovação no comando da direita e da extrema direita brasileiras.

Por outro lado, caso se confirme a participação do governo Donald Trump no plano de fuga, podemos imaginar que a grande mudança trazida por Flávio será, afinal, mais interferência política e econômica dos Estados Unidos ao Brasil.

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