“Fui separada da minha família”: a carta de uma jovem imigrante detida pelos EUA

Atualizado em 15 de fevereiro de 2026 às 8:46
South Texas Family Residential Center, na cidade de Dilley
South Texas Family Residential Center, na cidade de Dilley – Reprodução

Em 3 de junho de 2025, um ataque durante uma manifestação pró-Israel nos Estados Unidos alterou a rotina da família do egípcio Mohamed Soliman. Segundo autoridades americanas, Soliman utilizou um coquetel molotov e um lança-chamas improvisado contra participantes do ato. Com informações da Folha de S.Paulo.

O episódio ocorreu em Boulder, no estado do Colorado. Ao menos 12 pessoas ficaram feridas, incluindo o próprio agressor.

Dias depois, a esposa de Soliman e os filhos, com idades entre 4 e 17 anos, foram detidos por agentes de imigração e encaminhados a um centro de detenção no sul do Texas. A família vivia nos EUA desde 2022 e tinha um pedido de asilo em tramitação.

As crianças e adolescentes permanecem há oito meses no South Texas Family Residential Center, localizado em Dilley. A permanência supera o limite de 20 dias previsto em diretriz judicial para a detenção de menores imigrantes.

Levantamento publicado pela Folha registrou que ao menos 675 menores tiveram esse prazo ultrapassado entre janeiro e outubro de 2025.

Manifestante segura cartaz com os dizeres "Liberdade para as crianças"
Manifestante segura cartaz com os dizeres “Liberdade para as crianças” – Moises Avila/AFP

A filha mais velha de Soliman, que completou 18 anos durante o período em Dilley, redigiu uma carta às autoridades solicitando a libertação da família. Leia o documento na íntegra:

“Por que isso está acontecendo conosco? Por que todos os nossos esforços para alcançar nossos sonhos seriam em vão? Por que o governo insistiria em nos deter sem provas? Por que está demorando tanto para a verdade vir à tona? Estas são as perguntas para as quais temos tentado encontrar uma resposta nos últimos oito meses, mas infelizmente falhamos.

Desde que nossa audiência de fiança na quarta-feira, 21 de janeiro, foi negada, temos desmoronado. A esperança de ter nossa fiança concedida nos ajudava a suportar as dificuldades. O apoio de nossa comunidade e amigos nos impulsionou a continuar lutando e a nunca perder a esperança. Anteriormente havíamos ganhado nossa fiança em 12 de setembro, mas o governo decidiu arrastar a decisão e ainda assim ela foi devolvida.

A mesma fiança que, quando devolvida, seguiu de 15 de dezembro a 21 de janeiro com a gente rezando para que não houvesse mais atrasos e que finalmente tivéssemos nossa liberdade de volta. No final, foi negada por motivos ridículos. Pensamos que tínhamos alcançado a luz no fim do túnel, mas estávamos alucinando.

Dois dias após a fiança, fui separada da minha família, como se o que passamos não fosse suficiente. Nunca esquecerei o olhar de medo e desamparo no rosto de minha mãe enquanto ela me via sendo levada e não podia fazer nada para impedir. Depois que ouvimos a decisão do juiz e percebemos que ficaríamos detidos por quem sabe quanto tempo, nossa força e vontade chegaram ao fundo do poço. Justo quando estávamos tentando processar tudo, fomos separados. Naquele momento, tudo o que nos restava foi completamente estilhaçado.

Nenhuma pessoa sã ficaria neste centro de detenção de forma voluntária, não se não tivesse um grande motivo forçando-a a ficar. As condições aqui são ruins, e as regras são feitas levando em conta as necessidades dos funcionários, não dos residentes. Todas as longas listas de regras severas estão tirando a infância das crianças. As crianças estão atrasadas em seu desenvolvimento, educação e crescimento.

Os supervisores aqui apenas encobrem uns aos outros. De alguma forma, toda reclamação ou queixa que temos é infundada, mesmo que tenhamos evidências e testemunhas para apoiar a queixa. Eles fazem promessas que não cumprem e mudam o que dizem o tempo todo. É muito fácil ver a verdade sobre este lugar e sobre nós. As pessoas precisam ser honestas consigo mesmas e seguir os fatos. Visitar este lugar não é suficiente, eu encorajo qualquer um que ache que este lugar é bom a vir morar aqui como um residente por apenas um mês, não oito, e então sentirá o que estou falando. Os trabalhadores fariam o lugar parecer um paraíso, enquanto a realidade está longe disso.

Crianças e adultos estão sob grande pressão, a detenção tem que parar antes que algo ruim aconteça. Precisamos que todos se manifestem e digam que deter famílias por períodos indefinidamente longos deveria ser ilegal. Este lugar poderia ser suportável por 20 dias no máximo, mais do que isso é realmente difícil. Ver outras pessoas sendo libertadas enquanto somos forçados a ficar aqui é extremamente doloroso. Meus irmãos choram porque seus amigos continuam sendo libertados enquanto eles estão presos aqui, perguntando-se quando será a vez deles.

Nunca imaginaríamos que ficaríamos aqui por oito meses e o que torna pior é que nem sabemos se ou quando sairemos. É muito difícil ver nossas vidas e sonhos serem destruídos enquanto apenas esperamos impotentes. Somos privados do direito de opinar sobre nossas vidas. O governo quer controlar e determinar como nossas vidas seguirão, exatamente como têm feito nos últimos oito meses.

Peço a todos que olhem para as evidências de nossa inocência. Para ver quão injustamente fomos tratados pelo governo. No entanto, ainda esperamos que o processo termine bem no final. Ainda temos total crença no sistema de Justiça. Sabemos que a verdade virá à tona em breve.

O que aconteceu com as vítimas do ataque é horrível e de partir o coração. Não consigo imaginar a dor que essas vítimas e suas famílias passaram. Ninguém deveria jamais passar pelo que eles passaram. Minha família e eu desejaríamos saber sobre o plano horrível dele, para que pudéssemos ter sido capazes de impedi-lo de prejudicar os outros.

Eu e minha família sonhamos com o dia em que sairemos. O Ramadã está chegando e estaremos jejuando. Não consigo nem imaginar passá-lo em uma detenção, muito menos longe da minha família. Quando nosso castigo terminará? Quando seremos livres? Nenhuma família deveria ser separada ou ter que ficar detida por meses.”

Jessica Alexandrino
Jessica Alexandrino é jornalista e trabalha no DCM desde 2022. Sempre gostou muito de escrever e decidiu que profissão queria seguir antes mesmo de ingressar no Ensino Médio. Tem passagens por outros portais de notícias e emissoras de TV, mas nas horas vagas gosta de viajar, assistir novelas e jogar tênis.