
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes afirmou nesta segunda-feira (1º) que as grandes empresas de tecnologia passaram a exercer um poder comparável ao de uma nova aristocracia econômica global. Durante a abertura do XIV Fórum de Lisboa, em Portugal, o magistrado criticou o domínio das plataformas digitais e classificou o fenômeno como uma forma de “tecnofeudalismo”.
“O capitalismo convencional cedeu lugar na contemporaneidade a uma nova ordem, o tecnofeudalismo. Nessa configuração, o poder não se estabelece mais pela livre concorrência entre capitais, mas pelo domínio absoluto exercido pelas plataformas digitais, que monopolizam a atenção coletiva, ditam comportamentos e extraem rendas tanto de usuários quanto de empreendedores”, declarou.
“Os cidadãos assumem a condição de servos digitais. As empresas pagam taxas para operar nas plataformas administradas pelos novos ‘senhores da terra’, as Big Techs, que hoje pretendem subjugar e ver curvados diante de si os próprios Estados”.
O discurso foi realizado durante a abertura de uma edição do Fórum de Lisboa dedicada ao tema “Nova Ordem Internacional, Tecnologia e Soberania: Desafios Democráticos, Econômicos e Sociais”. O encontro ocorre em um momento de debates globais sobre regulação das plataformas digitais, inteligência artificial e concentração de mercado nas mãos de empresas de tecnologia.
A edição deste ano teve participação mais reduzida de autoridades brasileiras em comparação com anos anteriores. Dos ministros do STF, apenas Gilmar Mendes e o vice-presidente da Corte, Alexandre de Moraes, compareceram ao evento. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), não participou por cumprir agenda no Amapá, enquanto o ministro Flávio Dino cancelou a viagem após sofrer uma fratura no pé.
Também estiveram presentes o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o vice-presidente do STJ, Luis Felipe Salomão, o presidente da OAB, Beto Simonetti, e o presidente da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carlos Ivan Simonsen Leal, além de representantes do Judiciário e da academia de Portugal.
CERTEIRO! Gilmar Mendes detonou hoje no Fórum de Lisboa:
“O capitalismo convencional morreu. Vivemos agora o tecnofeudalismo.
As Big Techs são os novos senhores da terra.
Nós, cidadãos, nos tornamos servos digitais.
Elas monopolizam nossa atenção, ditam comportamentos e extraem… pic.twitter.com/TbVXCK8sdL— Ivan Vieira 🇧🇷 (@ivanvieira_5) June 1, 2026
O termo tecnofeudalismo foi cunhado pelo ex-ministro da Economia da Grécia e uma das figuras centrais na crise da dívida europeia, Yanis Varoufakis. Sua tese é de que o capitalismo não existe mais. Em seu lugar, consolidou-se um novo sistema dominado pelas grandes empresas de tecnologia.
Segundo Varoufakis, as big techs não apenas monopolizaram mercados, mas os substituíram por uma nova estrutura econômica, na qual plataformas digitais operam como feudos contemporâneos. Nessa nova lógica, os usuários tornam-se servos, enquanto empresas tradicionais, que antes detinham o capital produtivo, assumem o papel de vassalos. O motor da economia, antes baseado no lucro e na concorrência, agora se organiza em torno da extração de renda — um processo que lembra a estrutura feudal da Idade Média.
Para sustentar sua tese, Varoufakis diferencia capital de capitalismo. O capital, entendido como meio de produção, sempre existiu, mas o capitalismo surgiu há cerca de 250 anos, quando a principal fonte de riqueza passou da posse da terra para a produção industrial. Agora, com o domínio das plataformas digitais, esse modelo teria sido superado. No tecnofeudalismo, a riqueza não se concentra mais na posse de fábricas ou mercadorias físicas, mas na captura e no controle de dados. A esse novo tipo de capital, o economista dá o nome de capital-nuvem (cloud capital). Diferente do capital industrial, que exigia grandes investimentos em infraestrutura e produção, o capital-nuvem gera valor por meio do controle sobre os fluxos de informação e o comportamento dos usuários.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa mudança, segundo o autor, é a Tesla. Embora produza muito menos veículos do que montadoras como Toyota e Volkswagen, seu valor de mercado é muito superior. O motivo não está na fabricação de carros, mas na coleta e comercialização de dados gerados pelos usuários. “Elon Musk pode desligar o seu carro com um clique. Se você tem um Tesla, ele pode apertar um botão e o seu carro para de funcionar”, alerta Varoufakis. “Isso não é capitalismo.”