Genro de Trump atua à margem da diplomacia e articula negócios bilionários com a Rússia

Atualizado em 22 de fevereiro de 2026 às 13:40
O presidente Donald Trump ao lado do genro Jared Kushner. Foto: Divulgação

A Guerra da Ucrânia chega ao quarto ano nesta terça-feira (24) sem um desfecho claro no horizonte. Ao mesmo tempo, a possibilidade de uma trégua mediada por Donald Trump colocou a Rússia no centro de uma disputa por oportunidades econômicas envolvendo interesses dos Estados Unidos.

Segundo informações da Folha de S. Paulo, interlocutores em Moscou afirmam que propostas de todos os tipos passaram a circular nos bastidores, em um ambiente que mistura diplomacia paralela, lobby empresarial e promessas bilionárias.

Segundo relatos ouvidos na capital russa, as tratativas vão desde temas considerados plausíveis, como a devolução de ativos confiscados de empresas americanas do setor de energia, até ideias vistas como extravagantes, caso da construção de um túnel ligando a Rússia ao Alasca.

O clima é descrito como semelhante ao início dos anos 1990, período de transição ao capitalismo após o fim da União Soviética. “Parece que estamos em 1992”, afirma Dmitri, funcionário do governo russo ligado à oferta de negócios a investidores americanos, que não revela o sobrenome.

Ele faz referência ao ambiente de liberalização e disputa por ativos que marcou aquele momento histórico. “Eu já recebi propostas de todo o tipo. O que fazemos é organizar e enviar para as autoridades competentes”, diz, ao comentar o volume de projetos apresentados.

No centro das conversas está Jared Kushner, genro de Trump, que passou a atuar como figura recorrente nas negociações sobre uma possível trégua no conflito iniciado por Vladimir Putin em 2022.

Kushner tem acompanhado Steve Witkoff, lobista do setor imobiliário que assumiu papel de negociador-chefe de Trump em diferentes frentes internacionais. A atuação da dupla ocorre à margem dos canais tradicionais da diplomacia americana, o que gera desconforto no Departamento de Estado.

Um funcionário do órgão, sob condição de anonimato, afirmou temer que Kushner e Witkoff estejam sendo manipulados nas negociações. Dmitri reconhece que os contatos se multiplicam em restaurantes de alto padrão em Moscou e em locais considerados neutros, como Dubai, mas diz não ter controle sobre a natureza dessas conversas.

No final de janeiro, no Kremlin, Putin cumprimenta Kushner sob o olhar de Witkoff. Foto: Divulgação

Ele também avalia que os dois americanos demonstram pouca familiaridade com geopolítica, percepção que, segundo relatos da imprensa ucraniana, também circula em Kiev. No ano passado, Kushner e Witkoff estabeleceram diálogo com Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo, que administrava cerca de US$ 40 bilhões antes da guerra.

Juntos, teriam elaborado no fim de 2025 um plano alinhado ao Kremlin para encerrar o conflito. Embora rejeitada por Kiev, a proposta abriu caminho para a atual rodada de negociações tripartites sobre a crise.

Na quarta-feira (18), Dmitriev afirmou que a Rússia estaria oferecendo US$ 14 trilhões em oportunidades de negócios, valor equivalente a seis vezes o PIB brasileiro. Para Ivan, executivo de uma grande empresa de energia russa, o número é inflado.

“É um exagero”, diz. Ele reconhece que há projetos concretos, como a exploração de terras raras no Círculo Ártico, estimadas em 29 milhões de toneladas, mas afirma que as cifras reais estão longe do montante divulgado. Entre as ideias discutidas, está o chamado “Túnel Putin-Trump”, já mencionado por Dmitriev em rede social.

A proposta prevê uma ligação física entre Rússia e Alasca, mas é vista por observadores como instrumento simbólico para atrair o interesse americano. Para pessoas próximas ao governo russo, a apresentação de projetos grandiosos serviria como incentivo para que Trump aceite um acordo de paz em termos favoráveis a Moscou.

O pano de fundo dessas negociações é a mudança no comércio exterior russo após as sanções impostas pelo Ocidente. Em 2021, os Estados Unidos representavam apenas 6% das importações russas em comparação com a União Europeia.

Desde então, a China ampliou sua corrente de comércio com Moscou de US$ 147 bilhões para US$ 250 bilhões, enquanto os europeus reduziram sua participação de US$ 300 bilhões para US$ 80 bilhões. O espaço deixado pelo Ocidente abre margem para eventual retorno de empresas americanas, especialmente no setor de energia.

No campo mais concreto, um dos focos é a situação da Exxon, que teve cerca de US$ 5 bilhões em ativos assumidos pelo Estado russo após as sanções. Segundo Ivan, esses valores poderiam ser restituídos com relativa facilidade em um cenário de acordo.

Além disso, o projeto Vostok, da estatal Rosneft, prevê investimentos de até US$ 160 bilhões no Ártico, com potencial de produção de até 2 milhões de barris de petróleo por ano, o equivalente a 2% da oferta global.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.