Grandes Momentos do Jornalismo: o plano secreto de Juca Kfouri

A greve dos jornalistas caminhava para um miserável fracasso em 1979, mas o jovem Juca tinha uma história para contar.

Os jornalistas decretam greve em 1979

 

Os jornalistas de São Paulo reunidos no auditório do teatro da PUC estavam tensos, assustados, desorientados naquela noite de 1979. O que fazer? A greve decretada com entusiasmo barulhento dias antes estava naufragando por uma razão básica: os jornais estavam saindo. Na última assembléia para discutir a greve, o jornalista Emir Macedo Nogueira, da Folha, dissera uma frase que se tornaria, infelizmente, profética: “Os jornais vão noticiar a nossa greve.”

O Brasil respirava um ar de greve. A ditadura militar que derrubara João Goulart em 1964 proibira greves. Sob o comando do jovem Lula, os metalúrgicos do ABC começaram a desafiar a ditadura – já então enfraquecida sob o peso de uma arrastada crise econômica que se tornaria conhecida como estagflação, a mistura de estagnação com inflação. Os jornalistas foram, como tantas outras categorias profissionais naqueles dias, contagiados pelo espírito grevista.

Mas, se os metalúrgicos tinham força, os jornalistas tinham somente vontade de fazer greve. A alegria derivada da decretação da greve duraria algumas horas apenas. Os primeiros piquetes – a tentativa a um só tempo épica, cômica e inútil de impedir a entrada de furagreves e, depois, a saída dos veículos que distribuiriam os jornais – rapidamente mostraram que o movimento dos jornalistas estava destinado ao fracasso.

Não apenas as reivindicações não seriam atendidas como, previsivelmente, haveria demissões em massa nas redações. Não só como represália, mas pela constatação de que era possível fazer os jornais com muito menos pessoas.

Em meio ao pesadelo que se armava, naquela noite de assembléia no teatro da PUC, um dos membros do comitê da greve trouxe uma notícia animadora para a platéia amedrontada. Era Juca Kfouri, então um jovem jornalista que começava sua vitoriosa carreira na imprensa esportiva. No palco, com o domínio do microfone que o faria depois se sair bem no rádio e na tevê, Juca anunciou o que para os jornalistas soou, então, como a descoberta da cura do câncer: “Temos um plano secreto para parar os jornais”. (Aos 23 anos, redator da Folha da Tarde, abarrotado de leituras maldigeridas de Lênin e Trotsky, eu estava lá.)

Se havia mesmo este plano, ele era tão secreto que os grevistas jamais souberam qual era. No mundo real, a greve seguiu rumo ao abismo. Vistas as coisas em retrospectiva, o jornalismo de São Paulo acabaria se divindindo entre dois momentos: antes da greve e depois da greve. Nunca mais os empregos perdidos retornariam.

Decretada a paralisação, os jornalistas de São Paulo enfrentariam má notícia atrás de má notícia – exceto nos breves instantes de comovedora fé cega coletiva que se seguiram ao plano secreto anunciado por Juca Kfouri como um facho de luz no meio de uma escuridão aterradora.

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