
A decisão de Flávio Bolsonaro de fugir do país é mais um grande tiro no pé do bolsonarismo. Seus aliados ficam obrigados a inventar justificativas, muitas vezes esdrúxulas, para um ato de pura covardia.
Flávio prometeu permanecer no Brasil e organizar a oposição, mas desembarcou nos Estados Unidos nesta quarta-feira, 28. O senador havia sido intimado na segunda-feira a entregar seus passaportes e estava proibido de deixar o país.
A contradição dispensa grandes exercícios de interpretação. Quem pretendia liderar o Brasil acaba de abandonar o terreno no qual precisaria demonstrar capacidade de liderança.
O bolsonarismo pode tentar transformar essa retirada numa nova campanha de radicalização. Encontra, porém, um país diferente daquele que saiu das urnas em 2022 e conhece os resultados da aventura golpista que culminou no 8 de Janeiro.
As instituições resistiram e os responsáveis pelos crimes foram julgados e punidos. A disposição para repetir aquela experiência precisa enfrentar agora o conhecimento de suas consequências, inclusive para quem acreditou que ficaria impune.
O ressentimento continua visível, mas também expõe a pobreza política de seus porta-vozes. A Folha registrou publicações de bolsonaristas promovendo boicotes e defendendo a demissão de trabalhadores identificados como eleitores do PT.
O vereador Guilherme Kilter, eleito deputado federal pelo Paraná, chegou a divulgar a frase “Demitir petista, gostoso demais”. O prazer anunciado em prejudicar o sustento de outra pessoa revela uma política incapaz de aceitar que trabalhadores tenham vontade própria.
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— Guilherme Kilter (@guikilter) October 27, 2026
Esse sectarismo pode arrancar aplausos dentro da bolha, mas cobra um preço fora dela. Quem pretende conquistar a maioria do país não amplia sua credibilidade comemorando a possibilidade de castigar quem votou no adversário.
Lula sai dessa sequência fortalecido, antes de tudo, porque venceu. Seus 64.256.232 votos representam um resultado mais amplo do que o obtido em 2022 e conferem autoridade política à construção do próximo mandato.
A tentativa de desqualificar a eleição com a prorrogação do horário de votação enfrenta fatos especialmente inconvenientes. As duas campanhas pediram mais tempo para votar, embora o bolsonarismo tenha passado a atacar a medida depois da derrota.
Segundo o TSE, 34.393 votos foram registrados após as 17 horas no segundo turno. Esse total não corresponde necessariamente a votos produzidos pela prorrogação, porque eleitores que já estivessem na fila também teriam direito a votar.
Ainda assim, a comparação dá a dimensão da fragilidade do argumento. São dezenas de milhares de votos diante de uma diferença de milhões entre os candidatos.
A decisão tardia de Cristiano Zanin pode e deve ser criticada pela confusão que produziu quando o encerramento da votação já estava em curso. Transformar essa crítica em prova de fraude exige um salto que os fatos não sustentam.
A cada tentativa de reabrir artificialmente a disputa, o bolsonarismo precisa explicar por que uma providência solicitada também por sua campanha se tornou intolerável apenas quando Lula ganhou. A derrota nas urnas passa a ser acompanhada pelo desgaste de argumentos cada vez menos convincentes.
O refúgio americano tampouco oferece a Flávio a legitimidade internacional que seus aliados gostariam de anunciar. O governo Trump confirmou a emissão de vistos, mas esse anúncio não equivale à concessão formal de asilo político.
O deputado democrata Joaquin Castro criticou a iniciativa e cobrou explicações de Trump sobre seu papel na saída do senador do Brasil. Os democratas da Comissão de Relações Exteriores da Câmara americana também atacaram o tratamento dispensado a Flávio pelo governo Trump.
Essa reação mostra que a proteção oferecida ao brasileiro está longe de representar um entendimento bipartidário. Flávio se vincula a um governo específico e às conveniências de um presidente que enfrenta dificuldades em seu próprio país.
A pesquisa NPR/PBS News/Marist divulgada em 27 de outubro deu aos democratas 52% das preferências para o Congresso, contra 44% dos republicanos, entre os eleitores prováveis. Nesse mesmo grupo, 59% desaprovavam Trump e 40% o aprovavam.
O levantamento não determina o resultado das disputas estaduais e distritais, muito menos antecipa quem controlará o Senado. Mostra, entretanto, o risco da aposta de Flávio num protetor politicamente desgastado às vésperas das eleições legislativas.
O STF também sai fortalecido desse episódio. Quando Alexandre de Moraes exigiu a entrega dos passaportes, Flávio reagiu dizendo que não pretendia deixar o Brasil.
Sua saída oferece um argumento concreto em favor da cautela que o próprio senador havia apresentado como uma perseguição sem fundamento. O comportamento de Flávio enfraquece sua defesa política e reforça a necessidade de cumprimento das decisões judiciais.
Enquanto o adversário procura proteção no exterior, Lula trabalha na montagem de sua base parlamentar. Na segunda-feira, recebeu Hugo Motta e Davi Alcolumbre no Palácio da Alvorada, num encontro em que os presidentes da Câmara e do Senado reafirmaram o compromisso com o diálogo institucional.
O apoio de Lula à continuidade dos dois no comando do Congresso já vinha sendo discutido antes da eleição. A fuga de Flávio fortalece agora essa articulação, embora não garanta a reeleição de Motta e Alcolumbre.
Diálogo, respeito institucional e compromisso com o futuro. Estivemos hoje com o presidente Lula para cumprimentá-lo e desejar êxito no novo mandato, reafirmar nosso compromisso de harmonia entre os Poderes e o trabalho conjunto do Congresso pelo avanço do Brasil. 🇧🇷 https://t.co/zbJU2xTNjw
— Hugo Motta (@HugoMottaPB) October 26, 2026
O Congresso conserva sua força própria e uma composição que exige negociação permanente do governo. Lula, porém, ganha espaço quando o principal adversário eleitoral troca a disputa presencial pela tentativa de comandar a oposição de outro país.
Flávio poderá gravar vídeos, fazer reuniões remotas e mobilizar seus apoiadores. Terá mais dificuldade para estar nas conversas em que se negociam apoios, se resolvem divergências e se constroem maiorias dentro do Congresso.
A distância física não elimina sua influência, mas reduz seus instrumentos justamente quando a política brasileira começa a reorganizar suas alianças. Lula permanece no centro das decisões, com um mandato renovado pelas urnas e disposição para negociar.
A fuga, portanto, acrescenta uma derrota política à derrota eleitoral do bolsonarismo. Flávio entrega argumentos ao STF, constrange seus aliados e facilita o trabalho de quem pretendia derrotar.
Foto de destaque: Davi Alcolumbre, Lula e Hugo Motta no Palácio da Alvorada, em 26 de outubro de 2026. Ricardo Stuckert/Divulgação, via Agência Câmara.