Freixo: “Enquanto o assassinato de Marielle não for esclarecido, não haverá democracia real no Brasil”. Por Pedro Zambarda

Marcelo Freixo e Marielle Franco. Foto: Divulgação/Facebook

Marcelo Freixo tem 51 anos e nasceu em São Gonçalo, no Rio. Atuou em ONGs como consultor do então deputado federal Chico Alencar e filiou-se ao PSOL em 2005. Ficou conhecido por sua atuação contra as milícias em seu estado três anos depois.

Uma das integrantes de sua equipe na campanha para deputado estadual em 2006, Marielle Franco veio da Favela da Maré e se firmou como uma nova liderança. Freixo a tinha conhecido quatro anos antes, quando ainda era professor.

Bissexual assumida, negra, ela se firmou como vereadora eleita em 2017. Foi covardemente assassinada com seu motorista Anderson Gomes em 14 de março de 2018.

Freixo conviveu conhece bem o poder dos milicianos, de onde emergiram os acusados pela morte de Marielle. Usa carro blindado e tem seguranças.

Ao DCM, o deputado federal do PSOL fala sobre o significado da morte de Marielle Franco e como as pressões populares contribuem para as investigações. E exige resposta: Quem mandou matar?

Diário do Centro do Mundo – Como foi receber a notícia sobre a prisão dos policiais que estão diretamente associados a essa execução?

Marcelo Freixo – As prisões são um passo decisivo, mas o assassinato de Marielle ainda não foi elucidado. Queremos saber quem mandou matá-la.

Marielle não foi morta num assalto, não foi alvo de crime passional, de bala perdida. A execução de uma vereadora é um crime político.

E nós queremos saber que grupo político é capaz de planejar e contratar a morte de uma autoridade pública que tenha cruzado seu caminho. Enquanto isso não for descoberto, não há democracia real.

DCM – Por qual razão o crime que tirou a vida de Marielle Franco não foi esquecido e se transformou num símbolo da esquerda?

MF – Ela é um símbolo de luta não só da esquerda, mas de quem acredita na democracia, na liberdade e na defesa dos direitos humanos. O assassinato de Marielle deixou muito clara a fronteira entre democracia e barbárie, representada por quem debocha do crime, diminui a importância de Marielle, escarnece da violência que ela sofreu.

Marielle, em seu corpo e sua história de vida, simbolizava as lutas por um mundo mais justo e igual: mulher, nascida e criada na Maré, mãe muito jovem, começou a trabalhar cedo para ajudar a família, fez pré-vestibular comunitário.

Ela trouxe a sua experiência para a militância em defesa dos direitos humanos. Ela representava uma força coletiva que sonha e luta para construir um mundo mais justo.

E o recado que as pessoas dão, em todo mundo, após a sua morte brutal, é que não é aceitável viver numa sociedade cuja política seja capaz de eliminar Marielles.

DCM – O legado do trabalho de Marielle pode unir a esquerda?

MF – O legado de Marielle é gigante, por sua história de vida e por tudo que ela realizou como defensora de direitos humanos e como vereadora do Rio.

Esse legado une aqueles que acreditam na democracia e nos separa dos defensores da barbárie.

DCM – Uma das linhas de investigação da polícia é apontar que foi um “crime de ódio”. Um crime motivado por ódio político e sem mandantes. Imediatamente você e outras figuras do PSOL criticaram essa posição, que descarta o planejamento de três meses antes da morte. Como o partido pretende pressionar as autoridade para encontrar um mandante?

MF – O crime foi meticulosamente planejado e executado. Os assassinados usaram carro e celulares clonados, passaram horas de campana dentro do carro, estudaram o trajeto que Marielle faria naquela noite, escolheram o ponto exato do ataque.

Foi uma execução sofisticada, realizada por profissionais.

Um matador de aluguel é um mercador da morte, ele não age por ódio, age a soldo.

O assassinato custou caro e queremos saber que grupo político contratou o serviço. Não vamos descansar enquanto a pergunta “quem mandou matar Marielle Franco?” não for respondida.

DCM – Ronnie Lessa, um dos acusados, foi apontado por ter “singular obsessão” pelo senhor, deputado. Ele já era figura conhecida?

MF – O Escritório do Crime é conhecido para quem trabalha com segurança pública no Rio. O que torna ainda mais absurdo eles continuarem matando a soldo.

Tudo isso levanta a questão sobre quem protege esses caras. Mas esse policial especificamente eu não o conhecia.

DCM – O senhor já foi alvo de um atentado planejado. As milícias do Rio têm um projeto de destruição da política e de ativistas pelo crime?

MF – As milícias não querem destruir a política porque ela tem projeto de poder político. As milícias não são um poder paralelo, elas estão dentro do poder, frequentam palácios, elegem senadores, vereadores, deputados.

As milícias controlam territórios através do terror e transformam esse domínio territorial em domínio eleitoral. Essas quadrilhas interessam ao poder e a muitos políticos que se associam ao crime organizado para obter vantagens.

Elas querem eliminar qualquer pessoa que fique em seu caminho.

DCM – Você acha que algumas figuras públicas se apropriaram de maneira indevida do caso do assassinato de Marielle?

MF – O assassinato de Marielle estabeleceu uma fronteira muito clara entre aqueles que acreditam na democracia e aqueles que representam a barbárie.

Os fanáticos usam do deboche e do cinismo para diminuir a importância de Marielle e o significado da violência brutal que ela sofreu para promover o ódio e a barbárie.

Nós exaltamos sua memória e seu legado para defender a liberdade e os direitos humanos.

DCM – Você e a deputada Sâmia Bomfim estão com um projeto de cotas para mulheres. A maior participação feminina pode revelar vozes que ainda renovarão a política, na sua opinião?

MF – Os legislativos brasileiros, em todos os níveis, não representam a diversidade da sociedade brasileira. E nós queremos garantir a pluralidade de vozes. Isso fortalece a democracia.  Queremos mais mulheres nos espaços de poder. Por isso, chamamos os nossos projetos de Marielle Franco.

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