Gilmar Mendes pede a inclusão de Zema no inquérito das fake news após ataques ao STF

Atualizado em 20 de abril de 2026 às 8:08
Gilmar Mendes e Romeu Zema. Foto: reprodução

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu que Romeu Zema (Novo) seja investigado no inquérito das fake news após a divulgação, pelo ex-governador de Minas Gerais, de um vídeo com bonecos que imitam magistrados da Corte. A notícia-crime foi enviada por Gilmar ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, que encaminhou o caso à Procuradoria-Geral da República. Até o momento, a PGR ainda não se manifestou. O procedimento corre sob sigilo.

A iniciativa de Gilmar foi motivada por uma publicação feita por Zema no mês passado em suas redes sociais. No vídeo, um boneco que representa o próprio Gilmar conversa com outro que imita o ministro Dias Toffoli. Nas imagens, o fantoche de Toffoli pede ao colega que suspenda a quebra de seus sigilos, determinada pela CPI do Crime Organizado.

O boneco de Gilmar então anula a decisão e, em seguida, faz um pedido: “Só uma cortesia lá do teu resort que tá pago. Tô a fim de dar uma jogadinha essa semana”, em referência ao resort Tayayá, que pertencia a Dias Toffoli e foi comprado por um fundo ligado a Daniel Vorcaro.

Na notícia-crime obtida pela Folha, Gilmar Mendes afirma que o conteúdo publicado por Zema ultrapassa os limites da crítica política e atinge diretamente a honra dos ministros e da própria instituição. Segundo o magistrado, o ex-governador “vilipendia não apenas a honra e a imagem deste Supremo Tribunal Federal, como também da minha própria pessoa”.

No documento, Gilmar sustenta ainda que, “valendo-se de sofisticada edição profissional e de avançados mecanismos de ‘deep fake’, o vídeo emula vozes de ministros da Suprema Corte para travar diálogo que, além de inexistente, tem como claro intuito vulnerar a higidez desta instituição da República, com objetivo de realizar promoção pessoal”.

O ministro também destaca o alcance da publicação. Segundo ele, o “referido vídeo” foi divulgado nas redes de Zema, que somam milhões de seguidores, e acabou republicado por diversos veículos de imprensa, ampliando de forma expressiva sua circulação. A ofensiva ocorre em meio à escalada dos ataques do ex-governador ao STF. Na semana passada, Zema declarou que Alexandre de Moraes e Dias Toffoli “não merecem só impeachment, eles merecem prisão”.

Antes mesmo da notícia-crime, Gilmar já havia reagido publicamente a Zema nas redes sociais. Ao comentar uma reportagem sobre as declarações do ex-governador, o ministro acusou o político de contradição e lembrou que Minas Gerais recorreu várias vezes ao Supremo durante sua gestão para conseguir decisões que adiaram parcelas da dívida com a União.

“É, no mínimo, irônico ver quem já geriu o Estado de Minas Gerais atacar o STF e seus membros após ter, durante sua gestão, solicitado ao Tribunal medidas que permitiram ao governo estadual adiar, por meses, o pagamento de parcelas de sua dívida com a União”, escreveu.

“O mesmo agente que hoje agride o Tribunal recorreu a ele inúmeras vezes para obter decisões que suspenderam obrigações bilionárias com a União. Sem o socorro institucional do STF, o então governador teria enfrentado um cenário de grave desorganização fiscal, com riscos concretos à continuidade de serviços públicos essenciais”.

Gilmar concluiu dizendo: “Contudo, basta que a Corte contrarie interesses políticos desse grupo para que o pragmatismo jurídico dê lugar a chavões vazios de ‘ativismo judicial’ e a ataques à honra dos ministros. É a política do utilitarismo: o STF serve como escudo fiscal e contábil, mas é tratado como vilão quando decide conforme a Constituição — e não conforme a conveniência de ocasião”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.