Fomos à exposição de Portinari no Masp

E foi como assistir ao massacre vietnamita, ao som de Wagner, no filme “Apocalypse Now”: perturbador, porém lindo.

A influência do cubismo de Picasso é forte na série

Estar diante das telas de Portinari na exposição Portinari – As Séries Bíblicas e Retirantes, que acontece no MASP desde o dia 18 de abril, é como ver Apocalypse Now do Coppola pela primeira vez. Assistir o ataque americano a uma aldeia vietnamita ao som de Wagner é lindo, é intragável e incomoda. Mas, é lindo. A curadoria da exposição divide-se nas duas séries que a intitulam e foram realizadas na década de 40, considerado o período mais engajado do pintor brasileiro.

As Séries Bíblicas retratam histórias do Velho e Novo Testamento de uma maneira contemporânea (sim, contemporânea até hoje) que só um artista com uma busca de descobrimento estético e ideológico como Portinari poderia explorar. É evidente (e inclusive declarado pelo próprio pintor) a influência da obra Guernica (1937) de Picasso nessas pinturas. Há o cubismo, o mesmo estilo de desenhos, a retratação monocromática e, acima de tudo, a representação do sofrimento humano. É impossível não doer com o choro da mãe que quer impedir o filho de ser cortado ao meio na tela A Justiça de Salomão (1943).

Assim como é impossível não parar por um momento e sentir a morte na linda e estarrecedora Retirantes (1944): o chão árido não tem vida e os retirantes da pintura são quase caveiras. É desumano presenciar essa tela, assim como deve ter sido desumano para Portinari pensar na situação dos retirantes nordestinos no Brasil. Todas as 3 telas exibidas da série mostram a morte indireta ou diretamente, caso da pintura Enterro na Rede (1944).

Em Guernica Picasso retratou seu incômodo e sentimento de asco ao bombardeio realizado por alemães na cidade espanhola em apoio à ditadura de Franco. Diz-se que, durante a ocupação alemã na França, vários oficiais nazistas entraram no ateliê do Pintor e, ao depararem-se com Guernica, perguntaram se ele havia feito “aquilo”. Ao que Picasso respondeu: não, foram vocês. Imagino ser essa a mesma sensação de desconforto que moveu Portinari ao pintar Retirantes e todas as obras em exibição.

Totalizando 11 telas (8 da série Bíblicas e 3 da Retirantes) , a  exposição mostra a genialidade de Portinari transitando entre diferentes estilos. É impossível não sentir: as telas vão da alma de Portinari para a do espectador. Sem interferências no caminho.

Para quem se interessar:

  • Local: Museu de Arte de São Paulo (Masp) – Avenida Paulista, 1578 – Cerqueira César
  • Data: de 18/4 a 14/7
  • Entrada: R$ 15 (de terça-feira a entrada é grátis)
Em Retirantes, o chão árido não tem vida e os personagens são quase caveiras