Forte apache no Planalto: capitão se fecha na retranca com os generais. Por Ricardo Kotscho

Jair Bolsonaro e os militares. Foto: PR

PUBLICADO NO BALAIO DO KOTSCHO

POR RICARDO KOTSCHO

Agora não temos mais nenhum civil no comando do Palácio do Planalto. Nos gabinetes que mandam no país só entram militares.

O entorno do capitão presidente virou uma extensão do Forte Apache, como é conhecido o Quartel-General do Exército em Brasília.

Só uma dúvida: quem vai bater continência para quem?

Até a Casa Civil passa a ser ocupada por um general, Walter Braga Netto, que foi interventor federal no Rio de Janeiro na época do assassinato de Marielle Franco, um crime até hoje envolto em mistério.

Isolado no Palácio do Planalto, sem articulação política no Congresso e na sociedade civil, Bolsonaro resolveu se fechar na retranca, cercado apenas de generais, enquanto vai ao ataque em suas lives e milícias das redes sociais para atacar os inimigos reais ou imaginários, genericamente chamados de “comunistas”.

Nenhum governo militar da época da ditadura chegou a tanto.

Os generais presidentes procuravam se cercar de civis em postos-chave do governo para dar uma aparência de normalidade democrática e manter pontes com os setores organizados da sociedade.

Havia mais diálogo com a oposição naquele tempo do que agora.

Não há mais nenhum Petrônio Portela, o senador da Arena que costurava a abertura ao lado do general Golbery do Couto e Silva, no governo do general João Figueredo, o último da série inaugurada por Castello Branco em 1964.

Em 2020, seis décadas passadas, o país volta a ser comandado pelos militares, sem intermediários.

A área econômica, unica ainda não militarizada, que era o pau da barraca do governo, entrou em autocombustão com os desvarios do banqueiro Paulo Guedes.

Ao chamar os servidores públicos de “parasitas” e, para defender a alta do dólar, humilhar as empregadas domésticas que ousavam ir à Disneylândia _ onde já se viu? _  Guedes rasgou a fantasia antes do Carnaval.

Era fantasia midiática a tal “recuperação da economia” no primeiro ano do desgoverno, que até agora só fez tirar direitos dos trabalhadores e fazer a festa do bancos e do mercado.

Fechadas as contas do ano passado, ficamos sabendo nesta sexta-feira que o aumento do PIB não chegou nem a 1%, menor do que a do último ano do governo Temer.

Em 2010, último ano do segundo governo Lula, a economia havia crescido 7%, e o país vivia uma era de pleno emprego.

Vai ver que foi por isso que o Papa Francisco queria conversar com Lula para discutir como é possível combater a miséria e a desigualdade no mundo, o que ontem deixou os bolsominions ensandecidos nas redes sociais.

O que vão dizer agora os nossos proficientes comentaristas econômicos das várias mídias para justificar o desastre?

Não era só “tirar a Dilma” para que todos os nossos problemas fossem resolvidos?

Que iria chover dinheiro de investidores e milhões de novos empregos?

Bolsonaro pretende mostrar que está forte ao se cercar de militares, mas só demonstra fraqueza, ao querer liderar o país no grito e nas ameaças diárias à democracia.

Para acalmar os investidores estrangeiros, montou às pressas um tal “Conselho da Amazônia”, comandado por outro general, o vice Mourão, sem a participação dos governadores da região.

A quem eles pensam que ainda enganam?

Pego em flagrante, o chefe da Secom, Fabio Wajngarten, resolveu transferir sua empresa para a esposa, depois de ter montado sua própria parceria público-privada.

Não é uma gracinha?, perguntaria a Hebe Camargo de saudosa memória.

Mas o que vem pela frente não tem graça nenhuma.

Quanto mais acuado pela realidade dos fatos, mais o capitão se fecha em seu próprio labirinto para defender os filhos, atirando nos próprios pés e nos antigos aliados.

E vai sobrar pra nós.

Vida que segue.

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