Frigoríficos brasileiros: explorando os trabalhadores como sempre, lucrando como nunca. Por Ernane Garcia Ferreira

Frigorífico

Há uma máxima do senso comum que diz: – “Enquanto uns choram prejuízos, outros riem e lucram vendendo lenços”. Pois bem, fazendo o recorte para uma das áreas classificadas como essenciais, podemos observar que a maioria dos frigoríficos brasileiros, desde do início da pandemia por Sars-CoV- 2, além de estar lucrando muito, sob vários aspectos, evidenciaram o seu lado mais perverso nas relações de trabalho.

Enquanto os trabalhadores tiveram que superar o medo e se submeter ao risco, que é trabalhar em ambientes já naturalmente insalubres, se depararam com uma nova realidade ainda mais complicada, pois se de um lado os protocolos de prevenção à COVID 19 nos frigoríficos na pré-produção exige cuidados importantes desde do embarque nos ônibus com aferição de temperatura, uso de câmeras ultramodernas nas portarias, com capacidade de refazer a aferição da temperatura dos trabalhadores, fornecimento de álcool em gel e máscaras, há o outro lado nos locais de trabalho, onde a preocupação das empresas é só uma: produzir o máximo possível, para aproveitar a alta do dólar e a demanda externa, nem que para isso vários outros protocolos de proteção sejam esquecidos, tais como o distanciamento de pelo menos um metro e meio entre os trabalhadores, diminuição do fluxo de trabalhadores nos turnos de trabalho, equipamentos de proteção individual em quantidade e qualidade adequada e testagem em massa.

O Estado do Paraná, até o mês de junho, vinha com uma conduta exemplar em relação às medidas de combate a COVID19, principalmente no setor frigorífico, quando ainda no mês de abril houve a primeira morte de uma trabalhadora da empresa GTFoods, de Paranavaí. Na sequência, o Secretário de Saúde reuniu os representantes dos trabalhadores e do setor patronal e iniciou um importante processo de cobrança de unificação de protocolos e coleta de informações. Cabe destacar a combativa e eficiente atuação do Ministério Público do Trabalho, através do Projeto Nacional de Frigoríficos, que em 05/05/2020 conseguiu firmar um importante Termo de Ajustamento de Conduta –TAC – com o grupo GTFoods. Só a partir de então a empresa passou a tomar medidas mais eficientes de proteção aos trabalhadores.

Depois dos casos se multiplicarem pela região noroeste e norte do estado, vimos diversos outros absurdos ocorrerem num curto espaço de tempo. Tivemos o emblemático caso da Avenorte, em Cianorte, onde o Prefeito é um dos donos da empresa e que simplesmente se negou a tratar com o órgão sindical as medidas de prevenção e contenção dos casos de COVID19. Na ocasião, o Presidente do sindicato – SINTRACIA – já denunciava que pelo número elevado de casos na planta e que pela característica peculiar da empresa, de ter a necessidade buscar mão-de-obra em diversos municípios da região, iria causar uma onda de casos de COVID19 nesses pequenos municípios. Não deu outra. Em junho já havia mais casos de COVID 19 entre os funcionários da Avenorte do que em toda cidade de Cianorte.

Outro caso emblemático ocorreu na cidade de Ivaí. Através da atuação do Sindicato dos Trabalhadores em Frigoríficos de Ponta Grossa e Região, nesse “grotesco” episódio, o Frigorífico Frigonesi, que abate bovinos e suínos, recebeu a visita de representante da entidade obreira e da Polícia Militar. A empresa foi flagrada submetendo trabalhadores a jornadas superiores a doze horas diárias, além de manter um senhor com mais de sessenta anos de idade trabalhando sem que batesse o cartão. Os trabalhadores também não usavam máscaras e não mantinham o mínimo de distanciamento entre si.

Nos últimos dias, esses absurdos vem se alastrando em todo o Paraná e o que mais preocupa é que ainda há margem para piorar. A atividade nos frigoríficos é um dos vetores de contaminação por causa dos ambientes fechados, úmidos, com pouca ventilação e com aglomeração de pessoas. A subnotificação é espantosa e as pessoas têm medo de falar que estão doentes e serem demitidas. Também as empresas dificultam o acesso aos dados dos testes que vêm sendo aplicados em alguns frigoríficos, alegando sigilo. Os dados que temos vêm do Ministério Público do Trabalho (MPT), onde há essa atuação, até porque são pouquíssimos procuradores para atuar em tamanho território.

Um salto no número de contágio foi registrado nos últimos dias, após um fábrica da BRF, na cidade de Toledo, ter registrado 1.138 casos confirmados. Esses números contribuíram para o aumento de 29% dos casos da doença nos frigoríficos do Paraná. A BRF começou a testagem em seus quase seis mil trabalhadores de Toledo após acordo com o MPT e divulgou recentemente os dados.

A realidade na maioria esmagadora das empresas, muitas delas cooperativas, é da não realização de testes. Jogam a responsabilidade para as prefeituras, governo do estado e o governo federal e, quando o trabalhador adoece, manda para uma unidade de saúde pública, as UPAS. Depois pós é só fazer umas doações com muita divulgação na mídia para terem a fama de boazinhas perante a sociedade.

A preocupação entre os trabalhadores tem aumentado com o relaxamento nas regras da quarentena nos municípios e das tendenciosas decisões de alguns membros do judiciário trabalhista, que parecem desconhecer ou ignorar essa triste realidade, preferindo dar guarida aos interesses econômicos em detrimento da defesa da saúde e da vida desses trabalhadores. As empresas por suas assessorias estão fabricando uma farta papelada, para mascarar a realidade perante o judiciário. Enquanto isso, o número de contaminados em só frigorifico de Matelandia ultrapassou, na última segunda-feira (10.08), mais de 800 trabalhadores infectados. Façam as contas quantos poderão morrer em razão desses contaminados em toda uma região, não só funcionários, mas seus familiares, amigos, enfim membros de toda uma sociedade em troca de uma tal de empregabilidade.

Na empresa JBS/SEARA, em Rolândia, a realidade é o elevado número de casos e casos de mortes (foram duas nos últimos dias). Nas cidades circunvizinhas, com destaque para Londrina e Arapongas, a situação também é muito grave. Em razão da necessidade da manutenção do atendimento aos trabalhadores, pelo Sindicato obreiro STIAAR,  houve a perda da vida do companheiro dirigente Aparecido Pinheiro Barbosa, o “Cidão”, vitimado pela COVID19.

Um dos mercados mais lucrativos e cobiçados pelo setor, a China, exigiu testagem das embalagens e carnes brasileiras exportadas para lá. Sim, a coisa chegou a nesse nível. Enquanto isso os trabalhadores continuam convivendo com as subnotificações dos casos de COVID19 por ausência intencional das empresas da testagem em massa, situação ainda mais agravada pelo  descaso do Poder Judiciário, que frequentemente nega ou derruba liminares para a interdição de plantas frigoríficas com auto índice de contagio.

Há que se registrar que a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná até tentou estabelecer um importante protocolo sanitário para frear a contaminação nos frigoríficos, mas aparentemente o governador resolveu ceder à pressão do setor econômico e flexibilizou as medidas anteriormente tomadas, voltando a se alinhar à política do “manda quem pode” e de que uma “gripezinha” não pode comprometer a economia.

Empresários, Governos e boa parte do Judiciário, dentro de paredes superprotegidas de suas salas e gabinetes, parecem desconhecer ou desdenhar da realidade do trabalho arriscado e extenuante existente dentro destas verdadeiras fábricas de moer gente. Realmente é lamentável. Resta, como esperança, a atuação combativa de algumas entidades sindicais denunciando ao público consumidor e ao mercado externo o descaso quase que geral dessas empresas e autoridades com a saúde e vida desses milhares de trabalhadores. No que isso irá dar, só Deus sabe.

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Ernane Garcia Ferreira – Presidente da FTIAPR

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Nota da redação: o espaço está aberto para manifestação das empresas citadas: contato@dcm.com.br

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