Funcionário da Casa Branca opera Gabinete do Ódio de Trump

Atualizado em 25 de fevereiro de 2026 às 22:33
Garrett Wade, funcionário da Casa Branca apontado como administrador da conta “Johnny MAGA” no X. Foto: Reprodução

Uma conta popular de direita na plataforma X, conhecida como “Johnny MAGA”, pode ser administrada por um integrante da equipe da Casa Branca. A informação foi publicada pela revista WIRED após análise de registros públicos.

O perfil, que soma quase 300 mil seguidores, costuma defender o governo de Donald Trump, compartilhar conteúdos oficiais e atacar adversários democratas, como o governador da Califórnia, Gavin Newsom. Em um episódio recente, a conta classificou como “obra-prima” um vídeo racista gerado por inteligência artificial que retratava Barack Obama e Michelle Obama como macacos.

Atuação coordenada após morte em Minneapolis

Horas depois de uma agente do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA) atirar e matar Renee Good em Minneapolis, perfis oficiais da Casa Branca passaram a divulgar vídeos de bandeiras queimadas e confrontos entre moradores e agentes federais. A ênfase estava nos protestos, não na morte.

O perfil Johnny MAGA ajudou a impulsionar esse conteúdo, compartilhando publicações do canal oficial de “resposta rápida” do governo e questionando a versão de que a vítima seria inocente.

Para quem acompanhava de fora, a conta parecia independente, mais uma voz alinhada ao universo digital do movimento MAGA (“Make America Great Again”). Porém, segundo a reportagem, o responsável pode ser Garrett Wade, funcionário da Casa Branca que atua justamente na área de resposta rápida — setor encarregado de reagir rapidamente a crises e pautas negativas nas redes.

Registros públicos analisados pela revista indicam que um número de telefone associado a Wade também está vinculado ao perfil Johnny MAGA. Uma fonte próxima à Casa Branca confirmou a ligação. Nem Wade nem o governo responderam aos pedidos de comentário.

Relações políticas e financiamento

Dados da Comissão Eleitoral Federal dos EUA apontam que Garrett Wade fez doações políticas por meio da plataforma WinRed, ligada a campanhas republicanas. Em registros de 2023 e 2024, ele aparece associado à empresa Opinion Architects, uma consultoria digital.

Segundo documentos de ética da Casa Branca, a Opinion Architects pertence a Taylor Budowich, que atuou como assistente do presidente e vice-chefe de gabinete para comunicações até setembro de 2025. Budowich também esteve ligado ao super PAC Make America Great Again Inc., um comitê independente que arrecada e gasta recursos para apoiar candidatos — no caso, Trump.

A reportagem aponta que a Opinion Architects recebeu mais de US$ 325 mil da MAGA Inc. por serviços de “pesquisa” e “consultoria em comunicação”.

Influenciadores e governo

O texto também destaca como o ecossistema digital conservador tem servido como fonte de quadros para o governo. Um exemplo citado é Dan Bongino, que assumiu cargo de direção adjunta no FBI após apresentar um podcast com teorias conspiratórias. No Departamento de Defesa, liderado por Pete Hegseth, há ex-criadores de conteúdo integrando a equipe de mídia digital.

Do outro lado do espectro político, o Partido Democrata também enfrentou questionamentos. A própria WIRED revelou anteriormente que um grupo liberal financiado por recursos não divulgados, o Sixteen Thirty Fund, pagou dezenas de criadores progressistas para reforçar mensagens favoráveis aos democratas.

Falta de regras claras

Nos Estados Unidos, a Comissão Federal de Comércio exige que influenciadores informem quando recebem pagamento por publicidade comercial. No entanto, não há regra federal semelhante para colaborações políticas. Em 2023, a Comissão Eleitoral Federal rejeitou a proposta de obrigar criadores a divulgar pagamentos recebidos de entidades políticas.

Para pesquisadores da área de desinformação, essa ausência de transparência pode comprometer a confiança pública. Quando um funcionário do governo atua anonimamente como influenciador partidário, torna-se difícil distinguir comunicação oficial de apoio aparentemente espontâneo.

Especialistas defendem que as mesmas exigências aplicadas à mídia tradicional — como identificação clara de interesses e vínculos institucionais — deveriam valer também para o ambiente digital.