Folha esconde a Globo ao mostrar o circo internacional de Vorcaro. Por Moisés Mendes

Atualizado em 10 de abril de 2026 às 23:37
Daniel Vorcaro em evento do Valor Econômico
Daniel Vorcaro em evento da Valor Econômico realizado em 2024. Foto: Vanessa Carvalho / Valor

Daniel Vorcaro pagou para ser palestrante em evento do Valor Econômico, jornal das Organizações Globo. Foi em Nova York, em maio de 2024, no Summit Valor Econômico Brazil-USA, no Hotel Plaza.

As informações foram divulgadas como furo na coluna de Cláudio Magnavita, no jornal Correio da Manhã. Mas até o Estadão publicou, em reportagem de 28 de março desse ano. Essa é uma notícia velha sobre o circo armado por Vorcaro.

Vorcaro patrocinou o evento e pediu para falar (foto). E falou, no dia 15 de maio, como grande figura do mercado financeiro. Todos os jornais publicaram essa informação. Vorcaro deu dinheiro para a Globo, na base do pagar para falar.

Antes de discursar, apresentou um vídeo em que mostra o que seria o Banco Master e exibe os lucros de 2023. Quase em tom de deboche,o gângster disse: “Não podia deixar de fazer uma propaganda antes do discurso”. O banco já estava quebrado.

Pois a Folha fez nessa sexta-feira uma longa reportagem sobre eventos bancados por Vorcaro, como se estivesse chegando a uma eureka. Essa foi a manchete:

“Master gastou R$ 60 milhões com autoridades da República em Londres, Nova York e Lisboa”.

O jornal informa: “Em 2024, o Master bancou toda a agenda do 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, de 24 a 26 de abril. Menos de um mês depois, estava prestigiando a semana do Brasil em Nova York, de 12 a 18 de maio”.

E o evento da Globo? Nenhuma linha. O jornal acrescenta: “A equipe de Vorcaro também atuou em eventos sociais paralelos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, de 26 a 28 de junho, mais conhecido como Gilmarpalooza, numa referência ao idealizador, ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal)”.

Mas nada sobre a Globo. Nadas sobre a notícia velha que deveria estar no balanço dos eventos bancados pelo sujeito. A Folha conseguiu reunir todas as informações sobre os eventos em que Vorcaro gastou R$ 60 milhões.

Mas não informa uma linha sobre o encontro do Valor Econômico. Que foi público e admitido pela própria Globo, porque não havia como negar.

Três jornalistas assinam a reportagem da Folha, com texto para encher uma página: Alexa Salomão, Joana Cunha e Dani Braga. Nada, nada sobre a Globo e seu evento em que Vorcaro brilhou diante de players mundiais em Nova York.

A Folha chega ao detalhe e informa que um dos eventos, em Londres, teve um show do cantor britânico Seal. Dá a lista dos convidados. Informa quanto foi gasto (R$ 38,7 milhões). Mas nada informa sobre o evento de Nova York.

Por que a Folha protege a Globo, se essa é uma informação que circula há mais de duas semanas? Por que três jornalistas dedicados a apurar cada detalhe dos eventos não informam que a Globo foi paga por Vorcaro, que ainda pediu para ser conferencista?

Qual era a relevância de Vorcaro para ser estrela de um evento que apresentava o Brasil aos investidores internacionais? Vorcaro só ganhou importância depois dos rolos que o expuseram como banqueiro mafioso.

E nada sabemos sobre o valor que Vorcaro pagou à Globo. Precisamos saber, porque essa deixa de ser uma informação privada a partir do momento em que todos os jornais, incluindo os veículos da Globo, divulgam cifras sobre pessoas envolvidas com o banqueiro preso.

Quanto a Globo recebeu do mafioso Vorcaro para apresentá-lo à sociedade em Nova York? Todos nós sabemos que Malu Gaspar sabe.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/