
A reportagem da Folha de S.Paulo segundo a qual o “brasileiro trabalha menos que a média mundial” é mais um clássico instantâneo do jornal.
O Brasil aparece na 38ª posição entre 160 países em horas trabalhadas. Isso significa que 122 países trabalham menos do que nós. Ainda assim, o jornal de Luiz Frias resolveu vender a ideia de que o brasileiro deveria ralar mais. É manipulação estatística com verniz acadêmico.
A Folha sempre foi famosa por levar seus jornalistas ao colapso. Um ex-editor se escondeu debaixo da mesa após uma jornada extenuante. Foi internado logo depois e se demitiu.
O texto cita levantamento do economista Daniel Duque, do FGV Ibre, com base em banco de dados organizado por Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley.
“O que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer”, diz a matéria. Seria um “desvio” de caráter? De formação?
Ignora-se informalidade, horas extras não pagas, bicos acumulados, jornadas intermitentes e três horas diárias dentro de ônibus e trens lotados. Transporte vira lazer na conta do jornal. O trabalhador que sai de casa às 5h e volta às 20h estaria “preferindo descansar”. Bando de preguiçosos.
As comparações também são escolhidas a dedo. De um lado, Alemanha e Coreia do Sul, com infraestrutura robusta e transporte eficiente. De outro, Emirados Árabes Unidos e Butão, com regimes francamente escravistas. A mensagem é clara: qualquer cenário serve para pressionar por mais horas trabalhadas, desde que o alvo seja quem já está exausto.
Produtividade não depende só de suor. Depende de tecnologia, investimento, organização do trabalho, educação, política industrial e papel do Estado.
Se fosse questão de esforço individual, bastava impor 90 horas semanais e esperar o milagre. O Brasil tem baixa produtividade por razões estruturais, não por falta de sacrifício.
O pano de fundo é o debate sobre o fim da escala 6×1. Sempre que a discussão avança, surge um estudo “neutro” para relativizar o desgaste e defender que trabalhar mais resolve tudo. Não resolve.
Chamar isso de análise é generoso. Trata-se de uma narrativa conveniente para desqualificar reivindicação básica. Quando um jornal transforma sobrecarga em “preferência por lazer”, ele não está fazendo economia. Está fazendo o mesmo serviço sujo de quando defendeu, com “números” e “dados”, que tivemos uma “ditabranda”.