
A saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil para os Estados Unidos levou apoiadores do senador a compará-lo ao venezuelano Juan Guaidó, mas os dois têm trajetórias políticas e situações judiciais distintas. Guaidó chegou a ser reconhecido por Washington como presidente interino da Venezuela, anos antes de se mudar para Miami. Flávio Bolsonaro não recebeu reconhecimento semelhante e deixou o país sob uma ordem judicial que proibia sua viagem.
Em janeiro de 2019, Guaidó presidia a Assembleia Nacional e se declarou presidente interino da Venezuela ao contestar a reeleição de Nicolás Maduro em 2018. O primeiro governo Donald Trump reconheceu sua pretensão de exercer a Presidência, acompanhado por dezenas de países. No Brasil, o governo Jair Bolsonaro também reconheceu Guaidó como governante legítimo, embora Maduro continuasse no poder.
Esse governo paralelo foi encerrado pela própria oposição venezuelana no fim de 2022, meses antes da saída de Guaidó. Ele chegou a Miami em 25 de abril de 2023, depois de passar pela Colômbia, alegando ameaças e risco de prisão.
Em outubro de 2023, quando Guaidó já estava nos EUA, o procurador-geral venezuelano, Tarek William Saab, anunciou um mandado de prisão e a intenção de solicitar um alerta vermelho da Interpol. As acusações incluíam traição à pátria, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos. Guaidó negou as imputações e afirmou que elas serviam à perseguição política.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, deixou o Brasil após perder a eleição presidencial para Lula e enquanto era investigado por suspeitas de crimes financeiros. Um dos inquéritos envolve possíveis operações de lavagem de dinheiro ligadas ao advogado Willer Tomaz e a casas de apostas. Outro apura o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O senador nega irregularidades e não há condenação nessas apurações.
A investigação envolvendo Willer Tomaz motivou a determinação de Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que Flávio Bolsonaro entregasse os passaportes e não deixasse o país. O senador descumpriu o prazo de entrega dos documentos à Polícia Federal, encerrado às 11h de terça-feira (27). A corporação cancelou os passaportes e apura como ele saiu do território brasileiro.
Até a publicação do levantamento do UOL, às 18h59 de terça, não havia mandado de prisão contra Flávio Bolsonaro. A proibição de viajar e o descumprimento da cautelar não equivalem, por si só, a uma ordem de prisão. Deputados do PT pediram a prisão preventiva do senador e um alerta da Interpol, mas o requerimento não representa uma decisão de Moraes nem a emissão do alerta.
Outra diferença envolve o alcance da resposta de Washington. Uma autoridade do Departamento de Estado confirmou que os EUA emitirão vistos para Flávio Bolsonaro e seus familiares e permitirão a entrada deles. A declaração não informou a modalidade dos documentos nem confirmou uma concessão de asilo. Também não atribuiu ao senador qualquer condição de representante do governo brasileiro.
Guaidó permanece em Miami e atua como diretor do Democracy Innovation Lab, do Centro Adam Smith para a Liberdade Econômica, ligado à Universidade Internacional da Flórida. Flávio Bolsonaro ainda exerce mandato de senador e não reivindica formalmente o comando de um governo paralelo.