“Fui testemunha do que não foi feito em Manaus. Ele falava que mudaria a bula da cloroquina”, diz ex-mulher de Pazuello ao DCM

Andréa Barbosa, ex-mulher de Pazuello

Andréa Barbosa é dentista, tem três filhos e foi casada com o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello.

Fez campanha por Marcelo Freixo para a prefeitura do Rio de Janeiro em 2016, além de apoiá-lo como deputado anos depois, mas sempre preferiu a discrição.

Ela ainda é casada com Pazuello, embora os dois não convivam juntos. Andréa cuida da filha de 13 anos do casal, que foi alvo de covardes ataques na internet.

Sua vida transformou-se em um “pesadelo”, nas palavras dela, no último dia 27 de junho de 2021, ao virar personagem da coluna do jornalista Lauro Jardim, no Globo.

O jornal afirmou que ela “se ofereceu” para falar à CPI da Covid. Segundo Andréa, ela na verdade foi procurada pela comissão graças aos posts críticos ao governo que fez nas redes sociais.

Andréa está apavorada com ameaças de morte que está recebendo e pelo relacionamento conturbado que teve com Pazuello. O DCM falou com ela por mais de uma hora.

“Nunca me dispus a depor justamente por medo das represálias. Minha comoção e revolta é pelos mais de 500 mil mortos numa pandemia conduzida de forma desastrosa”, diz.

A seguir, os principais trechos da conversa.

Reuniões e jantares com o “gabinete das sombras”

Fui testemunha de muito o que não foi feito aqui em Manaus. Eu vim para cá porque Pazuello foi transferido para a 12ª Região Militar da Amazônia. Morei na casa de comando militar até setembro.

Em maio de 2020, o Teich já tinha saído e Pazuello tinha ficado como interino. A interinidade mais longeva do mundo. Naquele mês de setembro ele foi efetivado como ministro e eu tive que mudar às pressas para um apartamento alugado.

A vida estável que tinha sido prometida nunca aconteceu. Ele provocou o abandono afetivo da filha dele de 13 anos. Nos abandonou aqui em Manaus, mantendo financeiramente tudo, mas sem dar atenção afetiva para a filha. Manda mensagens e presentes caros, sem conviver com ela.

A ideia de vir para Manaus era para reformatar o casamento e para ele ficar mais perto, já que ele ia comandar a 12ª Região Militar da Amazônia. Na realidade, quando eu cheguei aqui, Pazuello foi embora para Brasília. Nos deixou sem amparo de ninguém. Fui deixada à própria sorte.

Foi nessa situação que cheguei no pico da primeira onda da pandemia. Pazuello desmerecia meus comentários e falava que eles iam ‘mudar a bula da cloroquina’.

Em plena pandemia, ele fez um jantar com Nise Yamaguchi, outras figuras defensoras da cloroquina, e eu me retirei. Isso vai na contramão do que eu penso. Fui apresentada a todos eles. Só que eu não sabia o que existia por trás. Só estava interessada em sair daquele pesadelo.

Eu testemunhei o que a CPI chamaria de ‘gabinete das sombras’, enquanto estava com a minha filha, tentando organizar a minha vida”.

Eduardo Pazuello e Nise Yamaguchi. Foto: Agência Senado

Andréa Barbosa diz que não é a primeira pessoa a denunciar as relações de Pazuello com o gabinete das sombras de negacionistas do governo Bolsonaro. O Intercept Brasil publicou em maio de 2021 que ocorreram reuniões oficiais no gabinete de Eduardo Pazuello com a médica Nise e sua irmã.

Crise do oxigênio em Manaus

Na crise da falta de oxigênio, eu perdi amigos e acabou o meu relacionamento com ele. 

Fiquei vulnerável sozinha com a filha do Pazuello. Não fiz gravações de coisas que aconteceram, mas vi a crise de perto. O problema é que tenho medo pela integridade dos meus três filhos.

Informações sobre a namorada de Pazuello com cargo público

Pazuello e Laura Tiriba Appi (Montagem/Reprodução)

O jornal O Globo noticiou que o “foco das denúncias” de Andréa Barbosa na CPI seria a primeiro-tenente do Exército, Laura Appi, diretora na Secretaria de Atenção Primária à Saúde e atual namorada de Pazuello. Ela é a única infectologista no Ministério da Saúde.

A ex-esposa do ex-ministro diz que sabe de outras informações, mas que de fato encaminhou um email à comissão detalhando o caso. Ela pediu discrição e forneceu apenas indícios para que eles começassem investigações.

“Brasília sabe melhor o que ele fez do que eu. Não quero destruir a vida do Eduardo, ele pode fazer da vida dele o que quiser, mas me expor e fazer de mim um factoide de mulher oportunista e vingativa não aceito jamais. Tirar integridade de alguém que sempre primou por cuidar zelosamente pela filha dele, que ele abandonou depois que mudamos pra Manaus por causa dele, além de não ser digno, é ingratidão e irresponsabilidade moral. Quanto à namorada dele, que os dois se resolvam bem longe de mim”.

Andréa disse que fez posts nas redes sociais sobre essa mulher, que chegaram ao Twitter. “Me arrependi em 24 horas”. Mas muitas pessoas não sabiam que ela era ex-esposa de Pazuello. Isso chamou a atenção da CPI em setembro do ano passado, que passou a procurá-la para ouvir seus esclarecimentos, ao contrário do que afirmou O Globo.

Repercussão na imprensa

“Eu preciso sim de proteção, estou sendo ameaçada de diferentes formas. Sou ameaçada até nos comentários em um tuíte do Eduardo Bolsonaro, em que ele me expõe”.

Andréa Barbosa fala de um post de Eduardo às 11h de 28 de junho de 2021. O deputado afirmou o seguinte:

“Chamar ex-mulher de ex-Ministro (sabe-se lá em que isso pode contribuir) para o circo vai dar margem para que os senadores devassem as vidas particulares uns dos outros. E tenha certeza: quem tem algo a esconder não são parlamentares da base bolsonarista. Muito pelo contrário”.

Nos comentários, bolsonaristas comparam Andréa com a ex-namorada de Renan Calheiros, a jornalista Mônica Veloso, insinuando que ela queria dinheiro.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!