
O governo dos Estados Unidos voltou a adotar uma retórica de confronto em relação à América Latina nesta terça-feira (06). Em publicação no X, o Departamento de Estado afirmou que utilizará “todas as ferramentas” disponíveis contra o que classificou como “traficantes de drogas, grupos apoiados pelo Irã e regimes hostis”. No texto, a região é tratada como “backyard”, termo que significa literalmente “quintal”, reforçando a ideia de esfera de domínio direto de Washington sobre os países latino-americanos.
A mensagem foi acompanhada de declarações alinhadas ao ex-presidente Donald Trump, que afirmou que os EUA não permitirão que o “Hemisfério Ocidental” se torne base de operações para adversários e competidores. O discurso associa América Latina, Venezuela e narcotráfico, e foi divulgado poucos dias depois da invasão ao território venezuelano e do sequestro do presidente Nicolás Maduro.
No comunicado, o Departamento de Estado também afirma que “os dias de fraqueza acabaram” e que todos os instrumentos disponíveis serão empregados para eliminar ameaças “no nosso quintal”. A formulação foi criticada por diplomatas e analistas por recuperar a lógica da Doutrina Monroe, que historicamente sustenta o direito dos EUA de intervir na América Latina.
President Trump is preventing the Western Hemisphere from becoming a safe haven for drug traffickers, Iranian proxies, and hostile regimes that endanger our national security.
The days of weakness are over. We will deploy every tool to eradicate these threats from our backyard. pic.twitter.com/yD3AXOCe71
— Department of State (@StateDept) January 6, 2026
O episódio ocorre no mesmo contexto em que o governo Trump recuou parcialmente em acusações formais contra Maduro. Após o sequestro do presidente venezuelano em Caracas, as autoridades norte-americanas retiraram a afirmação de que ele comandaria o chamado Cartel de Los Soles. Os documentos revisados passam a descrevê-lo como alguém que teria se beneficiado de estruturas de corrupção relacionadas ao narcotráfico.
O governo dos Estados Unidos também modificou a caracterização do Cartel de Los Soles, antes apresentado como organização estruturada e hierarquizada. No novo texto, o termo é tratado como uma “rede de redes” ligada a setores da elite e das Forças Armadas venezuelanas. Maduro se declarou inocente em audiência em Nova York e afirmou ser “prisioneiro de guerra”.
A invasão que resultou no sequestro de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, no sábado (3), ampliou a crise diplomática regional. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou nas redes sociais que não há evidência da existência do “Cartel dos Sóis” como estrutura de tráfico internacional e relacionou a operação à disputa pelo petróleo venezuelano.
O novo discurso do Departamento de Estado, chamando a América Latina de “quintal” e prometendo ação contra “regimes hostis”, ocorre exatamente no encadeamento desses fatos. A linguagem empregada no comunicado público reforça o enquadramento da região como área de influência direta dos EUA e associações entre governos latino-americanos, tráfico de drogas e ameaças à segurança dos Estados Unidos.
Enquanto isso, a situação jurídica de Maduro prossegue nas cortes norte-americanas. O mandatário venezuelano responde a acusações de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e posse de armamento, ao mesmo tempo em que sua captura é classificada por governos e lideranças políticas latino-americanas como sequestro e violação da soberania da Venezuela após a invasão ao país.