Globalismo e antissemitismo: Quem são e o que pensam integralistas como o autor do atentado ao Porta dos Fundos. Por Walter Niyama

Depois do atentado ao Porta dos Fundos, o repórter Walter Niyama mergulhou no universo dos integralistas em São Paulo — um dos três homens que jogaram bombas de coquetel molotov na produtora foi identificado e apontado como militantes do movimento de extrema direita.

Trata-se de Eduardo Fauzi, que o site da Frente Integralista Brasileira apresenta como presidente estadual do Rio de Janeiro.

Nesta reportagem, a segunda da série, se constata que os integralistas estão envolvidos em movimentos autoritários desde sua origem. Apoiaram Getúlio Vargas até que serem excluídos, com o Estado Novo. Um sobrenome famoso no meio jurídico, Reale, militou no Integralismo desde sua origem, nos anos 30. Trata-se de Miguel, pai de um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

Mais tarde, Miguel seria direto secretário de Justiça e reitor da Universidade de São Paulo. Como jurista, ajudou a redigir o Ato Institucional número 1, de 1964, que inaugurou a ditadura militar no país.

O Estado Novo e a Ditadura de 64

Lucas Carvalho, militante integralista em São Paulo, fala dos anos 30, quando havia embates entre o grupo de extrema direita e os militantes do Partido Comunista. Diz que foram os integralistas que identificaram “movimentação perigosa” na época.

“Movimentação” que foi combatida e que levou ao Estado Novo, o que ele reconhece não ter sido bom. Há uma ligação entre o Estado Novo e o golpe de 1964.

Foi general que seria integralista que, nas palavras dele, “organizou a revolução”. Trata-se de Olympio Mourão Filho.

Mourão Filho está envolvido na criação do Estado Novo, já que Vargas se manteve no poder graças à denúncia de que havia um plano de golpe judaico-comunista no país.

A esse suposto plano, se deu o nome de Plano Cohen. Era uma fraude. Em 1945, o general Goes Monteiro revelou que foi tudo invenção do general Mourão Filho.

Getúlio Vargas recebe grupo de integralistas no Catete. Foto: Reprodução/Memorial da Democracia

Para isso, ele teria contado com apoio de Plínio Salgado, que estava para o movimento fascista da época assim como Olavo de Carvalho está hoje para o bolsonarismo.

“Plínio e grande parte das lideranças estabeleceram um acordo com Vargas, que envolvia inclusive a redação do Plano Cohen. Plínio recebia recompensas por apoiar o Estado Novo. Foi prometida a entrada dele no Ministério da Educação”, contou ao DCM o professor Leandro Pereira Gonçalves, professor do departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora.

“Mas Vargas não cumpriu o planejado e, a partir desse momento, os integralistas passam a ser perseguidos”.

Certamente é por isso que os integralistas dizem que o Estado Novo de Vargas uma ditadura, que perseguiu opositores — comunistas e os membros da AIB. Já entre 1937 e 1945, Plínio Salgado precisou sair do país durante o Estado Novo.

Plínio voltou ao Brasil em 1946, um ano após a fundação do PRP (Partido de Representação Popular), a nova versão do integralismo, segundo o professor Gonçalves.

Mas os integralistas não consideram que houve ditadura no país entre 1964 e 1985. Por quê? Nesse período, Plínio Salgado foi deputado prestigiado pelos generais, enquanto seus adversários, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Paulo Freire e até Fernando Henrique Cardoso, tiveram que deixar o país.

Outros políticos também foram cassados, partidos foram extintos, houve censura e direitos humanos violados (com torturas e assassinatos).

Com a ditadura, o PRP de Plínio Salgado também foi fechado e ele encontrou abrigo na Arena, o partido que apoiava a ditadura. A oposição só tinha uma legenda, o MDB.

Foto de Plínio Salgado como filiado da ARENA. Foto: Reprodução/Câmara dos Deputados

Na ditadura, Plínio teve muitas atividades no interior, era responsável por uma serie de atividades educacionais.

“Os integralistas estavam no interior do regime, ao contrário do que ocorreu no Estado Novo”, resume Gonçalves.

Curiosamente, divergentes de outros setores de direita, Lucas e Moises afirmam que, mesmo com os traços de autoritarismo mostrados nas notícias da grande mídia, não é certo ou ideal dizer que o que ocorre na Venezuela seja uma ditadura ou que de fato Evo Moraes tenha tentado fraudar as eleições: “A imprensa não consegue ver elementos completos da realidade”.

Antissemitismo

Um dos integralistas mais importantes foi o escritor Gustavo Barroso, que foi da Academia Brasileira de Letras.

Já falecido, Barroso publicou textos antissemitas.

Questionado sobre a questão, Lucas Carvalho recorre a um malabarismo verbal. Ele diz que é preciso separar o “antissemitismo racial” do judaísmo.

Na versão oficial do movimento, o Integralismo sempre foi contra o judaísmo enquanto religião, mas não contra os judeus enquanto etnia.

“Naquela época, era comum haver críticos do judaísmo e também do protestantismo, e não dá para dizer que alguém que, nessa época, criticou o protestantismo fosse “antiprotestante”. Temos que separar cultura e religião de raça”, afirma Lucas.

“Na própria AIB, existiam judeus, como há hoje no movimento”.

À esquerda, Gustavo Barroso ostenta o uniforme integralista. Foto: Reprodução/Memorial da Democracia

Moises diz ainda que Barroso foi cooptado por antissemitas, mas que isso ocorreu por influencias externas, o que culminaria em discussões com Plínio Salgado. Ressalta que seu antissemitismo não era étnico, e que antes as críticas ao judaísmo eram “única e exclusivamente pelo viés de uma conduta econômica no mercado global”.

“Qual povo não é criticável por sua atuação no mercado financeiro? Seu livro ‘História Secreta do Brasil’ mostra que certas condutas que eles não veem como erradas na economia são imorais”, afirma Moises. Os membros da FIB lembram como exemplo disso a “usura”, hoje conhecida como “juro”.

O professor Gonçalves desmonta essa falsa construção de que não havia antissemitismo no movimento que tem o terrorista Eduardo como o militante mais conhecido.  “O antissemitismo vem justamente desse aspecto econômico. Barroso acusava que os judeus teriam promovido no Brasil, desde a independência, uma situação precária no país, com passado de dívidas, contraídos com banqueiros judeus. O Plínio e o Miguel Reale não tinham um discurso abertamente antissemita, mas o Plinio tinha uma preocupação muito intensa que era o caráter eleitoral”, afirma.

Odilon Caldeira Neto é autor de “Sob o signo do sigma: integralismo, neointegralismo e antissemitismo”

Professor de História Contemporânea da UFJF e autor do livro “Sob o signo do sigma: integralismo, neointegralismo e antissemitismo”, Odilon Caldeira Neto também é um especialista tema e falou a DCM.

Ele e o professor Leandro Pereira Gonçalves irão inclusive lançar juntos um novo livro sobre Integralismo pela Editora FGV.

Odilon explica que, entre os grupelhos neointegralistas, há uma pulverização, cada um tendo uma leitura própria do integralismo histórico e de como ele deve ser hoje. E algumas correntes são mais afeitas ao antissemitismo, e daí mais propriamente dito a posições neonazistas.

“Os mais radicais, ou indivíduos, enfim, coletividades mais radicais, têm alguma forma de interação sim com grupos neofascistas internacionais, isso desde a década de 1980 se pensarmos nos grupos que negam o Holocausto. Desde essa época, tem grupos e literatura negacionista no Brasil que tem um diálogo e relação com grupos neointegralistas”.

Gonçalves lembra ainda que Gustavo Barroso era um membro importante no movimento, um dos braços de Plínio Salgado. Era ainda comandante geral das milícias do grupo e membro do conselho superior. Não era um simples militante com ideias próprias. Barroso, inclusive, traduziu para o português um texto cujas ideias são similares às falas feitas pelos membros da FIB: Os Protocolos dos Sábios de Sião.

Trata-se de texto criado na Rússia czarista, que, a exemplo de Hitler, atribui aos judeus uma trama para dominar a sociedade. Um complô judaico de dominação mundial. Um delírio, certamente, que lembra os textos do atual chanceler, Ernesto Araújo.

No caso deste, em vez de judeus, ele fala de comunistas e globalistas.

Nova Ordem Mundial

Questionado se a FIB ainda critica a “questão dos judeus na economia”, Moises diz que o trabalho de Barroso foi aprimorado através de outros autores, que falam de uma Nova Ordem Mundial:

“Autores que falam a respeito das forças que têm se operacionalizado para a construção de uma nova ordem. Os aspectos que Barroso descobriu são apenas um segmento de um grande aspecto dentro dessa ordem. Suas pesquisas são relevantes, mas hoje temos um panorama maior, pois não são apenas pessoas judaicas que fazem parte dela, mas também pessoas sem nenhuma religião definida, e continuamos a combater esses elementos. Todos eles”.

Em 22 de setembro de 2019, numa passeata batizada de “Marcha pela Vida”, um manifestante segura a placa com os dizeres “Fora Soros”, milionário acusado por grupos de extrema-direita de patrocinar “o globalismo”. Foto: Reprodução/Facebook

Sobre quem seriam esses outros membros da suposta Nova Ordem Mundial, e quais seriam seus objetivos, Moises cita a família Rothschild, o Clube de Bilderberg, e como evidência cita um “processo forçado de islamização da Europa”.

Ele ainda nega que o crescimento de muçulmanos na Europa seja algo completamente natural, pois a “demanda”, como Moises diz, é “aproveitada por forças que querem um domínio artificial da Europa e a destruição do cristianismo”.

“É impossível a gente descrever exatamente quais são os membros e objetivos de qualquer tipo de força de manipulação, mas existem sinais que indicam que exista algum objetivo de enfraquecimento de nações e de criação de um globalismo artificial. A integração dos povos é natural, mas há uma ação explícita de grandes financistas para com isso e para propaganda ideológica”, complementa Lucas.

“Os objetivos? Fomentar guerra? Uma dissolução de princípios? Não temos como apontar, não há uma carta escrita sobre, apenas vemos o fenômeno, a sociedade já percebe isso, eu pessoalmente acho perda de tempo chamar de Nova Ordem Mundial, só precisamos ver que existe esse esforço e que as nações irão se defender dele por não ser natural”, acrescenta.

Sobre a diferença entre uma integração “natural” e uma “forçada”, Lucas diz que a questão está em romper com valores e tradições. Isso seria artificial. Como exemplo, ele fala de um cenário em que um “grande financista” despeja milhões de dinheiro privado para legalizar o aborto. “A fomentação pelo dinheiro para ir contra os valores daquela sociedade”.

Lucas diz ainda que tal financiamento pode ser feito através de bolsas para estudantes, inclusive no Brasil, mas que são bolsas com “agendas específicas”. Moises diz que é necessário apenas “seguir o dinheiro até as ONGs abortistas”. Nisso, como financiadores, eles citam a Fundação Ford, Fundação Rockfeller e Fundação McCarthy.

As ONGs pró-aborto, na visão dos integralistas, são instrumentos das tais “forças ocultas” para exterminar populações opositoras. Eles também acreditam que a vida começa “na concepção”, visão compartilhada com os conservadores. Eles se dizem abertos ao procedimento apenas em caso de risco de vida da mãe “se for 100% comprovado que exista”.

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No próximo capítulo, Walter Niyama trata do atentado ao Porta dos Fundos.

 

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