Funcionários da Caixa e Banco do Brasil relatam descaso com segurança durante pandemia

Agência da Caixa Econômica Federal (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Publicado originalmente na Revista Esquinas:

Por Thiago Hideki Baba

Funcionários de bancos públicos sentem no dia a dia o excesso no fluxo de clientes e denunciam a falta de preocupação das empresas. Desde o início da quarentena no Brasil, agências bancárias continuam funcionando por todo o país. Inseridos nesse contexto, os bancos públicos encontram-se em maior vulnerabilidade por lidar com um número superior de clientes.

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

Na zona leste de São Paulo, Roberta*, funcionária em agência da Caixa Econômica Federal (CEF), diz como está a situação onde trabalha. “Estamos fazendo revezamento, eu fico uma semana em casa e uma semana venho para a agência”, diz a funcionária.

Além do revezamento, a agência também conta com face shield (anteparo plástico de proteção facial), máscaras de tecido, luvas e álcool em gel. Já nos caixas eletrônicos colocaram biombos, marcas de distanciamento e os clientes recebem numeração para entrar no autoatendimento. Limitou-se também a lotação máxima das agências em 50%.

Apesar das atitudes tomadas, Roberta aponta que também há ações negativas por parte da empresa. “Estamos cada vez com mais gente dentro da agência. Mesmo com o distanciamento e só 50% da ocupação, ficamos com medo. Todo mundo acha que a medida é para maquiar da mídia, recebemos orientação de superiores falando ‘põe as pessoas pra dentro, põe pra dentro!’. Então tem horas que abrimos a porteira, colocamos o máximo de gente para fazer a triagem lá dentro (levando em conta 50% da ocupação), não vejo outra justificativa para isso”, acusa.

Roberta lembra que, mesmo com equipamentos de proteção, corre risco de contaminação. “Ficamos bastante apreensivos, porque é muita gente. Dizemos que, tirando os hospitais, o maior foco possível de contágio no país é a Caixa Econômica Federal, porque é o lugar mais cheio”, atesta. A aglomeração ocorre devido aos saques do auxílio emergencial.

Ainda nesse quesito, existe expectativa de maior aglomeração se a CEF liberar e antecipar outros serviços. “Se a Caixa liberar o FGTS, o Fundo de Garantia, o seguro desemprego, o décimo terceiro dos aposentados e o auxílio emergencial, chama a população inteira para a Caixa Econômica”, encerra Roberta.

Sobre o movimento na agência, a funcionária afirma ocorrer maior fluxo no início do mês. De acordo com Roberta, durante parte do dia a agência chega a ficar vazia. Os picos são no período do almoço e as agências estão com o horário de funcionamento reduzido, das 8 às 14 horas.

BANCO DO BRASIL

“Eu me sinto bastante exposta. Faz três meses que estamos assim, acabei me acostumando. Mas é um pouco revoltante a nossa exposição e a forma como o banco não se preocupa muito de modo geral”. Priscila* conta como tem sido o contato com os clientes em seu dia-a-dia. Ela é gerente de relacionamento em uma agência varejo do Banco do Brasil em Guarulhos, grande São Paulo.

Ainda sobre essa exposição, ela continua. “Até o dia 10 de cada mês o fluxo é muito maior, porque quem vem são os beneficiários do INSS e os servidores públicos, que precisam de mais atenção. É bem complicado, porque precisamos ficar na sala de autoatendimento. Eles precisam de auxílio até para colocar o cartão na máquina. Então acabamos tendo esse contato mais próximo”, completa

Dentro desse contexto, ela também denuncia a falta de equipamentos de proteção para os funcionários. “Apesar de o banco ter comunicado que faria a entrega de máscaras de tecido, a minha agência ainda não recebeu. Então pegamos a verba de outra coisa e compramos, principalmente para terceirizados. A única coisa que o banco forneceu foi o reservatório de álcool em gel e face shield”, conta.

SINDICATO

O diretor-executivo do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, Dionísio Reis, 36 anos, fala sobre o Banco do Brasil na pandemia. “A ação lá é muito comparada à dos bancos privados no geral. Priorizam a questão financeira à vida das pessoas, tem sempre se pautado pelo mínimo”, constata o sindicalista.

No mesmo sentido, Reis analisa a Caixa Econômica Federal (CEF) a partir de três fases. “A primeira foi de adotar medidas protetivas. Fez protocolos de proteção, para funcionários terceirizados ou não, foi fantástico. Na segunda, a partir do dia 9 de abril, a Caixa virou o banco das filas, por conta do pagamento do INSS e do auxílio emergencial. A terceira fase é a que estamos hoje. Vemos internamente a flexibilização e o fim de protocolos desde 18 de maio”, afirma.

Sobre as reclamações dos bancários, o sindicalista complementa: “O número de denúncias é bem maior do que gostaríamos, temos bastante demanda tanto pelo adoecimento quanto pelo péssimo tratamento dado pelos bancos. Estamos em um setor que coloca a questão financeira acima de tudo. A vida do trabalhador bancário é muitas vezes desconsiderada”, relata.

OS BANCOS

Contatados por ESQUINAS a superintendente de rede da Caixa Econômica Federal, Claudia Ramos, afirma que todas as ações de prevenção foram tomadas, incluindo as medidas já citadas por Roberta. Segundo ela, houve melhora na qualidade dos aplicativos, priorização no atendimento remoto e adoção de intensa rotina de limpeza.

A superintendente forneceu dados de que 75% dos pagamentos do auxílio emergencial já são feitos digitalmente. Enfatizou ainda, que a CEF fez um grande processo de bancarização, ou seja, grande parte da população foi cadastrada e introduzida no banco, pois não possuíam contas.

Quanto à disponibilização de outros fundos, afirma que existe sinalização para a liberação de parte do Fundo de Garantia. A CEF é o único banco que faz esse pagamento e, segundo a entrevistada, vai investir em tecnologia para que seja feito de forma digital.

Questionada sobre a flexibilização do protocolo de segurança citado por Dionísio, a superintendente afirmou que não há esse arrefecimento.

Sobre à acusação de maquiar as filas das agências, a assessoria da CEF afirmou que fizeram parcerias com 1280 prefeituras para organizar as filas e manter a distância mínima de dois metros entre as pessoas, além de reforçarem a triagem feita nas filas.

A assessoria do Banco do Brasil foi questionada sobre a falta de distribuição de máscaras e diz ter comprado mais de 270 mil máscaras de tecido para todos os funcionários, que passaram a ser distribuídas em 22 de maio. De acordo com a assessoria, a entrega priorizou as praças com maior incidência de contaminação pelo novo coronavírus e os locais onde há obrigatoriedade legal do uso do equipamento. Além da distribuição de 60 mil  face shields.

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