Freira cria rede de apoio nos EUA para proteger latinos do ICE

Atualizado em 30 de outubro de 2026 às 12:17
Irmã Janice Vanderneck, fundadora da Casa San José
Irmã Janice Vanderneck, fundadora da Casa San José, em Pittsburgh. Foto: Reprodução

A irmã Janice Vanderneck, freira católica que fala português e espanhol, organizou em Pittsburgh uma rede de apoio a imigrantes latinos que teme detenções pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, o ICE. Fundadora da Casa San José, ela coordena voluntários, assistência jurídica e uma linha telefônica disponível 24 horas para atender relatos de operações da agência.

A entidade nasceu em 2013 com aulas de inglês e atividades para jovens, mas ampliou seu trabalho após a volta de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. Hoje, a Casa San José orienta famílias de pessoas detidas, tenta localizar os imigrantes levados pelo ICE e mobiliza ajuda emergencial quando a prisão ou deportação atinge quem sustenta a casa.

“A forma como o nosso país trata os imigrantes vai contra a doutrina social católica”, disse Janice. Para a freira, o governo “está humilhando os imigrantes, colocando-os sob custódia e deportando os latinos, às vezes para países da África”.

Missionária em países da América Latina, incluindo o Brasil, Janice diz que a proximidade com a região levou a organização a concentrar esforços em quem não fala inglês e ainda não obteve cidadania americana. Mexicanos, guatemaltecos e salvadorenhos estão entre os grupos que mais procuram a entidade, enquanto cresceu a demanda de venezuelanos e brasileiros, especialmente de Minas Gerais e Goiás.

ICE prende imigrante nos EUA. Foto: Reprodução

Voluntários registram operações e procuram pessoas detidas

A Casa San José criou uma equipe de resposta rápida para atender chamadas sobre batidas do ICE em ruas ou residências. Os voluntários não interferem nas detenções, mas podem filmar a abordagem, fazer anotações e buscar dados que ajudem familiares e advogados a identificar para onde a pessoa foi levada.

Outro grupo visita centros de detenção para reunir informações sobre presos. A associação também oferece consultas jurídicas gratuitas, auxílio financeiro para contratar advogados de imigração em alguns casos e apoio jurídico voluntário, embora Janice ressalte que não há garantia de liberação mesmo para pessoas com pedidos de asilo em andamento.

A freira questiona a forma como o governo classifica imigrantes sem documentos. “Trump equipara pessoas que cruzaram a fronteira ilegalmente com imigrantes que receberam permissão para entrar e dar prosseguimento a um pedido de asilo”, afirmou. Segundo ela, pessoas com pedido aceito podem ter autorização temporária de trabalho e número de Seguro Social, mas ainda assim enfrentam detenções.

A organização também tenta assegurar custódia temporária a crianças cujos pais foram deportados, além de fornecer alimentos e recursos para aluguel às famílias que perdem seu principal provedor. O medo de abordagens reduziu a circulação de parte da comunidade latina, e algumas pessoas passaram a participar das atividades da Casa San José por videoconferência.

Em Erie, no noroeste da Pensilvânia, a PA United mantém ação semelhante. O diretor da entidade, Carlos Mora, afirma que cidadãos americanos atuam como voluntários por razões de segurança e orientam imigrantes a portar documentos e telefone. “Todas as pessoas, independentemente de sua situação migratória, possuem direitos garantidos pela Constituição dos EUA”, disse.

O ICE afirma que prioriza imigrantes em situação irregular, sobretudo aqueles com antecedentes criminais. Janice e Mora, porém, relatam casos de latinos deportados para países africanos, como Uganda, Gana e Libéria. “Sei de pessoas que estão presas em Gana, sem nenhuma perspectiva de retorno”, contou a freira.

A política migratória também atinge haitianos em Springfield, Ohio, onde vivem cerca de 15 mil pessoas da comunidade. Em julho de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos confirmou a retirada da proteção migratória de 350 mil haitianos que possuíam Status de Proteção Temporária ou permissões humanitárias, abrindo caminho para deportações e operações do ICE.

Republicanos ouvidos defendem a continuidade das deportações. Mat Dole, líder do Partido Republicano no condado de Licking, em Ohio, afirmou: “Se uma pessoa está aqui ilegalmente, ela deve ser deportada. Eu gostaria que esse processo fosse voluntário e fácil, mas não é.” Pesquisa da Associated Press e do Centro NORC, realizada em setembro, apontou aprovação de 80% entre republicanos às políticas migratórias de Trump, ante 39% no público geral.

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