Flávio repete mentira da “cervejinha” e distorce caso Ana Clara no 3º bloco do debate

Atualizado em 23 de outubro de 2026 às 23:29
Presidente Lula durante o terceiro bloco do debate da Globo. Reprodução

O senador Flávio Bolsonaro (PL) repetiu a falsa alegação de que Lula (PT) defendeu o roubo de celulares para comprar cerveja e apresentou como fato uma versão contestada sobre a morte de Ana Clara, de 5 anos, no terceiro bloco do debate da TV Globo, nesta sexta-feira (23). O levantamento de checagens também identificou acusações sem provas sobre facções e distorções relacionadas a educação, apostas e sistema prisional.

“O Lula fala que o ladrão de celular não tem que ser preso porque é só pra tomar uma cervejinha”, afirmou o candidato. A alegação deriva de uma montagem com trechos de uma entrevista concedida pelo petista a rádios de Pernambuco em 2017. A passagem sobre roubo de celulares tratava de violência e desesperança; a referência à cerveja aparecia em outro momento, sobre a convivência entre torcedores de futebol.

Em outubro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral suspendeu uma propaganda de Jair Bolsonaro que utilizava essa edição. A decisão apontou a junção de frases pronunciadas em momentos e contextos diferentes, alterando o sentido da entrevista.

Caso Ana Clara e acusações sobre facções

Ao comentar a morte de Ana Clara, Flávio afirmou que “era uma troca de tiros”. Essa é a versão da defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar a criança em Niterói, em 2021. Segundo as informações reunidas na checagem, a perícia encontrou vestígios de munição compatível com o fuzil do agente, sem cápsulas de pistola que comprovassem o confronto alegado. O policial ainda aguarda julgamento pelo Tribunal do Júri.

O senador também acusou Lula de defender “organizações narcoterroristas”, sem apresentar provas. A oposição do governo à classificação formal de facções como terroristas não demonstra apoio a esses grupos. O levantamento lembra que o TSE já multou Flávio por associar o presidente ao PCC e ao Comando Vermelho sem “substrato fático mínimo”.

Na mesma discussão, o candidato afirmou que as fronteiras estão “abertas”. A declaração ignora operações de fiscalização e o decreto de 2023 que determinou reforço das Forças Armadas na faixa fronteiriça. Há falhas apontadas pelo Tribunal de Contas da União na execução do programa de proteção das fronteiras, mas elas não equivalem à ausência de controle.

Educação, bets e sistema prisional

Flávio atribuiu ao atual governo o desempenho brasileiro no Pisa, mas o exame mais recente com resultados divulgados foi aplicado em 2022, durante a gestão Bolsonaro. As notas foram publicadas em dezembro de 2023 e ficaram próximas às de 2018. A data da divulgação não transfere ao governo Lula a responsabilidade pelo resultado da avaliação anterior.

O candidato ainda sugeriu ausência de iniciativas federais para ampliar o ensino integral. A afirmação desconsidera o Programa Escola em Tempo Integral, instituído pela Lei 14.640, de julho de 2023. Segundo os dados citados no levantamento, a iniciativa registrou 1,8 milhão de matrículas entre 2023 e 2025.

Sobre apostas, Flávio chamou Lula de “pai do cassino online” e afirmou que ele criou e liberou as bets. A declaração mistura etapas distintas: as apostas esportivas de quota fixa foram autorizadas em 2018, por lei sancionada por Michel Temer. O governo Lula regulamentou o setor em 2023, em legislação que também incluiu jogos online — ponto em que a crítica encontra respaldo.

Por fim, o senador resumiu a política prisional à frase “não tem vaga em presídio, solta todo mundo”. O plano Pena Justa prevê medidas contra a superlotação, incluindo alternativas penais para crimes sem violência, mas não estabelece soltura automática por falta de vagas. As decisões cabem ao Judiciário, conforme as circunstâncias de cada caso.

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