Folha volta a pegar a estrada com a extrema direita. Por Moisés Mendes

Atualizado em 24 de janeiro de 2026 às 15:56
Nikolas Ferreira na caminhada até Brasília, em 23.01.2026. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

O jornalismo empurra seus profissionais para as tarefas mais ingratas. A repórter Laura Scofield e a fotógrafa Gabriela Biló foram escaladas pela Folha para cobrir a caminhada de Nikolas Ferreira de Paracatu, em Minas, até a Esplanada dos Ministérios.

Gabriela é uma das grandes fotojornalistas de Brasília. Algumas das imagens que a Folha publica são fechadas em Nikolas, que acena para a câmera, porque não há muito mais o que mostrar.

Nikolas está na capa da Folha agora, em fotos alternadas, sorrindo ou com o cenho franzido. É mostrado como líder de uma caminhada que, pela cobertura do jornal, seria histórica. Ficamos sabendo por todos os jornalões que fiéis lavam e passam pomada nos seus pés.

Por que a Folha está na caminhada de Nikolas e não está em Minneapolis, onde o caos ameaça derrubar Trump? Os textos sobre o levante em Minneapolis são da correspondente Isabella Menon, em Washington, a 1,2 mil quilômetros de distância.

A Folha caminha com Nikolas e seus assessores com pomadas porque o jornal precisa estar conectado com a extrema direita. É uma conexão que não pode ser desprezada, pela audiência e pela cumplicidade política.

Protestos em Minneapolis com atuação violenta do ICE. Foto: Roberto Schimdt/AFP

Mesmo que essa caminhada nada signifique e que Alexandre de Moraes já tenha alertado que eles não repetirão os acampamentos golpistas em Brasília. Qual é a relevância dessa farsa?

Mas para a Folha a caminhada de Nikolas deve ser apresentada como a coluna Prestes do fascismo. O jornalismo das corporações está de novo, como aconteceu a partir de 2016, caminhando ao lado do fascismo.

Ficamos sabendo das bolhas nos pés de Nikolas, enquanto Minneapolis pega fogo. Essa é a guerra contra o fascismo que importa hoje para o mundo todo.

A Folha constrange seus profissionais porque precisa estar na mesma estrada da extrema direita, como esteve em 64 e em 2016. Os pés dos chefões da Folha, incluindo os que já morreram, têm calos do tempo em que o jornal usava os coturnos da ditadura.

(Até o final de sexta-feira, também Globo e Estadão não tinham profissionais em Minneapolis. Mas informavam tudo sobre as bolhas nos pés de Nikolas.)

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/