“França perde credibilidade na questão Israel-Hamas e Lula pode ser árbitro”, diz cientista político francês

Atualizado em 25 de outubro de 2023 às 18:25
Macron iniciou sua turnê pelo Oriente Médio com uma visita ao primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahou. Foto: Eliseu

O presidente da França visitou Israel nesta terça-feira, onde propôs a criação de uma coalizão internacional contra o Hamas. Em Tel Aviv, o chefe de Estado declarou seu apoio ao “direito legítimo de Israel de se defender daqueles que trabalham por sua destruição” e que “essa causa é justa e ponto final”.

Ele tentou ponderar seu discurso afirmando que “a luta deve ser sem misericórdia, mas não sem regras, porque somos democracias que lutamos contra terroristas; democracias, então que respeitam o direito da guerra e garantem o acesso humanitário, democracias que não visam civis, nem em Gaza nem em lugar nenhum”.

O mandatário francês seguiu para a Cisjordânia onde encontrou o líder da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas. Em sua chegada, retratos de Emmanuel Macron foram queimados por manifestantes.

“Uma vida palestina vale tanto quanto uma vida francesa e uma vida israelense. Minha solidariedade aos civis que vivem um grande sofrimento em Gaza”, disse Macron ao lado do representante palestino, para quem classificou o ataque do Hamas como “uma catástrofe também para os palestinos”.

A visita é percebida na França como uma tentativa de reequilibrar a política externa francesa para a região, entendida como muito mais favorável a Israel nas últimas semanas. Para um dos maiores especialistas em relações internacionais da França, Bertrand Badie, a diplomacia francesa tem poucas chances de prosperar em meio à guerra entre Israel e o Hamas.

“É perigoso e arriscado dizer que, depois de 25 anos de silêncio, propõe-se relançar uma solução para a tragédia em que o Oriente Médio se encontra hoje, com a qual não houve nenhuma preocupação durante 25 anos, para a qual nenhum esforço foi mobilizado”, afirma.

“Durante 25 anos, os governos franceses fizeram como se o problema israelo-palestino não existisse mais, colocaram-no debaixo do tapete e permaneceram cegos ao problema preocupante da colonização na Cisjordânia”, critica.

“Não se vê que iniciativas podem tomar a diplomacia francesa, as diplomacias ocidentais e as diplomacias das velhas potências. Abre-se aí uma janela de oportunidade para as diplomacias do sul.”

O professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris Sciences Po acredita que a China “é de longe a potência melhor posicionada” sobre a questão e afirma que “se o presidente brasileiro jogar bem, ele pode almejar papel de árbitro.”

Em entrevista ao Diário do Centro do Mundo, o pesquisador franco-iraniano explica os motivos, critica a abordagem midiática do conflito na França e aponta as razões da hostilidade ao país no mundo árabe.

DCM: Emmanuel Macron visita Israel e a Palestina. Como lê esse movimento depois de diversas visitas de líderes ocidentais a Israel?

Bertrand Badie: É mais uma visita prudente e declaratória. Prudente porque Emmanuel Macron levou mais tempo que seus colegas europeus e estadunidenses para ir a Israel. Há sobre as costas de Emmanuel Macron um passado de diplomacia mais complexo do que a diplomacia americana e britânica.

Emmanuel Macron buscava dar um toque de originalidade a sua viagem e ele o fez visitando Mahmoud Abbas, o que é provavelmente uma explicação ao tempo que ele levou para organizar esse deslocamento.

Ao mesmo tempo, é uma visita declaratória. No contexto atual, o que um presidente francês pode fazer é declarar seu apoio, forjar frases que exprimem emoção e o que pode ser a solidariedade do povo francês.

É pouco concebível que Emmanuel Macron possa ir além e principalmente fazer as coisas avançarem, dada a complexidade da região, particularmente neste momento. Será necessário acompanhar suas declarações.

Suas declarações não surpreendem e não estão em capacidade de anunciar qualquer reviravolta.

DCM: Na França, as manifestações pró-Israel e pró-Palestina não parecem mobilizar imensas multidões como as vistas no Magreb ou até em Londres. Por que razão?

Bertrand Badie: Primeiro, houve um contexto senão repressivo pelo menos limitante. Essas manifestações (palestinas) foram num primeiro momento proibidas. A opinião pública e os círculos tradicionalmente próximos à causa palestina recuaram.

Em geral e principalmente, com a exceção da intervenção da guerra liderada pelos Estados em 2003 no Iraque, os grandes temas internacionais, mesmo se eles interessam, não mobilizam a opinião pública francesa.

Não se viram grandes manifestações no contexto da guerra russo-ucraniana. Em relação aos recentes acontecimentos no Cáucaso, mesmo havendo uma comunidade armênia considerável na França, tampouco houve grandes manifestações.

Esse contexto de uma certa maneira repressivo é a imagem, a fotografia, do que é a cultura política na França. Pessoalmente, eu não estou nem um pouco surpreso de que houve relativamente poucos manifestações.

Houve mesmo assim domingo passado entre 15 mil e 30 mil manifestantes, o que é considerado na tradição francesa como exitoso.

Depois de encontrar Netanyahu, Macron se reuniu com o representante da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas. Foto: Eliseu



DCM: Você utilizou um termo interessante: repressão. Cabe observar que as proibições não foram aplicadas às manifestações pró-Israel. Como avalia as proibições das manifestações pró-Palestina sob argumento de “risco à ordem publica”?

Bertrand Badie: Eu creio que faltou tato na primeira decisão do governo de proibir essas manifestações porque ela não era equilibrada.

Deixou-se o Crif (Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França) organizar uma manifestação pró-israelense em 9 de outubro em Paris e decidiu-se proibir manifestações pró-Palestina.

Os simpatizantes da causa palestina e em particular as comunidades muçulmanas reagiram de modo sensível a esse defeito de simetria, a essa falta de igualdade de tratamento entre a defesa das duas causas.

A França é um estado de direito. A justiça derrubou essa proibição, considerando que ela só poderia ser adotada se houver sérias razões para pensar que haveria risco à ordem pública.

Observou-se que a manifestação em prol da Palestina domingo passado não provocou nenhuma desordem. O motivo estava equivocado.

Isso faz parte mais globalmente de um clima que se desenvolve na França, há um certo tempo, muito antes dos acontecimentos trágicos de 7 de outubro, que geram uma suspeição do que se chama de “risco islamista”, ou até mesmo terrorismo islamista.

Pode-se temer que, ao repetir essa ideia ela venha se instalar na opinião pública e provoque tensões suplementares. é algo a se observar.

É algo percebido no Oriente Médio, fazendo com que a imagem que um dia a França teve nos países árabes saia deteriorada.

DCM: As proibições de manifestações pró-Palestina e diferenças de tratamento refletem e contribuem para uma islamofobia?

Bertrand Badie: Esse termo é alvo de debate na França. Ele opõe uma parte da opinião pública à outra, uma parte da classe política à outra.

Alguns constatam um aumento real e objetivo da islamofobia, que se traduz por fiscalizações policiais que visam principalmente populações de origem muçulmana. Constatam que os que pertencem a essa comunidade têm mais dificuldade de encontrar um emprego ou mais dificuldade moradia.

Constata-se por toda parte deslizes semânticos em que se misturam sem muito rigor a “muçulmano” a “salafista”, “islamista”, “irmandade” (muçulmana), diante de um público que não está necessariamente alertado das distinções.

Isso cria um clima geral de suspeição, reforçado por fatos dramáticos há alguns dias como o assassinato de um professor de ensino médio em Arras por uma pessoa que de fato é de confissão muçulmana.

Pode-se tirar uma suspeição geral a partir de um evento isolado contra uma população geral, afetando milhões de muçulmanos que vivem na França, o que corre o risco de criar uma cultura de suspeição, desconfiança e até mesmo ódio?

Diante disto, outros, essencialmente de direita mas não apenas, dizem que não há islamofobia e que essa palavra foi forjada para vitimizar uma população e desconsiderar o discurso anti-imigração e anti-palestino portado por certas lideranças políticas, inclusive governamentais.

É um debate que está se tornando grave e preocupante para o futuro da sociedade francesa. No meu último livro, “Pour une approche subjective des relations internationales”, eu tentei mostrar como tornou-se a chave das novas relações internacionais a tal ponto que hoje a maneira como as palavras são empregadas, pela qual as realidades são percebidas ou imaginadas por uns e outros tornam-se a fonte de conflitos, que tomam proporções graves e preocupantes.

DCM: Mas essas medidas caracterizam islamofobia?

Bertrand Badie: A partir do momento em que se estigmatiza uma parte da população empregando termos tão imprecisos quanto “islamista”, a partir do momento em que se estabelece um elo entre islamismo e crime, islamismo e terrorismo, islamismo e intolerância, islamismo e separatismo, aliás um termo muito utilizado, corre-se o risco de instalar uma parte da comunidade nacional na posição de estigmatizada, o que é extremamente perigoso, porque isso favorece as correntes mais radicais, que no interior da comunidade muçulmana dirão que ‘somos considerados como excluídos, párias da sociedade francesa’. No interior dos setores mais conservadores da sociedade francesa, o risco é grande de que o islã seja banalizado como alvo preferencial, aumentando o risco de um aumento da violência.

Não se pode negar, ocultar ou esconder a proporção preocupante que toma esta questão.

DCM: Por que a França é visada por manifestações no Líbano, no Irã e na Tunísia nesse contexto de guerra Israel-Hamas?

Bertrand Badie: Eu acredito que por três razões. A primeira, pela razão pela qual acabamos de falar. Essa mobilização segundo a qual se qualifica de “islamofoóbica” é conhecida e difundida no Oriente Médio. É um fato objetivo constatar em toda a Europa que essa islamofobia toma uma dimensão tão dramática e pronunciada como o que eu descrevi.

Há esse rumor, e todo rumor é de uma certa forma exagerado, que diz que as comunidades muçulmanas são maltratadas na França, o que incomoda e trava a imagem da França.

Até 2004, a França tinha a reputação no mundo ocidental com um país-passarela entre o mundo árabe e o mundo ocidental. Desde o general Charles de Gaulle e a guerra de 1967, a França aparecia como tendo “política árabe” e uma diplomacia equilibrada no Oriente Médio, o que despertava a simpatia no mundo árabe, que se sentia relegado por outros países ocidentais.

Desde 2005, ou seja, logo depois da guerra no Iraque, a posição da França mudou. A “política árabe” mudou. Sentiu-se no mundo árabe uma grande frustração. Os presidentes franceses que se sucederam, o próprio Chirac no final de seu segundo mandato, Sarkozy, Hollande e Macron são percebidos com distância do primeiro presidente da quinta república. Desta decepção deriva um certo amargor.

Há talvez uma terceira razão. Há uma certa distorção entre as pretensões da França, na crise libanesa, pouco após a explosão no porto de Beirute, Macron rapidamente foi até o país esperando resolver a crise política; diferentes iniciativas da França no Golfo; há uma impressão de super-investimento retórico e uma pobreza nos resultados concretos.

Nesse ponto, há uma percepção de fracasso, fracasso que se traduz pelas multidões das quais você falava, o que se traduz por uma certa indiferença em relação à questão palestina, que permanece uma questão de primeiro plano no Oriente Médio.

Há 25 anos, a França não se mexeu quanto a essa questão, quando ela era muito ativa em outros tempos.

O professor Bertrand Badie. Foto: Sciences Po



DCM: De que maneira avalia a posição do governo francês em relação ao conflito Israel-Hamas?

Bertrand Badie: O governo francês está num impasse. Todos os governos que se sucederam 1999, ou seja, a última declaração europeia sobre a Palestina, que deveu muito à França – a declaração de Berlim que propôs a criação de um Estado palestino viável – os governos franceses não fizeram absolutamente nada.

É perigoso e arriscado dizer que, depois de 25 anos de silêncio, propõe-se relançar uma solução para a tragédia em que o Oriente Médio se encontra hoje, com a qual não houve nenhuma preocupação durante 25 anos, para a qual nenhum esforço foi mobilizado.

Durante 25 anos, os governos franceses fizeram como se o problema israelo-palestino nao existisse mais, colocaram-no debaixo do tapete e permaneceram cegos ao problema preocupante da colonização na Cisjordânia.

É difícil hoje ser convincente quando se proclama que vai-se fazer propostas de paz. Essas propostas de paz perdem sua credibilidade.

Eu falava de uma viagem declaratória, a diplomacia francesa só consegue hoje ser declaratória, ou seja, expressar belas palavras, condenações de violências, das mais abjetas que pudemos ver a partir do dia 7 de outubro.

Não se vê que iniciativas podem tomar a diplomacia francesa, as diplomacias ocidentais e as diplomacias das velhas potências. Abre-se aí uma janela de oportunidade para as diplomacias do sul.

DCM: No Brasil, os grandes veículos de comunicação fizeram pressão sobre o governo para que ele chamasse o Hamas uma organização terrorista, tendo uma visão alinhada com Israel. Na França, os meios de comunicação apresentam uma visão plural sobre o conflito?

Bertrand Badie: Isso demanda muitas nuances. Globalmente, o lugar a uma emoção totalmente legítima do massacre atroz do 7 de outubro é muito superior à do destino atroz da população palestina que desde 7 de outubro está sob bombardeios em Gaza, mas de um modo geral, conduz a ocultar as causas profundas do conflito, das quais não se fala mais na imprensa.

Mostram-se imagens ignóbeis do que aconteceu em 7 de outubro, mas esquece-se de dizer que, por trás desses acontecimentos, há 75 anos de história, que os telespectadores franceses, principalmente os jovens, não necessariamente conhecem.

Temos muitas imagens que vêm de Israel. Muito poucas vêm de Gaza. Quando se fala de mortes em Israel, mostram-se coisas horríveis que é preciso mostrar ao público – isso eu acredito que a mídia francesa tem razão de fazer, mas quando se fala de mortes em Gaza só se mostra um estado de guerra.

Evidentemente, isso produz um efeito de distorção que se imprime na consciência que o público francês pode ter.

DCM: Qual é sua avaliação sobre o veto americano à proposta de resolução brasileira no Conselho de Segurança da ONU que propunha um cessar-fogo humanitário no conflito Israel-Hamas?

Bertrand Badie: Infelizmente, é preciso dizer que há um princípio para os Estados Unidos de que eles têm de vetar todas as resoluções do Conselho de Segurança referentes ao conflito israelo-palestino. Os Estados Unidos vetaram quase 50 vezes sobre o assunto.

Creio que os Estados Unidos estão muito atentos para retirar a questão israelo-palestina da agenda do Conselho de Segurança. Seu princípio, independentemente do partido no poder, democrata ou republicanos, é de que não cabe à comunidade internacional tomar as rédeas desse conflito, que é responsabilidade de Israel, que dispõe de uma correlação de forças que lhe é supostamente favorável, de modo que a comunidade internacional não deve atenuar nem reforçar.

Neste caso, o Brasil, enquanto presidente do Conselho de Segurança, foi a vítima. Não penso que foi o Brasil que foi visado, mesmo se sua resolução era bastante racional e consensual, como prova o fato de que todos os outros Estados estavam prontos para aderir ou não se opor.

DCM: Como ler a abstenção russa nesse quadro?

Bertrand Badie: Numa questão dessa natureza, a Rússia não tem vontade de escolher um campo e ter uma posição definida porque tem por política nesse momento no Oriente Médio ter boas relações com todo mundo. Talvez isso é o que se afirma. Nesse contexto de prudência, a abstenção é um grande meio de ter menos visibilidade possível, ainda que quando um membro permanente do Conselho de Segurança se abstém é um modo discreto de dizer que ele concorda.

DCM: Em relação ao Sul, a China pode exercer um papel no conflito ou a saída caberá às potências locais?

Bertrand Badie: O que é interessante e surpreendente, durante sua viagem ao Oriente-Médio o secretário de Estado americano Antony Blinken pediu explicitamente a ajuda da China para resolver o conflito.

Veem-se de Pequim sinais extremamente discretos, como é a política habitual da China, mas sinais reais de querer exercer um papel na resolução desse conflito a longo prazo.

A China é a única grande potência do Conselho de Segurança e do sistema internacional atual a ter uma influência crescente no Oriente-Médio.

A influência das três potências ocidentais está em clara regressão, a da Rússia não é excelente, porque a Rússia está implicada no conflito sírio e tem dificuldades de avançar em outros lugares, mesmo se ela o apoio do Irã e boas relações com Ancara e Riad. Então, a China é de longe a potência melhor posicionada.

Há também a equação do Sul. Diante de velhas potências desgastadas, o Sul, que se investiu muito pouco diplomaticamente na questão do Oriente Médio, pode aparecer como portador de uma perspectiva nova e facilitador de algo.

É talvez muito cedo para dizer até onde esse trabalho de facilitação pode ir, mas em todo caso é algo a considerar seriamente e acompanhar. Há potências no Sul que estão bem posicionadas para exercer um papel inovador.

DCM: O Brasil?

Bertrand Badie: O Brasil, em particular, mas também a África do Sul, a própria União Africana. Talvez a Índia menos, porque a Índia de Narendra Modi se aproximou demais de Israel e suscitou a desconfiança no campo muçulmano, que vê que a minoria muçulmana na Índia maltratada.

DCM: Por que o Brasil parece suscetível de estar em uma boa posição nesse conflito?

O Brasil tem a confiança dos países árabes em geral. Desde a primeira presidência dos países arabes em 2003 , Lula nunca escondeu sua simpatia pelo mundo árabe e palestino em particular.

Dito isto, o Brasil tem do lado israelense uma imagem certamente melhor do que a maior parte dos outros países do Sul militantes da causa árabe. Ele pode parecer portador de uma perspectiva nova, talvez menos pesado do que uma parceria com a China. Se o presidente brasileiro jogar bem, ele pode almejar papel de árbitro.

Aposto que os dirigentes israelenses consideram que é mais fácil negociar com Lula do que com Xi Jinping no contexto atual.