Globo censurou homenagem a Lula na Sapucaí, mas glorificou desfile pago por ditador africano

Atualizado em 16 de fevereiro de 2026 às 18:44

 

Teodoro Nguema Obiang Mangue, vice-presidente da Guiné Equatorial e filho do ditador, acompanhou o desfile da Beija-Flor em 2015

A abertura dos desfiles do Grupo Especial do Rio, no domingo (15), escancarou uma escolha canalha da TV Globo. A Acadêmicos de Niterói levou para a Marquês de Sapucaí um enredo em homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), liberado pelo Tribunal Superior Eleitoral e sem qualquer impedimento jurídico.

Ainda assim, a emissora, que detém os direitos de transmissão do Carnaval do Rio e de São Paulo, esvaziou a cobertura. Cortou o esquenta, evitou comentários técnicos sobre o conteúdo político e entregou ao público uma narrativa fragmentada.

Repórteres não contextualizaram as referências históricas e políticas do desfile. O intérprete Emerson Dias, fantasiado de Lula, praticamente não apareceu. Em determinado momento, a Globo chegou a creditar o filho do cantor como intérprete da escola.

Dias surgiu apenas ao fundo, por poucos segundos. Quem acompanhava de casa, dependente da transmissão para entender enredo, alegorias e personagens, não entendeu nada porque essa era a ideia.

Em 2015, foi diferente. Naquele ano, a Beija-Flor exibiu o enredo “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial”, patrocinado com R$ 10 milhões daquele país, governado havia 35 anos por Teodoro Obiang.

O dirigente, que comandava um país de cerca de 700 mil habitantes e grande produtor de petróleo, esteve no Rio acompanhado do filho, Teodoro Nguema Obiang Mangue, o Teodorin, vice-presidente e herdeiro político. O ditador guineano era o oitavo governante mais rico do mundo, segundo a revista Forbes, num país que ocupava a 136ª posição (de 187) no índice de desenvolvimento humano da ONU.

Inspirado, Luís Roberto celebrou os 40 anos de Neguinho da Beija-Flor como intérprete, ressaltando que ele cantou em todos os títulos conquistados.

O enredo foi elogiado por “sua abordagem poética e visualmente rica”. A comissão de frente, que representava “espíritos da floresta” e formava uma tal “árvore da vida”, foi descrita como “deslumbrante” e “orgânica”.

A criatividade nos materiais foi notada, como o uso de serragem para simular a pele de elefante. Personalidades como a atriz Cláudia Raia e os mestres de bateria foram entrevistados e bajulados. No final do desfile, Fátima Bernardes lembrou  timidamente que o país estava “ainda em busca de suas liberdades”.

O RJTV, no dia seguinte, cravou: “Colorida, florida e cheia de detalhes, a Beija-Flor emocionou”. Segundo a apresentadora do telejornal, “a escola viajou no tempo para falar das riquezas e das belezas da Guiné Equatorial”.

A Beija-Flor, amiga da casa (Roberto Marinho vendeu uma cobertura em Copacabana para Aniz Abraão Davi, bicheiro e presidente de honra da agremiação), foi campeã com essa apologia de uma ditadura. A Globo lavou dinheiro? Eis um bom tema para um desfile que jamais será realizado.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.