Freixo é só a ponta do iceberg. Por Carlos Fernandes

O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) – 01/02/2019 Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Originalmente publicado no FACEBOOK

Por Carlos Fernandes

O deputado federal Marcelo Freixo confirmou a sua saída do PSOL e consequente filiação ao PSB. A manobra, resta claro, visa buscar palanques e alianças mais amplas ao centro e à direita para a sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro.

Não discuto aqui a viabilidade da empreitada. Mas deixo claro que tendo a concordar com a tese de que o movimento possa significar um erro estratégico considerável se levarmos em conta que uma mudança desse porte a tão pouco tempo das eleições pode gerar desconfianças e insatisfações ao seu eleitorado cativo ao passo de não amenizar a antipatia já constituída dos novos eleitores que busca conquistar.

De qualquer forma, a grande questão que se impõe diz respeito aos motivos internos relacionados ao seu agora antigo partido que o levaram a tomar uma decisão que a ninguém passa pela cabeça considerar como tendo sido fácil para o parlamentar.

Não é segredo para ninguém que existe uma luta fratricida dentro do partido que vira e mexe acaba provocando feridas entre seus contendores não exatamente de rápida cicatrização.

E essa luta passa invariavelmente pelo dilema muitas vezes de difícil resolução que normalmente opõe o sucesso nas urnas à manutenção de um programa exclusivamente de esquerda sem quaisquer concessões ao resto da fauna política.

Não desconsidero a importância de se manter a fidelidade ideológica estampada nos seus programas e resoluções partidários como forma, inclusive, de evitar que acabe se transformando em apenas mais um partido fisiológico entre tantos outros.

Por outro lado, não encarar a política como ela é traçando limites e cedendo até onde é possível a partir dessas fronteiras preestabelecidas, só interessa a quem possui um enorme e curioso fetiche pela derrota.

Um programa de uma esquerda radical, ninguém nega, é algo muito bonito de se ver, mas sem qualquer viabilidade eleitoral torna-se completamente inútil para a sangrenta luta política onde são decididos os rumos do país e a vida real de mais de 200 milhões de brasileiros.

E na sua incapacidade de formular um consenso ou mesmo um meio termo entre uma coisa e outra, o PSOL acaba se digladiando consigo mesmo em busca dos maiores martírios autoaplicáveis. Daí que não é preciso ser um gênio para saber que alguém mais cedo ou mais tarde sai profundamente flagelado.

O que acontece hoje com Marcelo Freixo é fruto de um processo interno que muito provavelmente ainda atingirá outros quadros importantes do partido a começar pelo próprio Glauber Braga.

A ideia macambúzia de alas do PSOL de lançar Braga como candidato a presidência da República sem nenhuma chance de vitória só renderá à legenda desgastes internos e externos além, é claro, da perda de uma importante e combativa cadeira na Câmara dos Deputados.

Essa lógica movida a um radicalismo improdutivo e a um antipetismo estrutural segue corroendo os alicerces do partido por dentro e por fora, de forma que nesta falha em particular o PSOL não pode culpar ninguém além de si mesmo.

O que nos leva a outro ponto um tanto quanto revelador.

A gritante escassez de análises sobre o tema (publicizadas, pelo menos) por parte dos intelectuais do partido que leve em consideração possíveis intransigências da sigla demonstra de certa forma uma certa resistência de enfrentar com maturidade e humildade o que internamente pode ter contribuído para uma decisão dessa envergadura.

Particularmente nunca fui exatamente um fã de Marcelo Freixo, mas diria que neste caso, para além das questões de foro íntimo do deputado, seria também um caso clássico para uma justa, sincera e merecida autocrítica por parte do PSOL.

Isso, obviamente, se autocrítica não fosse uma necessidade única e exclusiva do PT.

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