Globo engana o público ao chamar lobista de Israel de “especialista em Oriente Médio”

Atualizado em 1 de março de 2026 às 17:56
André Lajst, da ONG israelense Stand With Us, na Globo News

A TV Globo, ao dar espaço a um lobista de Israel e chamá-lo de “especialista em Oriente Médio”, está cometendo um flagrante estelionato jornalístico.

A cada crise gerada pelo regime de Benjamin Netanyahu, a emissora escala André Lajst para comentar, evidenciando um claro conflito de interesses. A Globo, ao esconder os vínculos ideológicos e políticos de Lajst, desrespeita qualquer código de ética.

No sábado (28), após a ofensiva contra o Irã, ele foi escalado para fazer o contraponto ao correspondente da Globo em Nova York, Guga Chacra.

Em sua fala, Lajst defendeu os bombardeios americanos no Irã, alegando que a ofensiva não se tratava apenas de defender Israel. “O discurso do regime, nas últimas décadas, não foi apenas ‘Morte a Israel’, mas também ‘Morte à América’”, disse ele, repetindo a retórica sionista vulgar.

Lajst é presidente da ONG Stand With Us e foi oficial acadêmico da inteligência da força aérea israelense. A Stand With Us Brasil determina no Brasil, entre outras coisas, a definição de antissemitismo usada pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

Em suas colunas na Folha de S.Paulo, ele se apresenta abertamente como ativista pró-Israel. Já defendeu, por exemplo, a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, conforme a proposta de Jair Bolsonaro.

Em agosto do ano passado, o historiador israelense Ilan Pappe revelou na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que houve “pressão” para que ele não participasse do evento. A Stand With Us chegou a oferecer pagar a vinda de outro historiador, mais alinhado às posições de Netanyahu, para substituir Pappe. Lajst disse à Agência Pública que tentou emplacar Benny Morris, “mas não foi aceito.”

Em 2024, a SWU pagou, juntamente com a Confederação Israelita do Brasil (CONIB) e a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), a viagem de oito jornalistas de vários órgãos da mídia corporativa (CBN, TV Cultura, Canal Meio, Metrópoles, RedeTV, Valor Econômico e SBT) a Israel. Esse gênero de jabá se chama “hasbará”.

Chamar um porta-voz do governo israelense para comentar é aceitável, desde que seja identificado como tal. O que a Globo faz ao ocultar a verdadeira identidade e os vínculos de Lajst é um claro desrespeito à ética jornalística e à audiência, tratada como um bando de otários.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.