Google Trends mostra que Bolsonaro é hoje um dos maiores desinformadores sobre covid-19. Por Hellen Alves 

As apostas de Bolsonaro contra a Covid-19: cloroquina e ivermectina. Foto: Reprodução

Circulam nas redes sociais histórias de pessoas que, supostamente, foram curadas do novo coronavírus após tratamento com a hidroxicloroquina e a azitromicina. Há também relatos de que a ivermectina tem efeito preventivo contra a doença. Apesar da promessa de cura e da busca por um tratamento específico, essas drogas não têm eficácia comprovada contra a Covid-19.

A pós-doutoranda Rosa Lucchetta e a doutoranda Marcela Forgerini, ambas do Programa de Ciências Farmacêuticas da UNESP no Campus de Araraquara, esclarecem que casos de cura após tratamento com hidroxicloroquina ou qualquer outro medicamento são possíveis, mas isso não quer dizer que estas pessoas se curaram devido ao uso destes medicamentos.

“Existem estudos de qualidade que podem comparar a frequência de cura em ao menos dois grupos, por exemplo, um grupo utilizando o medicamento em avaliação e outro não. Se o estudo seguir todos os critérios de qualidade e a diferença entre os curados em um dos grupos for significativamente maior, podemos inferir que o este grupo foi exposto a algo que causou a cura”, completam.

Dessa forma, casos isolados como o do presidente Jair Bolsonaro, garoto-propaganda da cloroquina e recente defensor da ivermectina, não comprovam que esses medicamentos devem ser utilizados no tratamento ou preventivamente contra a doença.

Considerando o cenário pandêmico e o alto número diário de novos casos e de mortes por COVID-19, além do isolamento social e a ausência concreta de perspectivas, a falta de conhecimento (do processo científico) aliada com o anseio e à esperança por terapias eficazes para o tratamento, todo esse cenário contribui para que as promessas de cura sejam facilmente aceitas, de acordo com as pesquisadoras. 

Bolsonaro, garoto-propaganda

Para além das falas que minimizam a gravidade do novo coronavírus, como, por exemplo, ‘é só uma gripezinha’, o presidente também promove uma onda de desinformação ao fazer propaganda de medicamentos que não possuem eficácia comprovada contra a Covid-19.

Quando Jair Bolsonaro fala publicamente sobre a cloroquina, como uma promessa de cura, gera uma procura pelo assunto em sites de buscas, a compra dos medicamentos e consumo dos medicamentos de forma indiscriminada, além de pressionar os médicos na prescrição das drogas aos pacientes.

Gráfico 1: Interesse pelo termo ‘cloroquina’ – Reprodução Google Trends

O pico de popularidade da palavra ‘cloroquina’ no Google Trends, ferramenta que mostra os mais populares termos buscados em um passado recente, ocorreu no período de 17 a 23 de maio. Nessa semana, Bolsonaro exigiu que o medicamento fosse liberado para pacientes com quadro leve, veio a público que o preço pago pelo governo no insumo do medicamento foi quase seis vezes o preço pago menos de um ano antes e ele afirmou que não teria um outro remédio.

“Até porque não tem outro remédio. É o que tem. Ou você toma cloroquina ou não tem nada. O que eu fico chateado também é que quem não quer tomar, não toma”, afirmou Bolsonaro no dia 23 de maio.

Gráfico 2: Interesse pelo termo ‘ivermectina’ – Reprodução Google Trends

Com relação à ivermectina, o pico de popularidade aconteceu no período de 05 a 11 de julho. Nessa semana, o presidente anunciou que testou positivo para a Covid-19 e também mencionou que muitos pacientes infectados estão tendo resultados positivos com a ivermectina.

Eficácia científica 

A hidroxicloroquina e a cloroquina são indicadas para o tratamento da artrite, lúpus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária. Já o vermífugo ivermectina é recomendado para o tratamento de infecções parasitárias, enquanto que a azitromicina é um antibiótico prescrito para infecções do trato respiratório.

“O uso de medicamentos como a ivermectina, cloroquina e azitromicina é considerado off label, uma vez que não possuem indicação e comprovação de eficácia e segurança para a infecção por COVID-19″, explicam a pós-doutoranda Rosa Lucchetta e a doutoranda Marcela Forgerini.

A hidroxicloroquina continua sendo prescrita para pacientes do novo coronavírus e alguns médicos relatam sofrer pressão dos familiares dos pacientes para a recomendação da droga, sendo até mesmo chamados de ‘assassinos’ caso não o façam e o doente venha a óbito. 

A produção da droga, mesmo sem a eficácia comprovada, foi priorizada pelo governo Bolsonaro – resultando no acúmulo de milhões de comprimidos enquanto faltam medicamentos essenciais, como sedativos e analgésicos usados na intubação de pacientes graves.

A ivermectina está sendo distribuída em alguns cidades como um preventivo contra o novo coronavírus e compõe o ‘Kit Covid-19’ com a hidroxicloroquina, a azitromicina, um remédio para enjoo, um anti-inflamatório, um anticoagulante, um remédio para dor e outro para febre. 

“Os motivos que levaram o Ministério da Saúde a recomendar tais medicamentos podem ser diversos, desde pressão social, política, fácil acesso e baixo custo dos medicamentos, mas todos estes fatores não justificam a manutenção da recomendação ou mesmo a prescrição no contexto atual, quando novos estudos estão disponíveis”, apontam as pesquisadoras Rosa Lucchetta e Marcela Forgerini. 

Além das prescrições médicas e distribuição desses medicamentos, está ocorrendo também a busca pelas drogas nas farmácias fazendo com que ocorra falta de estoque para as indicações que constam na bula desses remédios. 

“O uso irracional  desses medicamentos está associado a risco de eventos adversos a medicamentos, tais como alterações do fígado, cardíacas, tontura, náuseas, entre outros”, ressaltam as pesquisadoras.

Nesse contexto, a Agência  Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decretou que a ivermectina, a hidroxicloroquina, a cloroquina e a nitazoxanida sejam considerados medicamentos de venda controlada, ou seja, que poderão ser adquiridos apenas mediante apresentação de prescrição médica em duas vias — uma delas fica retida na loja. Cada receita tem validade de 30 dias e pode ser usada apenas uma vez.

Novas evidências e estudos científicos

A iniciativa ‘Coalizão Covid-19 Brasi’, composta pelos principais hospitais do país, concluiu recentemente por meio de pesquisa que a hidroxicloroquina, sozinha ou associada com azitromicina, não tem efeito favorável na evolução clínica de pacientes adultos hospitalizados com formas leves ou moderadas de covid-19.

Esse estudo foi publicado no New England Journal of Medicine, um dos periódico científicos mais prestigiados na área da medicina; e teve apoio da farmacêutica EMS, que forneceu os medicamentos, e foi aprovado pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A metodologia utilizada na pesquisa foi o teste cego duplo randomizado, considerada padrão-ouro em ensaios clínicos e contou com a participação de 667 pacientes.

“Estudos randomizados são assim chamados, pois os pacientes são sorteados para receber um medicamento A ou medicamento B. Esse sorteio é uma forma de que a chance de um paciente estar em qualquer um dos grupos seja a mesma e não maior ou menor a depender de características deste paciente”, explicam as pesquisadoras Rosa Lucchetta e Marcela Forgerini.

Por meio de sorteio, os pacientes receberam combinação de hidroxicloroquina, azitromicina mais suporte clínico padrão (217 pacientes); hidroxicloroquina mais suporte clínico padrão (221 pacientes); ou apenas suporte clínico padrão (grupo controle, 227 pacientes). 

Após 15 dias de tratamento, o status clínicos foi similar nos grupos tratados com hidroxicloroquina e azitromicina, hidroxicloroquina isolada ou grupo controle. Além disso, os eventos adversos, como arritmias, problemas hepáticos graves ou outros também foram semelhantes entre os grupos assim como o número de óbitos, em torno de 3%

Outro ponto importante ressaltado pelo estudo é que a alterações em exames de eletrocardiograma e exames que podem representar lesão hepática foram mais frequente nos grupos que utilizaram hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, comparados ao grupo padrão.

A coalizão é composta pelo Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o BCRI (Brazilian Clinical Research Institute) e BRICNet (Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva).

Marcela Forgerini e Rosa Lucchetta, respectivamente, doutoranda e pós-doutoranda no Programa de Ciências Farmacêuticas da UNESP (Campus Araraquara). As respostas foram fornecidas por Patrícia Mastroianni, doutora em Psicobiologia e professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP. 

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