General Braga Netto transmite recado de Bolsonaro. Por Denise Assis

Publicado nos Jornalistas pela Democracia

General Braga Netto, novo ministro da Casa Civil, e o presidente Jair Bolsonaro

Por Denise Assis

O deslocamento do general Braga Netto para o cargo de ministro da Defesa, agora se sabe, teve para o governo Bolsonaro mais simbolismo do que imaginávamos. Ao fazer o seu “debut”, empossando o novo comandante do Exército, o general Paulo Sérgio Nogueira, o ministro Braga Netto, enfim, disse a que veio. Sua fala, tão ameaçadora quanto o seu desconforto dentro do terno que vestia, nos chega eivada de lugares comuns e recados vazios, que já não nos causam espanto ou medo. Apenas enfado, pois a indignação preferimos gastá-la com o número de mortos crescentes no gráfico que vem sendo desenhado pelo governo a que ele aceitou servir.

É preciso, inclusive, na sua largada no cargo, apontar os “equívocos” contidos no que disse. De cara, diz que é preciso “respeitar o rito democrático e o projeto escolhido pela maioria dos brasileiros. Aí a notícia carece de exatidão. O primeiro ponto, é preciso lembrar, não tivemos respeitado o rito democrático em 2018, quando o comandante das fileiras a que Braga pertence, melou o jogo, via Twitter, mandando tirar das urnas o nome do candidato líder nas pesquisas de opinião. Sem contar a avalanche de fake news que contaminou o pleito. Portanto, nem o jogo foi democrático, tampouco o que ocupa a presidência foi escolhido pela maioria.

Em seguida, ele diz que é “necessário se unir contra qualquer tipo de iniciativa de desestabilização institucional”. A esta altura, o general que acaba de chegar ao cargo, terá de decidir se pretende sair, pois partiram até aqui, do seu chefe, as principais ameaças aos demais poderes. Quanto à prosperidade do Brasil, também foi entregue nas mãos inaptas de Paulo Guedes, por Jair Bolsonaro. Desde então, o país rola ladeira abaixo.

Sim, neste ponto concordamos, enganam-se aqueles que acreditam estarmos sobre o terreno fértil para iniciativas que possam colocar em risco a liberdade conquistada em nossa nação. Tais iniciativas, tantas vezes propaladas sob a forma de chantagem no “curralzinho” do Alvorada, não serão aceitas pela sociedade escalavrada pela dor de ontem e de hoje, quando a vida dos cidadãos passou a valer pouco, na mesma proporção em que o sentimento de liberdade e justiça cresce, pedindo urgência na substituição daquele que não nos deixa respirar.

Discordo quando o senhor fala no uso das Forças Armadas para conter o desmatamento da Amazônia, onde o mundo tem os olhos postos. O que se viu até agora na atuação do vice-presidente, o general Mourão, seu colega de farda, foi uma atitude leniente, permitindo que o ainda ministro Ricardo Salles passe com a sua boiada, e os “claros” apontados pelos radares de monitoramento só alargam, enquanto a fiscalização aos que a exploram só encolhem.

Sim, a floresta, como o senhor apontou, continua de pé. Graças à sua exuberância, à luta dos povos da floresta e à sua extensão, que a permite resistir – mas até quando? Ninguém melhor que as Forças Armadas para conservá-las? Não é o que se ouve, (ou o que se lê) quando um dos seus, das suas fileiras, falam publicamente, como registrou em seu livro “Conversa com o Comandante”, o general Villas Boas. Na opinião dele não deve haver mais demarcação das terras indígenas, pois isto impede o progresso e a mineração de suas riquezas. São eles, os povos originários, um “estorvo” na visão dos que já se pronunciaram a respeito.

Por fim, não custa lembrar, que o seu discurso, se emparelhado com o pensamento do general “linha dura” Sylvio Frota, que via na sombra refletida na parede, um comunista disposto a devorá-lo. Aqui, lanço mão do que nos legou a historiadora francesa, Maud Chirio, em seu livro: “A Política nos Quartéis” (2012): “De forma paradoxal a ditadura desmobilizou amplamente as Forças Armadas brasileiras. Essa desmobilização não significa, em absoluto, uma redução do risco político em seu seio, nem sequer a persistência de um baixo nível de ativismo após a volta dos militares aos quartéis. Antes corresponde a um certo modelo de regime, que não se apoia numa base militar mobilizada, mas no assentimento mudo da maioria e num aparelho policial fanatizado e conservador, travando uma guerra privada contra a “subversão”. O que quer que eles enxergam como subversão. Ao seu discurso obscurantista, general, devolvo com o lema da Inconfidência mineira, numa alusão à data de hoje: “libertas quae sera”.