Garantia inflada e Tanure como beneficiado: as operações em dinheiro vivo do Banco Master

Atualizado em 10 de abril de 2026 às 9:59
Fachada do Banco Master. Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

Um relatório de inteligência financeira (RIF) enviado à CPI do Crime Organizado no Senado colocou novas suspeitas sobre a movimentação do Banco Master ao apontar operações que envolviam dinheiro vivo, garantias infladas em empréstimos e repasses a empreendimentos associados ao empresário Nelson Tanure, investigado pela Polícia Federal no caso.

Elaborado pelo Coaf, o documento cobre o período de 2022 a 2025 e reforça a linha de apuração sobre possíveis irregularidades em transações de grande porte ligadas ao banco que era controlado por Daniel Vorcaro até sua liquidação pelo Banco Central.

O relatório destaca operações em espécie acima dos limites previstos em norma, o que, segundo investigadores ouvidos pela Folha, indica o uso de dinheiro vivo em algum momento dessas transações. Entre os casos listados está uma operação de R$ 468,8 milhões realizada em setembro de 2024 com a BTG Empreendimentos, Locações e Serviços, empresa de Campo Grande do ramo de terraplanagem e aluguel de máquinas.

A companhia já havia aparecido entre as 36 empresas que tomaram empréstimos suspeitos com o Master e que passaram a ser investigadas pela PF. Parte desses recursos, segundo as investigações, foi direcionada aos fundos DMais e Bravo para bancar créditos podres e inflar ativos financeiros do banco.

O empresário Nelson Tanure. Foto: Léo Pinheiro/Folhapress

O RIF também cita uma operação de R$ 6 milhões, em março de 2024, envolvendo o Master, Marcelo Cohen e a Belvitur Viagens. Cohen é fundador da BeFly, grupo do setor de turismo que, segundo reportagem anterior, teve seu modelo de aquisições impulsionado por fundos ligados a Vorcaro.

O documento ainda faz duas referências ao B10 Fundo de Investimento, com movimentações de R$ 98,8 milhões em agosto de 2024 e R$ 218,4 milhões em outubro de 2025, apenas 40 dias antes da liquidação do banco.

Em nota, a BeFly afirmou que a operação citada corresponde a um empréstimo “regularmente firmado, com garantia de imóvel e registro em cartório, em conformidade com a legislação vigente”.

Outro trecho do relatório menciona uma operação de R$ 3,89 milhões entre o Banco Master e a produtora Amando Vidas, cujos sócios são André Valadão e Cassiane Valadão. O Coaf indica uso de recursos em espécie nessa transação. Em resposta, a empresa negou ter recebido do banco qualquer valor em dinheiro vivo nos montantes mencionados.

O caso chama atenção também pela ligação indireta com Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que já atuou como pastor de uma filial da Igreja Batista da Lagoinha em Belo Horizonte e é investigado por suspeitas de fraude nas operações do Master.

Um dos pontos mais delicados do RIF trata de operações de crédito com a empresa SI 02 Empreendimentos e Incorporações Imobiliárias. O relatório aponta incompatibilidade entre os valores emprestados e o porte da companhia, cujo capital social informado à Receita Federal é de apenas R$ 2 mil.

Em uma das operações, entre agosto de 2023 e julho de 2024, foram movimentados R$ 387,3 milhões. Segundo o Coaf, 231 imóveis foram dados em garantia com valores “muito superiores ao seu valor de mercado e ao valor de recente aquisição”. Lotes vendidos por R$ 9,3 mil chegaram a ser avaliados entre R$ 900 mil e R$ 6 milhões nas garantias apresentadas. Há ainda uma segunda menção à mesma empresa, em operação de R$ 410,9 milhões em fevereiro de 2024.

O relatório também lista operações envolvendo a Lormont Participações, ligada a Nelson Tanure, no valor de R$ 124,3 milhões, além de transações que somam R$ 377 milhões com a WNT Gestora de Recursos e fundos de investimento relacionados. Segundo a PF, há indícios de que Tanure atuava como sócio oculto do Master, com influência em fundos e estruturas societárias complexas.

A defesa do empresário nega participação oculta no banco e afirma que ele foi apenas cliente, de forma “profissional, legítima e devidamente contabilizada”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.