
Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, o ministro Gilmar Mendes, do STF, afirmou que a crise envolvendo o Banco Master foi atribuída indevidamente ao Supremo e que o problema é sistêmico. “A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima. Quem vendeu títulos foram os bancos”, disse.
Gilmar afirmou que não pretende “isentar de responsabilidade quem tem”, mas disse ver uma tentativa de colocar o tribunal em um “corredor polonês”. Para ele, eventuais relações de ministros com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro devem ser apuradas pelas autoridades competentes.
“Isso certamente está sendo investigado e as autoridades competentes devem fazê-lo. Agora, qual a relação de causa e efeito? Pessoas que fizeram empréstimos ou que eram correntistas têm responsabilidade? Claro que não”, afirmou.
“A forma da pergunta [sobre uma crise de confiança da população no STF detectada pelo Datafolha] às vezes é errada. Houve certa habilidade em transferir para o tribunal a responsabilidade por fatos que são graves e que revelam uma crise sistêmica. Por exemplo, a CVM estava há mais de ano com três diretores a menos. Portanto, sem fiscalização sobre o campo penal, lavagem e ‘otras cositas más’. A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima. Quem vendeu títulos foram os bancos. Não quero isentar de responsabilidade quem tem, mas me parece que você coloca o tribunal num corredor polonês; depois a Folha faz pesquisa e revela uma frustração”, disse.
O ministro também defendeu a manutenção do inquérito das fake news. Segundo ele, “mantido o ambiente de radicalismo, e tudo indica que vai ser mantido, dado o acirramento eleitoral, o inquérito das fake news é necessário”.

Gilmar ainda criticou a condução interna da crise no STF após a proposta de um código de ética pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Para o decano, a medida criou “um ambiente de certa desinteligência” e pareceu lançada “num momento de vulnerabilidade de alguns colegas”.
Sobre a rejeição de Jorge Messias ao STF pelo Senado, Gilmar afirmou que a derrota não ocorreu por falta de qualificação. “Foi uma questão puramente política”, disse. O ministro também apontou “uma grave falha de articulação política” do governo Lula no Congresso.