Fórum da Liberdade: de Mário Henrique Simonsen ao véio da Havan. Por Moisés Mendes

Atualizado em 9 de abril de 2026 às 18:21
Mario Henrique Simonsen, ex-ministro da Fazenda durante o regime militar. Reprodução

Esta foi a primeira frase de Paulo Francis, em palestra no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, no inverno de 1995: “Quem não aguenta o calor, que saia da cozinha”.

A plateia do Centro de Eventos São José, do Plaza São Rafael, divertiu-se com o jornalista. Ali estava um feroz liberal convertido, que um dia havia sido um esquerdista trotskista. Eu vi, porque cobri mais de cinco fóruns.

O liberalismo estava na onda. Francis fazia média com a plateia repetindo uma frase manjada, que teria sido dita pelo presidente americano Harry Truman quando ainda era senador, nos anos 40. Sentia-se à vontade na sala, na copa e na cozinha do maior evento liberal do Brasil.

O Fórum, promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais, reunia uma elite de jovens empresários e executivos. O IEE editava e distribuía livros de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek entre seus associados.

O jornalista Paulo Francis, morto em 1997, participante do “Fórum da Liberdade” de 1995. Reprodução

Promovia debates com convidados em pequenas rodas de conversa e determinava que, depois dos 35 anos, o sócio deveria dar lugar a um outro jovem.

Eram os menudos do neoliberalismo, liderados pelo cordial e estudioso William Ling. Acompanhavam os ajustes da Escola Austríaca ao que pregavam e faziam os Chicago Boys e os ensinamentos e as ações de Margaret Thatcher.

O Fórum da Liberdade que trouxe Francis trazia Mário Henrique Simonsen, Roberto Campos, Vargas Llosa, Pedro Malan, Frei Betto, Aloizio Mercadante, Paulo Renato Souza, Eduardo Mascarenhas, Jorge Caldeira, liberais americanos e até o ex-guerrilheiro José Genoino.

Era evangelizador, mas ouvia os discordantes. Esse ano, o tema do encontro, que se realiza nessa quinta (dia 9) e na sexta-feira na PUC, é “O Brasil tem jeito”. Uma das estrelas defensoras das liberdades será Luciano Hang, o véio da Havan, que irá receber o Prêmio Libertas.

É uma distinção, diz o programa do evento, “concedida a indivíduos que simbolizam a livre iniciativa e a economia de mercado”. O IEE diz mais: “A organização destacou sua trajetória como empreendedor e sua atuação pública na defesa da desburocratização e da liberdade econômica”.

E completa: “Se queremos prosperar, o jeito característico do brasileiro – criativo e resiliente – precisa ser usado para empreender e criar. Não para transgredir ou enganar”.

Francis morreu em 1997, Roberto Campos em 2001. Quase todos os grandes liberais daquele tempo já se foram, de Simonsen a Vargas Llosa. Não tiveram o dissabor de saber que a Faria Lima das fintechs virou sócia do PCC.

Quem ainda procura liberais equivalentes hoje e acha que eles poderão ser encontrados na edição desse ano do Fórum da Liberdade, vai se frustrar.

Quem procurar essa semana em Porto Alegre um liberal que tenha lido Von Mises e Hayek, vai encontrar o véio da Havan, Aldo Rebelo, Luiz Felipe Pondé, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e a líder indígena e influencer bolsonarista Ysani Kalapalo.

Quem procurar o equivalente de Simonsen encontrará Paulo Guedes. O historiador Jorge Caldeira retorna ao evento e estará perdido entre eles nos jardins e corredores da PUC.

A cozinha liberal brasileira, engolida pelo bolsonarismo, hoje faz de comidinhas a banquetes com receitas apimentadas na chapa quente da extrema direita. Quem vai encarar esse calorão?

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/