Gestão Nunes paga R$ 183 milhões a agência suspeita de usar “laranja” no Carnaval de SP

Atualizado em 22 de fevereiro de 2026 às 12:00
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Foto: Reprodução

Toda a organização do Carnaval de Rua de São Paulo foi terceirizada pela gestão Ricardo Nunes (MDB) a uma empresa registrada em nome de uma mulher que mora em um cortiço na zona norte da cidade, a MM Quarter, responsável por planejar e executar praticamente todas as etapas do evento, conforme informações do colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles.

A empresa definiu trajetos e datas dos blocos, calculou a estrutura necessária — como banheiros químicos — e coordenou equipes nas ruas durante a festa, apesar de ter sido fundada apenas em 2022 e acumular contratos milionários com a Secretaria Municipal de Turismo e a São Paulo Turismo (SPTuris).

Empresa concentrou contratos milionários do Carnaval

A MM Quarter possui mais de R$ 183 milhões em acordos vigentes com a gestão municipal, quase todos firmados sem concorrência, por meio de atas de registro de preços. No Carnaval, a empresa foi acionada para fornecer desde produtores executivos e guias turísticos até carregadores, recepcionistas e guias de apoio ao turista.

Só em fevereiro, enviou pelo menos 200 notas fiscais à prefeitura por serviços ligados a eventos públicos, incluindo a organização da folia de rua, transmissões esportivas em praças, aniversários de bairros e inaugurações.

Os valores pagos são elevados e pouco transparentes. O sistema oficial registra R$ 129 milhões em empenhos, mas omite repasses feitos pela SPTuris em 2025 e 2026, estimados em dezenas de milhões.

Desde a fundação, a empresa passou rapidamente a concentrar a área de eventos da cidade e mantém ao menos 13 contratos que somam cerca de R$ 147 milhões com a SPTuris.

Em 2024, recebeu R$ 50 milhões da gestão municipal. Em um dos casos ligados ao Carnaval, o plano inicial previa 150 diárias de guias turísticos bilíngues, mas a Secretaria de Turismo optou por contratar 2,8 mil diárias, cada uma por mais de R$ 1,1 mil, sem justificativa detalhada.

Foliões no Carnaval de rua de São Paulo. Foto: Reprodução

Falta de comprovação dos serviços prestados

As prestações de contas da empresa apresentam apenas notas fiscais com número de diárias cobradas, sem comprovação da execução ou identificação dos profissionais.

Em uma única nota, foram cobradas 274 diárias de produtores operacionais que teriam trabalhado em um sábado de pré-Carnaval, sem informações sobre quem eram, o que fizeram ou como foram contratados.

Também houve cobrança de R$ 8,6 mil pela cessão de 10 guias bilíngues para uma coletiva do prefeito sobre o Carnaval, apesar da ausência de jornalistas estrangeiros e de profissionais identificados no local, além de mais R$ 7,8 mil por três produtores executivos.

Os trabalhadores terceirizados recebem valores muito inferiores aos pagos pela prefeitura à empresa. Guias turísticos, após intervenção sindical, recebem cerca de R$ 570 por diária, enquanto a Quarter recebe mais de R$ 1.110 por cada profissional.

Parte desses trabalhadores atuou em megablocos públicos e outra parte em eventos fechados, como festas privadas, mesmo sendo remunerados com recursos públicos para indicar entradas de eventos exclusivos.

Estrutura e conexões políticas

No papel, a empresa pertence a Nathália Carolina de Souza Silva, que fundou a Quarter em abril de 2022 enquanto era sócia minoritária de Rodolfo Marinho em uma empresa de comunicação política ligada ao vereador Gilberto Nascimento (PL).

Sete dias após Marinho ser nomeado secretário de Turismo por Ricardo Nunes, a empresa passou a fechar contratos com a SPTuris. Nathália adquiriu uma empresa de prateleira e integralizou capital de R$ 1,2 milhão, apesar de informar à Junta Comercial que residia em um cortiço.

Funcionários e ex-funcionários afirmam nunca ter tido contato com a proprietária formal. Quem opera a empresa, segundo relatos, é Marcelo Camargo Martins, cujo nome forma a sigla MM, ligado a uma ONG que recebeu R$ 212 milhões da gestão desde 2022 e presta serviços turísticos como o “São Paulo City Tour”. Marinho posteriormente foi rebaixado a secretário-adjunto, mantendo influência política no setor.

A Quarter é contratada sempre a partir de atas de registro de preços, sem disputa direta, e passou a fornecer mão de obra para praticamente todos os eventos apoiados pela prefeitura — do Carnaval a shows, feiras internacionais, coletivas de imprensa e até eventos de Fórmula 1. Também administra centrais de informação turística e visitas guiadas em um contrato de R$ 36 milhões, renovado anualmente desde 2023.

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Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, ao lado de Rodolfo Marinho, então secretário municipal de Turismo. Foto: Eric Ribeiro/M&E

Prefeitura nega irregularidades

A gestão municipal afirma que a contratação seguiu a legislação e que a SPTuris possui autonomia administrativa. Segundo a prefeitura, a definição e supervisão das atividades dos terceirizados são atribuições da equipe interna da empresa pública, e todos os contratos são públicos.

Sobre a ausência de dados no portal da transparência, informou que houve instabilidade no sistema. Também declarou que o secretário-adjunto não mantém vínculo com a empresa.

Após a reportagem, O DCM recebeu a seguinte nota:

A MM Quarter repudia com veemência as inverdades e distorções publicadas nesta reportagem. A narrativa artificial, combinando insinuações pessoais, recortes fora de contexto e conclusões não se sustenta diante de fatos verificáveis e documentação formal.

É falsa a afirmação de que a sócia administradora seria “laranja”. Ela atua de forma ativa e comprovável na condução do negócio, com registros em e-mails, fotos e documentações de participação em decisões administrativas e operacionais, incluindo aprovações e acompanhamento de entregas. Há lastro patrimonial e fiscal compatível, com origem lícita e evolução coerente com os rendimentos declarados e todos os impostos pagos, o que afasta qualquer narrativa baseada em ilações.

A reportagem também erra ao afirmar que a sócia mora em um cortiço, com base em uma informação desatualizada, usada fora de contexto para sugerir situação que não corresponde à realidade atual. A sócia adquiriu imóvel em 16 de agosto de 2024, onde reside, com documentação comprobatória.

Também é incorreta a afirmação de que a empresa foi contratada sem licitação, concorrência ou por escolha direta.

Os contratos citados decorrem de procedimentos públicos realizados pela SPturis, por pregão eletrônico e Sistema de Registro de Preços, modelo previsto em lei e amplamente utilizado. Nesse formato, a seleção ocorre por meio de edital público, apresentação de propostas, disputa, julgamento por critérios objetivos, homologação e formalização de Ata de Registro de Preços. A partir dessa ata, o órgão emite ordens de fornecimento conforme sua necessidade, dentro de regras e valores previamente estabelecidos.

A contratação por ordem de fornecimento não é ausência de licitação, mas execução de processo licitado. Quem define quantitativos, datas e locais é a Administração, não a empresa. Tratar esse modelo como contratação direta é tecnicamente incorreto e induz o público ao erro.

Outro equívoco da reportagem é sustentar a narrativa de “empresa de fachada”. A Quarter possui estrutura real, com duas sedes (escritório e galpão), 62 colaboradores CLT e média de 560 prestadores terceirizados de serviço por mês, variando conforme a demanda e o volume de eventos.

A empresa conta com áreas formalmente estruturadas: Recursos Humanos e Departamento Pessoal, Financeiro, Licitações e Contratos, Produção, Administrativo e Logística Operacional, Comunicação e Design, Jurídico e Tecnologia da Informação.

A reportagem confunde o leitor ao apresentar valores de forma sensacionalista, misturando conceitos distintos para sugerir irregularidade. Há diferença entre valor global estimado, limites contratuais, empenhos e pagamento por execução comprovada. Pagamento público depende de ordem formal, execução e documentação fiscal.

O número de R$ 183 milhões não corresponde à realidade, que consiste em valor substancialmente mais baixo. Alem disso, o montante não se refere a um único contrato ou cliente, mas ao conjunto contratos, demandas e serviços prestados a diversos clientes, públicos e privados.

É igualmente importante esclarecer que faturamento bruto não é lucro. A operação envolve custos de estrutura, logística, equipe, equipamentos, encargos e tributos.

Também não procede a insinuação de emissão de notas fiscais sem comprovação. A execução segue fluxo formal e documentado: ordem de fornecimento, validação de escopo, escala e contratação individual, aceite do prestador, controle de presença, relatório, validação interna, emissão de notas e pagamento. Em demandas específicas, há ainda escala nominal, contratos, registros fotográficos e documentação vinculada à ordem.

Por fim, a Quarter mantém toda a documentação organizada e disponível para órgãos de controle, prezando pela transparência e licitude dos processos.