Globo vai à China vender uma “ditadura capitalista de sucesso”. Por Sara Vivacqua

Atualizado em 29 de abril de 2026 às 16:41
O repórter Felipe Santana na China

Causou enorme surpresa no público brasileiro quando a Globo, historicamente propagadora do liberalismo e do american way of life, admitiu que o planejamento estatal chinês entrega resultados que o setor privado ocidental das “democracias polarizadas” não consegue alcançar.

O Fantástico exibiu, no domingo, o primeiro capítulo de uma reportagem especial da série Entre Dois Mundos, que comparou a infraestrutura de Xangai e Nova York — apenas uma entre várias reportagens escritas e em vídeo, todas explicitamente laudatórias sobre a China.

O repórter, agora transferido de Nova York para Xangai, escolheu cuidadosamente uma linguagem rasa e acessível, com uma explicação simplista — aparentemente correta, mas, em seu contexto, fraudulenta e insidiosa — sobre o sucesso chinês. Em suas próprias palavras: “A palavra-chave é planejamento. Como o mesmo partido está no poder há 80 anos, eles conseguem planejar e executar a obra com o mesmo partido no poder. Enquanto nas democracias, principalmente as que estão polarizadas, a gente vê um monte de político que começa a obra e não termina, e aí o próximo nem quer encostar.”

A China como modelo autoritário e o fracasso das democracias

A Globo implica, de forma distorcida, que a China seria uma “ditadura capitalista eficiente”. O sucesso chinês é atribuído à “estabilidade autoritária” da ditadura de partido único, enquanto a democracia é apresentada como inerentemente ineficiente por autorizar a “polarização” e a descontinuidade.

O aspecto fundamental do sucesso do modelo chinês não é apenas ocultado pela Globo — é deliberadamente obstruído por falsas equivalências. Esta é uma das principais propagandas que precisa ser combatida: o mito da “ditadura capitalista eficiente” como razão do sucesso chinês.

Além de ser caracterizada, nas entrelinhas, como modelo antidemocrático, a China é, por inferência, apresentada como “capitalista”. No entanto, o modelo de Estado e governo chinês, bem como seu crescimento, residem precisamente em seu caráter socialista de produção, redistribuição e planejamento. Seu modelo de participação local da sociedade nas decisões de Estado encontra poucos paralelos no mundo ocidental.

A China de hoje é fruto de uma revolução socialista, em 1949, e é regida por uma Constituição declaradamente socialista. O Partido Comunista no comando do Estado é a força que impede que a classe burguesa se solidifique e coopte o poder político. Esta é uma política central e deliberada do partido Comunista.

Os exemplos abundam; em 2021, o governo chinês desmantelou o império educacional privado lucrativo, ao forçar empresas de tutoria privada a se transformarem em organizações sem fins lucrativos, afetando cerca de US$ 100 bilhões em valor de mercado. A China parte do princípio da propriedade estatal estratégica, segundo o qual setores essenciais, como energia, telecomunicações, bancos e infraestrutura, permanecem sob controle estatal.

O governo chinês lançou a campanha de “prosperidade comum”, forçando bilionários a doar dezenas de bilhões para causas sociais. O governo chinês também destruiu o modelo de negócios de especuladores imobiliários, como no caso Evergrande, para priorizar o princípio de que “casas são para morar, não para especular”.

A China é taxada de antidemocrática quando trata sua soberania de forma estratégica. Esta semana, China acaba de aplicar sua legislação para cancelar a aquisição de sua tecnologia de IA de ponta pela Meta, de Zuckerberg, depois que a empresa tentou uma incorporação offshore, apesar de a tecnologia ter sido subsidiada pelo governo chinês. Trata-se aqui de uma política de segurança nacional e soberania digital para evitar uma potencial operação de espionagem revestida de transação comercial.

Portanto, a cooptação do poder político pela classe econômica — característica central do capitalismo — não prospera na China. No sistema capitalista, ao contrário, bilionários, inclusive internacionais (sionismo), financiam campanhas eleitorais; lobbies corporativos escrevem legislações; executivos migram entre governo e setor privado em “portas giratórias”; e corporações tornam-se “grandes demais para falir”.

É fundamental compreender que a China não é contra o mercado. Ela o entende como parte do processo de desenvolvimento socialista, seguindo a teoria de Deng Xiaoping do “socialismo com características chinesas”. A China é contra o mercado livre sem regras, no qual a classe econômica sequestra as decisões políticas — exatamente o que ocorre nos capitalismos “democráticos” e abertamente autoritários.

O timing político

O timing político desta campanha ideológica da Globo parece oportunista, mais do que acidental. A Globo — uma emissora com longa trajetória de apoio político ao autoritarismo, da ditadura de 1964 ao mensalão, à Lava Jato, ao golpe contra Dilma e à prisão de Lula — precisa desqualificar a democracia em ano eleitoral, justamente quando o grande embate será entre Lula e as forças que se constroem e se unificam a partir do sentimento de descrédito da democracia.

O presidente Lula acaba de se reunir, em um congresso mundial em Barcelona, com líderes progressistas dos cinco continentes preocupados com os sentimentos de desconfiança em relação à democracia, em um esforço conjunto contra a erosão dos valores democráticos, de suas instituições e dos direitos fundamentais — elementos que formam o suporte ideológico da ascensão da ultradireita autoritária.

O que a Globo faz é usar fraudulentamente o modelo chinês para normalizar o autoritarismo. O capitalismo, em sua essência concentradora do poder político e econômico, gerou desastres econômicos e sociais, alguns irreversíveis.

Basta observar as estáveis monarquias do Golfo — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar — onde a prosperidade está concentrada em elites minúsculas, enquanto a população comum, especialmente trabalhadores migrantes, vive em condições de semiescravidão. Suas economias têm dependência estrutural do petrodólar, baixa diversificação produtiva e nenhuma soberania real diante dos Estados Unidos.

Vale lembrar também a estável ditadura de Pinochet no Chile, entre 1973 e 1990, laboratório do neoliberalismo de Chicago, com privatizações massivas, desmantelamento do Estado e crescimento do PIB às custas de desigualdade brutal. Como legado, além do terror de Estado, deixou um sistema previdenciário privado falido, saúde e educação privatizadas e inacessíveis, além de uma ultradireita em ascensão.

O “milagre econômico” da ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985, também foi um castelo de cartas baseado em endividamento externo e concentração brutal de renda: o bolo cresceu, mas nunca foi dividido.

Se o modelo chinês, deve ser seguido, que seja sobre sua premissa correta – o sucesso do socialismo.

O que está em crise não é a democracia, mas o capitalismo, incompatível com ele e qualquer prospecto de igualdade e soberania. Isso a Globo não mostra.

Sara Vivacqua
Sara Vivacqua é advogada, graduada em Direito pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha), e mestre (honours)em Jornalismo Investigativo pela Birkbeck, University of London, com menção máxima (distinction) na dissertação final sobre os povos Yanomami. Atuou como procuradora no Government Legal Department (GLD) junto ao Ministério do Meio Ambiente do Reino Unido, e é conhecida por sua atuação na campanha pela libertação de Julian Assange em Londres