“Gentili vai esvaziar um nome de centro para as eleições”, diz pesquisadora da extrema direita ao DCM. Por Zambarda

Ele

Nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, Michele Prado é pesquisadora da direita radical, incluindo também segmentos como a alt-right americana e o bolsonarismo.

Michele anunciou neste mês de abril, vendendo pela internet, o livro “Tempestade Ideológica”.

A obra é fruto de pesquisas que ela faz desde o começo da Era Bolsonaro dentro do campo de radicalização da direita. 

Ela defende, em diferentes entrevistas, que outro presidente no lugar de Jair Bolsonaro poderia ter poupado vidas na pandemia do novo coronavírus, além de estabelecer as conexões internacionais entre o assessor Filipe G. Martins e extremistas como os Proud Boys nos EUA.

As críticas de Michele Prado, no entanto, não se restringem aos bolsonaristas mais fiéis ao presidente.

Michele identifica radicalização por parte do Movimento Brasil Livre (MBL), que cogita o nome do apresentador e humorista Danilo Gentili para concorrer à Presidência da República. Embora seja de direita e amiga do comediante, a pesquisadora tem críticas ao envolvimento político de Gentili.

A colunista Bela Megale, no jornal O Globo, noticiou no dia 19 de abril que Gentili esteve em uma videoconferência com o ex-candidato João Amoedo para debater as eleições de 2022. Os dois acertaram que esse diálogo, sobre sair da polarização entre Bolsonaro e Lula, deveria incluir Sergio Moro.

O Diário do Centro do Mundo procurou Michele Prado para conversar sobre o livro “Tempestade Ideológica”, a pesquisa que envolveu o livro e o radicalismo que existe em grupos bolsonaristas – fenômeno também verificável no MBL.

A escritora e pesquisadora Michele Prado. Foto: Reprodução/YouTube

DCM: A sua pesquisa surgiu na eleição de Bolsonaro? Você rompeu com essa extrema direita logo no primeiro mês? E o livro? Teve mais material do que você esperava encontrar?

Michele Prado: Eu nunca fui bolsonarista, apesar de ter votado nele no segundo turno. Passei os anos anteriores mencionando minhas impressões a respeito do radicalismo, do movimento de massa completamente radical que estava se formando e minhas objeções ao candidato. 

Não votei nele no primeiro turno e nunca considerei uma boa opção para representar a direita.  

No segundo turno, optei por votar primeiro pelo meu antipetismo de sempre. Eu considero o PT um partido populista. E populismo aqui no conceito correto do termo, nada a ver com a confusão que fazem com assistencialismo, mas a retórica que antagoniza a sociedade entre nós e eles.

Acreditei ingenuamente que, caso Bolsonaro avançasse, ele iria ser criticado pelos formadores de opinião de dentro da bolha virtual da direita visto que eles sempre foram muito severos nas críticas ao PT. E esses influenciadores sempre passaram uma imagem, que é falsa e é bom frisar, de virtuosos defensores da democracia liberal e seus princípios basilares. Isso não aconteceu. 

Porém, só depois que eu iniciei as minhas pesquisas, de forma independente e com a ajuda de meu amigo livreiro, de Fortaleza, Josesito Padilha, comecei a compreender o que era de fato o bolsonarismo e o porquê de ter me enganado com esses “influencers”. 

Como foi seu envolvimento com eles?

Participei de um grupo de WhatsApp com vários desses influenciadores. Alguns deles se tornaram parlamentares e observei que o radicalismo estava cada vez maior e não era geração espontânea.

Não era de baixo pra cima. 

As pessoas estavam sendo levadas à radicalização porque, além das câmaras de eco, esses influenciadores toleram e até mesmo incentivam o radicalismo. Discuti com muitos deles e saí do grupo. Iniciei minhas pesquisas e o material é milhares de vezes maior do que eu sequer suspeitava em minhas maiores projeções. 

O estudo da extrema direita e da direita radical perpassa por muitos outros assuntos como história, geopolítica, filosofia, psicologia, antropologia, religião, sociologia, propaganda computacional, enfim, uma gama imensa de assuntos correlacionados. A extrema direita não é uniforme, assim como a direita radical também não é. E com a facilidade que a internet proporciona muitos conceitos e métodos se misturam uns aos outros e formam dezenas de subgrupos facilitando a camuflagem e dissimulação de seus reais objetivos e crenças. 

É um tema difícil e ainda pouco explorado no Brasil. Faço exceção ao Observatório de Extrema direita, com David Magalhães, Guilherme Casarões, Isabela Kallil e outros pesquisadores. Fora eles, o assunto é muito pouco debatido.

Em geral, quando ocorre discussão no debate público a respeito de extrema direita e direita radical, é caricaturando ou categorizando todos que não votam em x ou y como “fascista”.  Porém, como disse acima, a extrema direita não é um movimento uniforme e hoje nem mesmo é facilmente identificável.

A imagem de pessoas com tatuagem da suástica é restrita a grupos minoritários dentro do ecossistema imenso que a far-right mantém hoje. Para você ter uma ideia, os principais pensadores da extrema direita internacional são professores universitários, com phD em suas áreas. Pessoas que, visualmente, ninguém jamais diria tratar-se de um extremista. 

E aí mora o perigo. 

Jair e Carlos Bolsonaro

A direita errou gravemente ao permitir a eleição de Bolsonaro levando em consideração o que aconteceu na pandemia? Você disse para a Deutsche-Welle Brasil que vidas poderiam ser poupadas. Por quê?

Erramos grave e fatalmente. Temos quase meio milhão de mortes e a maior parte poderia ter sido evitada com uma condução minimamente responsável.

Tivemos uma condução criminosa do governo Jair Bolsonaro. Foi um erro grave e fatal permitir a ascensão de um movimento de extrema direita no Brasil, e é extrema direita de fato. Não a versão caricatural que a esquerda sempre fez dos críticos do PT. 

Esse movimento, totalmente influenciado por  conceitos e métodos da alt-right, a direita alternativa que surgiu nos EUA e agrega elementos de vários outras correntes radicais e extremistas, tem na sua mentalidade uma rejeição absurda ao consenso liberal do pós-Segunda Guerra. São contra as agências supranacionais que surgiram deste consenso e ao modelo de democracia liberal em si, na qual princípios liberais como Estado de Direito, proteção às minorias, imprensa livre e independente, respeito à dignidade humana e pluralismo são os seus pilares. 

No mais alto posto do Poder Executivo, o núcleo do governo é formado por pessoas que não respeitam, não acreditam e querem destruir essas agências e esse modelo. Um exemplo fora do Brasil é Viktor Orbán. Eles não aceitam as recomendações da OMS, que para eles é um inimigo. Soma-se a essa rejeição às agências supranacionais, o imaginário do bolsonarismo que foi totalmente formado baseado em teorias conspiratórias que povoam o ecossistema da direita radical e da extrema direita internacional. 

São dezenas de teorias conspiratórias sobrepostas, muitas que datam de muitas décadas e até séculos e que vão sofrendo uma repaginação. Gostaria de frisar que várias dessas teorias tem um cerne antissemita inegável. 

É um horror. 

MBL testa Gentili em pesquisa e grupo em Curitiba instala outdoor com apresentador. Foto: Reprodução/Twitter

O MBL tem Danilo Gentili como possível candidato em 2022 se reuniu recentemente com Amoêdo para discutir eleições. Apostar em Gentili é como a eleição do comediante ucraniano Volodymyr Zelenskiy, um nome de extrema direita que surgiu mais recentemente? 

Na eleição de 2018, votei em Amoêdo. Henrique Meirelles era o nome que eu preferia para o momento,  mas, como não cresceu nas pesquisas, eu quis apoiar o projeto do Partido Novo. 

Infelizmente o Novo foi capturado pelos radicais bolsonaristas ainda no primeiro ano de governo Bolsonaro. Amoêdo tem tentado interromper a radicalização do partido, mas isso é tarefa difícil a essa altura.

Danilo Gentili é meu amigo.

Dito isto, a minha opinião a respeito da candidatura de Gentili é que, além de ser um erro, só piora a situação. Ele vai esvaziar um possível nome de centro para evitarmos que mais uma vez o Brasil seja governado por um populista, seja à esquerda ou à extrema direita. Danilo é acusado de muitas coisas que ele não é, tanto pela esquerda quanto pelos bolsonaristas. 

Hoje mesmo vi um site com uma influenciadora da esquerda dizendo que ele é misógino. Não, ele não é.  Ele tem amigos misóginos, gente que vai tentar capitalizar com essa possível candidatura e vem incentivando. Mas eu espero que ele saia dessa barca furada. E já falei pra ele isso. 

Danilo é uma ótima pessoa, coração bom demais e ajuda muitas pessoas. Os outros não sabem porque ele não faz marketing em cima disso. 

Nem precisa e nem deveria se misturar em disputas políticas para cargos eletivos. 

Compreendo que uma pessoa como ele, que tem radicais à direita e à esquerda querendo colocá-lo na cadeia, considere a possibilidade de, em jargão popular, ligar o foda-se e se candidatar pro cargo de presidente da República.

Mas não gosto da ideia e, reitero, um candidato anti-política é tudo o que não precisamos neste momento. Melhor, na minha opinião, que ele continue independente como sempre foi e fazendo o trabalho dele. 

E longe de oportunistas, alguns radicais de direita, que tentam fazê-lo de escada pois querem chegar ao poder. Assim poderemos, juntos, continuar a criticar Bolsonaro, Lula e até vocês do DCM sem ter conflito de interesses. 

Kim Kataguiri, seus amigos e seu ex-amigo Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Há uma conexão entre o extremismo dos bolsonaristas e o MBL, levando em consideração a invasão recente do hospital em Guarulhos? 

Há muitas conexões. 

O MBL é um movimento popular que surgiu já quando a direita estava sob um processo intenso de radicalização online há pelo menos 8 anos. Eles surgiram no final de 2014 e os radicais surgiram na década anterior.

O movimento trouxe diversos elementos de fazer política baseados na alt-right, especialmente a forma memética, irônica e algumas vezes ofensiva. A trollagem também. Causar para ganhar likes, visualizações e engajamento. 

Porém, o corpo ideológico era um pouco distinto pois eles apostavam menos no conjunto de crenças de extrema direita do olavismo e mais no populismo, na retórica de que eram o povo verdadeiro versus a elite política. O foco do MBL sempre foi muito mais apostar no populismo do que difundir conceitos filosóficos da extrema direita.  

Eu repudio as duas coisas. 

Quanto ao episódio grotesco que ocorreu no Hospital de Guarulhos, é consequência direta justamente desse foco do MBL em incentivar e praticar o populismo. Estão, portanto, fazendo o mesmo de sempre.  Nem posso dizer que mimetizaram o bolsonarismo, pois são ambos frutos da mesma essência de quererem uma “revolta populista de direita radical”, como Bannon e outros agentes iliberais querem que ocorra.

Espero que eles aprendam a fazer política de outra forma pois já passou da hora de compreenderem que essa proposta irresponsável de fazer política com retórica “antiestablishment”  já trouxe muitas consequências graves. Fatais. 

Precisam entender que o sistema é a própria democracia liberal.

Separação de poderes, Estado de Direito e freios e contrapesos funcionando corretamente. Essas são as defesas de um modelo no qual as liberdades individuais são preservadas e as minorias resguardadas da fúria de uma maioria eleitoral.

Por que, na sua opinião, a direita permitiu a ascensão da alt-right e de grupos extremistas pelo mundo?

Não é que a direita brasileira apenas permitiu a ascensão da alt-right no Brasil.

Ela mimetizou todos os conceitos e métodos do movimento radical da direita americana. Como eu explico no meu livro, foi um longo processo de radicalização promovido pelo primeiro pelo olavismo e que desembocou no bolsonarismo. 

Antes da alt-right, os conceitos que eram introduzidos no imaginário da nova direita brasileira já eram aqueles que são diretamente oriundos da far-right internacional e que a maioria das pessoas não sabem, tenho certeza disso. Só com as pesquisas consegui compreender de onde vieram as visões de mundo da nova direita brasileira.

90% é do paleoconservadorismo, uma corrente radical que esteve décadas à margem do mainstream do Partido Republicano e da direita americana. Do Paleoconservadorismo, em fusão com outras correntes tanto radicais quanto extremistas,  surgiu a alt-right e a direita brasileira abraçou essa corrente, mimetizou seus métodos e incentivou a “revolta populista” promovida e buscada por Steve Bannon.

E Bannon, aliado de Trump, não é o único a difundir essa agenda.

Observo que muitos analistas acreditam que o surgimento do bolsonarismo ocorreu com a Operação Lava Jato, por culpa do PT ou das Jornadas de Junho de 2013 e considero enganoso  acreditar que cada um desses eventos sozinhos foram os únicos vetores. O processo de radicalização foi longo e foram vários fatores que influenciaram na gestação e formação do bolsonarismo.

Com ou sem Lula nas eleições em 2018 a radicalização da direita já havia ocorrido. O bolsonarismo já estava formado.  E poderá ser formado outro movimento com o mesmo cerne de ideias em torno de outro nome, pois já conseguiram radicalizar a direita quase toda.

Como assim?

Assim como a saída de Trump do poder, por exemplo, não esvaziou a far-right americana, aqui no Brasil a saída de Bolsonaro também não irá interromper esse processo de radicalização.

Os textos ideológicos que são compartilhados pela maioria dos formadores de opinião da direita. Esse grupo inclui ex-olavetes considerados “direita moderada” e são todos oriundos de pensadores da direita radical e da extrema direita internacional. 

Vai continuar, portanto, o processo de manipulação e radicalização. 

Surgirão outros populistas de direita radical no Brasil e da esquerda radical também. 

O organograma do chamado “Gabinete do Ódio” que está com a CPMI das Fake News. Foto: Reprodução

Qual é a importância do bolsonarismo que acredita em declarações negacionistas de Bolsonaro na pandemia e do chamado “gabinete do ódio” para manter a base eleitoral do presidente?

Um presidente é uma autoridade não somente funcional, como também uma autoridade moral. Desta forma, a palavra de um presidente de um país, ou de um primeiro ministro, tem um efeito milhões de vezes maior do que a palavra de um cidadão sem cargo de poder.

Cada declaração de Jair Bolsonaro em negação à gravidade do vírus, negação da pandemia, insistência em tratamentos que não comprovaram eficácia e declarações que reproduzem teorias conspiratórias da QAnon exerce um efeito potencializado sobre a população.

Incide diretamente na recusa da população em cooperar com as medidas preventivas para evitar a proliferação do vírus e o descontrole, fatal, da pandemia. 

A fala de Bolsonaro sobre virar jacaré ao tomar vacina, por exemplo, foi a verbalização de uma das mentiras propagadas pela teoria QAnon e de grupos antivacinas  que afirmam ocorrer mutação genética com o uso do imunizante.

A extrema direita não respeita e não acredita nas sugestões das agências supranacionais e não respeitam nem mesmo a ciência. Refutações empíricas não exercem efeito sobre eles pois estão absorvidos nas crenças que o ecossistema da far-right reproduz. 

Câmaras de eco, as bolhas virtuais, reproduzem essas crenças e fazem com que fiquem recebendo somente as informações nas quais já passaram a acreditar previamente. 

O “gabinete do ódio”,  que são na verdade milícias não oficiais que praticam assédio virtual de forma descentralizada, apesar de alguns comandos partirem diretamente do Palácio do Planalto, atua de forma a potencializar essas crenças. Eles fomentam o assédio contra os críticos dessa aberração toda. 

Como a direita pode se reconstruir diante do dano causado pela extrema direita?

Acho que será muito difícil para nós, os democratas da direta, reconstruir o estrago tremendo causado pelo bolsonarismo até porque somos minoria. 

A direita brasileira, incluindo a dita “moderada” composta por ex-olavetes, em geral é antiliberal e, em muitos casos, é anti-iluminista mesmo. 

São raras as exceções no campo. Carlos Andreazza é uma exceção na minha análise, por exemplo.

Ela já está capturada por esses radicais e extremistas. A maior parte dos formadores e intelectuais da direita  comungam das mesmas crenças, incluindo a rejeição total à democracia liberal e, apesar de se colocarem publicamente como moderados, o tempo inteiro compartilham conceitos e teorias de radicais e extremistas da far-right internacional.

As pessoas não sabem disso e compartilham seus conteúdos.  Muita gente vem sendo manipulada por esses radicais e extremistas e não tem a menor noção disso. 

Nas eleições dos EUA, por exemplo, vi vídeos de formadores de opinião da direita “moderada” aqui do Brasil sugerindo que Biden estava senil. Nunca esteve. Era só mais uma mentira que o ecossistema da direta radical e extrema-direita, a far-right, cria e reproduz. E viraliza mundialmente. 

Vai, portanto, piorar bastante antes de começar a melhorar.

Infelizmente.  

Michele Prado e o livro “Tempestade Ideológica”. Foto: Divulgação/Twitter

Como seu livro pode ser comprado?

Por este link.

Meu livro é totalmente independente. Passei os últimos pesquisando, escrevi e contratei uma editora, com a pré-venda estou pagando os custos do processo todos. Quero muito agradecer quem já comprou e me ajudou a realizar esse projeto. Muito obrigada mesmo.

Nas próximas semanas recebo os exemplares para começar os envios. 

Muitos formadores de opinião da direita autodeclarada ”moderada” vêm me atacando em suas redes sociais, desmerecendo a minha pesquisa e o meu livro antes mesmo do ser lançado e eles terem lido.

Eu me refiro aqui ao Francisco Razzo, Martim Vasquez e outros iliberais. Gostaria de aproveitar o espaço aqui para mandar um recado para eles: A Terra é redonda. E ela gira. 

Tem alguma coisa que eu não perguntei que você gostaria de acrescentar?

Nada mais, querido. Obrigada pelo espaço.

Preciso confessar que passei anos chamando anos o DCM de “Diário do Coo do Mundo” por causa da defesa chapa-branca que sempre fizeram ao PT. A terra girou.

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PS do DCM: Nunca fizemos “defesa chapa branca do PT”. O que fazemos desde sempre é defender a democracia de golpistas de direita para tentar evitar a ascensão de delinquentes populistas. Jair Bolsonaro prova que estávamos certos.

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