Folha esconde que “O Agente Secreto” fala da ditadura. Por Moisés Mendes

Atualizado em 13 de janeiro de 2026 às 10:55
Cena de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Foto: Reprodução

Trechos de um editorial fofo da Folha sobre as conquistas de “O Agente Secreto”:

“Agora, Wagner Moura, melhor ator de drama, assegurou à cinematografia brasileira uma inédita dupla de láureas. O feito poderia ser visto como um ponto luminoso, desses que ao longo do tempo lembram a todos, inclusive a nós mesmos, que o Brasil é capaz de fazer ótimos filmes”.

Nada, uma linha sequer, em todo o editorial, sobre o que é o filme. Nenhuma linha sobre arte, cinema e memória, que aparece nas falas de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura.

Nenhuma frase sobre a realidade brasileira mostrada nos filmes que o editorial cita, incluindo “Ainda Estou Aqui”.

Porque a Folha não apoiou só o golpe — apoiou a ditadura, e essa memória do colaboracionismo não pode ser tocada.

Editorial da Folha de S.Paulo sobre as conquistas do filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Foto: Reprodução

A Folha trata o cinema brasileiro atual apenas como um ponto luminoso e repete a ideia mais adiante:

“Essa fase iluminada tem sido marcada não apenas por prêmios relevantes, reconhecimento de críticos internacionais e exibições em outros continentes. Presenciamos, ainda, um bem-vindo encontro com o público, que reconhece seu país nas telas”.

É um editorial precário, de quarta série (escrito com a ajuda da Inteligência Artificial?), que escamoteia o que não pode ser dito pela direita em ano de eleição.

O cinema está mexendo de novo nas podridões de anos recentes. E a grande imprensa estava lá.

A Folha não quer que muitas peças e redações escuras sejam iluminadas.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/