Como foi construída a rivalidade de brasileiros com Maradona, o maior do mundo. Por André Lobão

Maradona e Zico, em jogo no Maracanã em 1979. Foto: reprodução do YouTube

PUBLICADO TAMBÉM NA REVISTA JOSIMAR, DA NORUEGA

Maradona atuou poucas vezes em solo brasileiro contra a seleção do Brasil e contra times brasileiros, sendo as quatro partidas realizadas no Maracanã, enquanto jogador profissional, não tendo obtido nenhuma vitória.

Dessas partidas assisti a duas: um jogo amistoso entre Flamengo x Boca Juniors, em 1981, quando eu tinha 10 anos de idade; e Brasil x Argentina, pela Copa América, um torneio sul-americano de seleções, em 1989, quando eu já era um adolescente de 18 anos que não pensava ainda em ser um jornalista.

Mas, antes de chegarmos às minhas próprias experiências como torcedor e fã, frequentador assíduo do Maracanã, torcedor do Fluminense, clube rival do Flamengo aqui no Rio de Janeiro, apresento um contexto das décadas de 1970 e 1980, a partir de um olhar histórico. Um período em que vários países da América do Sul, como Argentina, Brasil e Chile, foram governados por ditaduras militares, e explico como isso afetou a forma como a imagem de Maradona foi construída entre os torcedores brasileiros. E também adentro como as rivalidades futebolísticas, Brasil e Argentina, Maradona x Zico e Maradona x Pelé, também ajudaram nessa construção.

Retrospecto de Maradona no Maracanã

A primeira vez foi em 1979, no dia 2 de agosto, em jogo válido pela Copa América, quando o Brasil, com gols de Zico e Tita, venceu a seleção da Argentina por 2×1, com Coscia marcando para os argentinos.

Em um amistoso disputado entre Flamengo x Boca Juniors, em 15 de setembro de 1981, assistido por mais de 60 mil pessoas, Maradona pisava novamente no mítico Maracanã, mas viu Zico assinalar os gols da vitória do time carioca por 2×0 sobre o tradicional time de Buenos Aires.

Após a partida, “El Diez” evitava comparações com Zico e Pelé:

“Acho horríveis essas comparações e não sei por que as pessoas insistem tanto nisso. Cada um tem o seu jeito, a sua individualidade. O Pelé foi o maior jogador que já vi atuar. É insuperável. Será que posso me comparar a ele? O Zico é excelente, um jogador de fina sensibilidade, habilidoso, capaz de grandes criações…”

Em 1985, no dia 12 de julho, o craque argentino esteve presente por 90 minutos em um amistoso que marcou o retorno de Zico aos gramados brasileiros, após ser recontratado pelo Flamengo junto à Udinese da Itália, clube que havia adquirido seu passe em 1983. Com grande pompa, o Flamengo convidou grandes nomes do futebol brasileiro que tinham renome mundial na época, como Falcão, Júnior, e Toninho Cerezo, entre outros. A partida entre Flamengo x Amigos de Zico terminou 3×1 para o time carioca, com um gol de Zico de falta.

A Copa América de 1989, já disputada em novo formato, tendo o Brasil como sede única, recebeu um Maradona já consagrado pela conquista da Copa do Mundo de 1986. Em uma quarta-feira, 2 de julho, com a presença de mais de 100 mil pessoas, Diego Armando Maradona retornou ao Maracanã para mais uma partida contra a seleção brasileira, e mais uma vez não conseguiu conquistar um resultado positivo. Com gols de Bebeto e Romário, o Brasil vencia a então seleção campeã do mundo de Maradona e Cia. por 2×0.

Rivalidade Brasil (Zico) x Argentina (Maradona)

Os pesquisadores brasileiros em Sociologia, os doutores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Ronaldo Helal e Hugo Lovisolo, no artigo “Jornalismo e futebol: Argentinos e Brasileiros ou do amar odiar‟ e do odiar amar”, concluíram em sua análise conjunta que se criou uma imagem e um “estilo de jogo” particular para cada uma dessas seleções, surgindo estereótipos e valores a serem defendidos por cada uma delas.

A tese apresentada por eles é de que a identidade brasileira foi construída e se tornou excessivamente dependente dos símbolos e valores que emanam do futebol. Por isso, a “identidade” nacional brasileira estaria muito calcada na marca a diferença entre “nós” e os “outros”, o que traduz de forma clara na rivalidade entre Brasil e Argentina.

A rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina ofuscou de alguma forma a admiração do torcedor brasileiro por Diego Maradona. Enquanto jogador em atividade as comparações que alimentavam a rivalidade se davam com Zico, o craque do Flamengo e da seleção brasileira, que herdou a camisa amarela 10 de Pelé, o mesmo número que consagrou o craque argentino como “El Diez”. A verdade é que pelo fato da torcida do Flamengo ser a maior do Brasil contribuiu muito para isso, sendo mais um ingrediente para a história rivalidade entre torcedores brasileiros e argentinos. E em enfrentamentos diretos no Brasil e no Maracanã, os números do craque brasileiro contra Maradona inegavelmente foram melhores.

“A rivalidade para quem tinha lado era igual a partido político. Quem era Zico, era Zico, quem era Maradona, era Maradona, principalmente toda a ‘nação’ anti-Flamengo que é formada por torcedores de times rivais ao rubro-negro, esses eram pró-Maradona” – lembra o professor de História e flamenguista, Cristiano Borges.

De certa forma, a construção desta rivalidade entre Zico e Maradona, principalmente, pela grande mídia brasileira nos anos 1980, ajudou bastante na popularização do Flamengo por todo o Brasil, e aquele amistoso de 1981 Flamengo x Boca foi um exemplo disto.

O jogo foi transmitido por uma emissora de TV, o SBT de propriedade do empresário Sílvio Santos, que ganhou a concessão da durante a ditadura militar do Brasil que na época ainda era vigente no país. Cabe lembrar que da  mesma forma a Argentina, assim como o Brasil, também estava sob a vigência de uma ditadura militar.

O fato foi uma surpresa, pois a emissora que não apresentava sequer em sua grade de programação um boletim esportivo, tomava a frente da principal TV do Brasil, a Globo, e transmitia a partida para todo o Brasil, inclusive o Rio de Janeiro. Isso explicaria o público de 60 mil pessoas, considerado modesto devido à repercussão da partida, tendo em vista que o Flamengo vivia uma excelente fase.

O clube vinha da conquista do campeonato brasileiro de 1980, e estava encaminhando sua classificação para as finais da Taça Libertadores de América, o torneio equivalente a Champions League da América do Sul, campeonato conquistou posteriormente, em novembro daquele ano de 1981, ao vencer a equipe chilena do Cobreloa por 2×0 em Montevideo, Uruguai.

O detalhe é que o Chile estava sob a ditadura Pinochet. Isso mostra que as diferenças na América do Sul só existiam no futebol, mas politicamente eram alinhados através de ditaduras militares.

Ditaduras, pátrias e chuteiras

Sim, as ditaduras usaram o futebol para popularizar seus governos e passarem a imagem de nacionalistas. O futebol foi usado para a criação de uma identidade nacional.

O título da Copa de 1970 pelo Brasil; a realização da Copa de 1978 na Argentina, com a conquista pelo selecionado local; o apoio dos empresários do cobre à ditadura Pinochet, financiando o Cobreloa, mostra como essas ditaduras usavam o futebol para tirar proveito político.

Já na Argentina, a ditadura também de alguma forma tentava se aproveitar da popularidade do então jovem craque e dispensou Maradona do serviço militar, Maradona ficou por apenas 9 horas no Exército, sendo liberado para a disputa do Mundial Sub-20, em 1979, em que liderou a seleção no título, sob a seguinte justificativa: “A nação precisa de você, da sua juventude, de quem dá exemplo no mundo do esporte e assume a responsabilidade de um duro trabalho e grande esforço. Você, jovem, pode e deve converter-se nesse exemplo. Pode por sua popularidade, e deve fazê-lo, porque seu status de figura pública abrange a responsabilidade de ser um bom exemplo” – disse um documento da junta militar para explicar a liberação de Maradona para o torneio oficial da FIFA.

Sobre o ditador chileno, em depoimento ao jornal O Globo em junho de 2020, o ex-jogador Júnior, companheiro de Zico na conquista da Libertadores de América de 1981, relembra como Pinochet tentou pressionar de alguma forma na disputa das finais do time chileno contra o brasileiro nas finais do torneio.

“Em várias situações, eles entraram para machucar, principalmente o Zico. Era uma equipe com bons jogadores, mas tinha esse lado, que naturalmente aflorou na segunda partida, em Santiago. O Chile vivia um momento político complicado. O então presidente Augusto Pinochet compareceu ao jogo, pegou o microfone do estádio e disse que o Cobreloa era a pátria de chuteiras” – conta Júnior, que atualmente é comentarista da TV Globo.

Maradona e Pelé. Foto: Ricardo Alfieri/Wikimedia Commons

Esse universo foi fundamental para a construção da imagem do Maradona na Argentina e no Brasil. Na Argentina como herói, e aqui no Brasil como inimigo.

Mas, voltando à rivalidade entre os grandes craques sul-americanos dos anos 1980, um detalhe chama atenção: a diferença de gerações e idades entre Zico e Maradona deveria ser relevada.

“O Zico não era da mesma geração que o Maradona, isso é uma rivalidade que a mídia criou para forçar uma situação de rivalidade. Por exemplo, na Copa da Espanha, em 1982, atuando por aquela seleção brasileira comandada por Telê Santana, considerada naquela Copa a melhor seleção, o Zico já tinha 29 anos, e o Maradona tinha apenas 22 anos, uma diferença de idade de sete anos que fazia muita diferença.

O Zico era da geração de Platini e Boniek (ídolo polonês), craques europeus que jogavam na época juntos na Juventus de Turim. Se lembrarmos da Copa de 1986, no México, vamos ver um Maradona no auge, com 26 anos, e o Zico já em decadência por conta de contusões com 33 anos. Então acredito que essa comparação não pode ser considerada porque Zico e Maradona fazem parte de gerações diferentes” – analisa Borges, que acompanhou o Flamengo em todas as partidas da conquista da Taça Libertadores da América de 2019, inclusive nos jogos fora do Brasil.

Aliás, um dos presidentes militares do Brasil, o presidente Emílio Médici, que governou entre 1969/1974, costumava frequentar as arquibancadas do Maracanã, o que serviu para aumentar a venda de uma imagem simpática junto à população, em meio à linha dura adotada por seu governo.

É sabido que, durante todo o período de ditadura militar, vivido entre 1964 e 1985, foi o de Médici o governo mais repressor, que acabou por provocar a morte e os desaparecimentos de pessoas inimigas do regime.

Médici, de forma populista, se aproveitou do futebol, se dizendo admirador justamente do clube mais popular do país, o Flamengo, quando Zico começava a dar seus primeiros passos como profissional do clube.

Apesar de ter uma irmão perseguido pela ditadura brasileira, Nando Antunes, que foi professor e jogador de futebol no final dos anos 1960, Zico nunca teve uma posição de confrontação aos generais brasileiros.

Um exemplo disso é que não participou das “Diretas Já”, um movimento pela redemocratização do Brasil que aconteceu entre os anos de 1983/84, quando seu colega de seleção brasileira Sócrates teve participação ativa. A carreira na Udinese era seu foco principal.

Mas Zico, em março de 1991, assume a Secretaria Nacional de Esportes, ficando somente um mês no cargo com status de ministro no então recém-eleito governo de Fernando Collor de Melo, escolhido nas primeiras eleições diretas para Presidência do Brasil em 1989, derrotando Lula.

Collor de Mello foi eleito com um discurso neoliberal e prometendo acabar com os corruptos. Ao final de 1992, foi destituído do cargo por um processo de impeachment por tráfico de influência no governo. Antes disso, após sair da Secretaria Nacional de Esportes, em abril de 1991, onde ficou apenas por um mês no cargo, Zico voltou a jogar futebol no incipiente futebol japonês.

Em 2019, Zico, apesar da perseguição a seu irmão pela ditadura brasileira, anunciou voto em Jair Bolsonaro, um político defensor da ditadura e da tortura, uma triste contradição do craque.

Pelé ou Maradona?

Após o título da Copa do México de 1986, e aposentadoria de Zico, Maradona foi colocado em outra rivalidade: Pelé x Maradona. A disputa para saber quem foi o melhor jogador de todos os tempos. O maior camisa 10 de todos os tempos, o “Rei do futebol”, o “Atleta do Século” versus o El Diez, El Pibe de Oro, o “Barrilete Cósmico”, e novamente uma nova novela da rivalidade Brasil e Argentina.

“Maradora teve uma carreira excepcional no futebol, ao lado de uma vida pública altamente questionável (com motivos mais do que suficientes). Esta vida pública, que não faz parte do futebol, afeta consciente ou inconscientemente sempre quando ele é alvo de alguma análise. O brasileiro já conhece esse condicionamento. Apesar disso, e sendo em sua grande maioria torcedor de Pelé e da seleção brasileira, sem paixões, e de forma objetiva, o brasileiro vê Maradona como um dos ‘maiores’, mas não tanto quanto Pelé. Eu pessoalmente concordo com essa visão” – analisa o argentino Martin Raviolo, torcedor do Colón de Santa Fé, Argentina, e morador há 20 de Búzios, balneário do Rio de Janeiro, muito frequentado por argentinos.

A verdade é que também os problemas pessoais de Maradona sempre foram combustível para comparação em relação a Pelé, apesar do craque brasileiro também não ser um “santo”, na sua vida pessoal. Basta lembrar que tanto Pelé quanto Maradona foram alvos de processos de reconhecimento de paternidade. Maradona foi alvo de sensacionalismo da imprensa italiana enquanto não reconheceu Diego Armando Júnior Sinagra, hoje de 33 anos, em sua permanência em Napoli. Enquanto Pelé demorou anos para reconhecer Sandra Regina Machado Arantes, nascida em 1964. Ambos os filhos foram frutos de relacionamentos extraconjugais, tendo suas respectivas mães lutado anos na justiça para obterem o devido reconhecimento dos pais. Infelizmente, Sandra faleceu de câncer em 2006, triste por nunca ter tido a oportunidade de conviver com Pelé. O “Rei do Futebol” no dia de seu enterro enviou somente uma coroa de flores em seu sepultamento, não comparecendo nem ao velório da filha.

O jornalista brasileiro Lédio Carmona, do canal por assinatura Sportv, comenta sobre a rivalidade tão decantada entre brasileiros e argentinos com o assunto é Maradona:

“É uma pena que boa parte dos brasileiros não ofereçam a Maradona o respeito que ele deveria ter. Compará-lo com Pelé, Zico ou qualquer outro é perda de tempo. Todos foram geniais, monstros, fizeram a história do futebol. Pelé foi o maior deles. A rivalidade é sadia no futebol. Brasil e Argentina serão sempre antagônicos. Mas há exagero e boçalidade no culto ao desprezo pelos argentinos – e vice-versa. Só serve para embaçar uma história tão rica de casos, epopeias e personagens”.

Maradona só na TV

Além de jogos esporádicos em campos do Brasil, o torcedor brasileiro só tinha de fato a possibilidade de assistir os jogos de Maradona pela TV aberta, pois o país ainda não possuía emissora de TV a cabo, fosse em jogos da Copa do Mundo (a cada quatro anos), da Copa América ( a cada dois anos nos anos 1980) e pela transmissão dos jogos do campeonato italiano que passaram a ser transmitidos para o país pela TV Bandeirantes, a partir de 1984, quando o craque argentino com outros como Zico, este no ano anterior, 1983, foram atuar nas equipes do Napoli e Udinese, respectivamente. Daí, quem era fã de Zico e flamenguista se torna momentaneamente torcedor da Udinese, e queM é fã de Maradona passa a torcer pelo Napoli. A rivalidade entre os craques ganha espaço nos gramados do “Calcio”. A cada manhã de domingo, o futebol italiano concorre com as corridas de Fórmula 1 que tinham Ayrton Senna e Nelson Piquet como representantes brasileiros e que eram transmitidas pela TV Globo.

A desconstrução do mito argentino pela mídia brasileira

Não faltaram motivos para a desconstrução do mito Maradona no Brasil. A rivalidade Brasil x Argentina; a mitificação de Zico, as comparações com Pelé e o engajamento político do craque argentino, que após sua aposentadoria assumiu uma militância de esquerda, sendo sempre visto nas companhias de líderes políticos como Fidel Castro e Hugo Chaves. Sobre o Brasil, por diversas vezes o ídolo expressou seu apoio a Lula, denunciando a perseguição jurídico-política que o ex-presidente brasileiro sofre desde o início da Operação Lava Jato, quando ficou preso por 580 dias.

Sempre houve uma má vontade da mídia brasileira para com o ídolo argentino, e isso ficou mais evidente após a conquista da Copa 86.

“Não é à toa que Diego Maradona começou a ser atacado pelas mídias empresariais a partir do momento em que assumiu posições políticas à esquerda, demonstrando suas simpatias por governos como os de Cuba e Venezuela. Ao contrário de Pelé, Zico e Neymar, que defendem o establishment conservador e de direita, Diego Maradona nunca poupou críticas ao oportunismo e à ganância dos dirigentes do futebol internacional, recusando-se a exercer o papel de ídolo bem-comportado” – diz o jornalista sindical André Pellicione, torcedor do Botafogo.

Caniggia elimina o Brasil, depois de jogada magistral de Maradona. Foto: reprodução do Wikipedia

Tentar ver Maradona na geral, o recanto dos esquecidos da sociedade

Confesso que, como admirador de Maradona, me senti um tanto frustrado com suas atuações, tendo presenciado no Maracanã duas partidas, Flamengo x Boca e Brasil x Argentina em 1989. Creio que pelo fato de não ser torcedor do Flamengo, que tinha e ainda tem Zico como seu grande ídolo, eu, um garoto de 10 anos de idade, queria ver o Boca Juniors de Maradona arrasar o Flamengo de Zico, mas não foi possível.

Mas aquele garoto viu pela primeira vez em um estádio de futebol o seu ídolo no futebol, como brasileiro e carioca não me sentia muito à vontade para declarar minha admiração por Maradona, ainda mais ele sendo um craque argentino.

Já com 18 anos, em 1989, presenciei na geral do Maracanã uma das melhores atuações da seleção brasileira no estádio. Fui novamente para ver Maradona, mas vi Bebeto e Romário em performances espetaculares. Assistir a uma partida deste nível com estes craques no setor popular do Maracanã, que era destinado aos pobres, com uma visão bastante prejudicada pelo fato de se assistir um jogo em pé, coisa impossível de acontecer hoje em qualquer grande estádio brasileiro após a Copa de 2014, era fazer uma verdadeira imersão no palco de jogo às cegas, já que naquele setor era praticamente impossível assistir uma partida de futebol por conta da configuração do espaço da geral que estava localizada no mesmo nível do gramado. Isso fazia com que as placas de publicidade impedissem a visão correta dos detalhes dos jogadores e jogadas. Quem tivesse menos de 1,85 metro só conseguia enxergar os jogadores altos do joelho para cima, imagine tentar enxergar Maradona com seus 1,65 metro? No meu caso só consegui ver Maradona de sua cintura para cima.

Naqueles tempos, a geral representava a síntese de exclusão social do Brasil. O setor era frequentado pela camada marginal da sociedade, entre pobres, negros, desdentados e desempregados que pagavam o equivalente a R$ 5,00 (cinco reais) pela entrada. Era comum nos momentos que antecediam os jogos pessoas pedindo esmola para complementar o dinheiro total para compra de ingressos para a geral. Sem dúvida nenhuma, este setor do Maracanã era um recorte social do Brasil, nele trabalhadores informais sem qualquer tipo de licença da administração do estádio vendiam picolés, laranjas, biscoitos, água, cigarros, entre outras mercadorias. A geral também era o termômetro de insatisfação da torcida em momentos de derrotas de seus times, a insatisfação com técnicos, jogadores e dirigentes iam de vaias até o arremesso de rádios portáteis e pilhas ao banco de reservas, o trio de arbitragem de vez em quando também era “brindado”. O fosso que separava o setor do gramado não era impedimento para invasões solitárias de torcedores que queriam abraçar seus ídolos ou que protestam diante de derrotas acachapantes.

Rostos da desigualdade

Eu ainda não sabia que Diego Maradona era um astro que tinha origem pobre em seu país, nascido em Villa Fiorito, periferia de Buenos Aires, e nem tinha ideia de quanto ele tinha extrapolado sua fama, eu só queria saber de futebol. Em 1989, Maradona ainda vivia seu auge no Napoli, de alguma forma, a cidade italiana, que também tem o nome do clube, tinha muitas semelhanças com a realidade de Brasil e Argentina, expostas através de sua desigualdade social tão características entre seus habitantes. A realidade apresentada por meio das feições nos rostos dos frequentadores de setores populares dos estádios San Paolo, La Bombonera e Maracanã refletiam bem isso.

O documentário “Napoli Corner”, de Bernard Block, produzido 1987, mostra bem como Maradona, de alguma forma, representava os “descamisados”, termo que Juan Perón, ex-presidente da Argentina, usava para se referir aos pobres. A película que está disponível no youtube mostra como “El Diez” era adorado e visto como herói pela população de uma região abandonada do sul da Itália, e que transmutava para o futebol dias de glória e dignidade, da mesma forma que os descamisados brasileiros e argentinos, aqueles que frequentavam os setores populares e mais baratos dos estádios para desafogar no futebol suas mágoas de uma vida tão dura e difícil. Para muitas dessas pessoas, o futebol é um inebriante, um álcool que entorpece a alma.

Diego Maradona foi e é um homem comum que viveu e vive diante de seus erros e vicissitudes como qualquer um de nós. Talvez o inesquecível Garrincha tivesse essa mesma alma e proximidade com Maradona, e também com esse mundo que é povoado por uma maioria de esquecidos da sociedade que amam o futebol.

A alegria do povo que se faz nos gols, dribles e polêmicas. Dos folhetins que desumanizam craques e transformam erros fora de campo em uma vida “pregressa”, chocando os falsos moralistas que transformam problemas pessoais em novelas e dramas para vender jornais e obter mais audiência.

Ledio Carmona: Pelé era o melhor e Maradona, genial. Foto: Reprodução da TV.

O dia em Maradona foi Maradona contra o Brasil

Porém, me senti vingado na Copa de 1990, quando pela TV vi Maradona levar adiante uma jogada em que driblou quatro marcadores brasileiros e deu uma assistência para Caniggia eliminar o Brasil. Eu vibrei e muitos podem achar isso estranho até hoje, mas é que Maradona é meu ídolo, não me importando que ele seja argentino. É uma sensação estranha assistir à sua seleção ser eliminada de uma Copa do Mundo, ainda mais com a participação de um jogador que é meu ídolo.

Tive a oportunidade de assistir dentro do Maracanã dois jogos de Maradona, o fato do “El Diez” não ter tido destaque com uma atuação de gala sob meu olhar a partir de uma arquibancada ou geral não diminui minha admiração por seu talento.

Tentei contato com Maradona e Zico, mas não obtive retorno. Não sou jornalista esportivo e atuo no jornalismo sindical, sendo contratado do Sindicato Petroleiros do Rio de Janeiro. Minha militância política me fez ser mais fã de Maradona e admirar sua conduta como pessoa pública, de alguma forma dou aqui meu testemunho e apresento minha visão sobre este ídolo que tenho e que completa 60 anos. Encerro com um relato que achei muito sincero de um jornalista brasileiro que teve a oportunidade de conviver de alguma forma com Diego Armando Maradona, e que de alguma forma resume muito bem minha visão sobre “El Pibe de Oro”.

“Maradona foi um jogador à frente do seu tempo. Não era craque. Era um gênio. Não era adestrado. Era controverso, polêmico, provocador e sincero. Era um artista. Com dribles, golaços, jogadas geniais e um temperamento único. Dócil e amado pelos companheiros. Consegui ficar menos de um minuto no ônibus da Argentina, em Turim, logo após a Argentina eliminar o Brasil na Copa de 1990. Os jogadores abraçavam, beijavam, reverenciavam Diego. E ele só cantava e gargalhava. Ao mesmo tempo, Diego era contestador. Não aceitava ser massa de manobra e comprou briga com o poder do futebol. E poucos ficaram ao lado dele. Mas foi o vício que o derrubou. Genial. Diego era genial. E sou realizado por tê-lo visto jogar, por tê-lo entrevistado e por alguns anos ter corrido atrás dele. Valeu a pena” – finaliza Lédio Carmona, também revelando sua admiração pelo craque argentino.

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Este texto é publicado pelo DCM com autorização da Josimar, revista da Noruega especializada em futebol. O nome da publicação é uma homenagem ao lateral-direito que, convocado por Telê Santana em razão da contusão de Edson, brilhou na Copa do Mundo de 1986 no México.

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