Guedes, o Posto Ipiranga, vendeu gasolina ‘batizada’ e até Bolsonaro percebeu. Por Fernando Brito

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Foto: Wikimedia Commons

Publicado originalmente no blog Tijolaço

POR FERNANDO BRITO

A manchete da Folha mostra o que vem por aí e confirma o que ontem se escreveu aqui, que A água chegou a Guedes.

Só o fato de ter-lhe sido imposta uma “meta” em meio a um quadro econômico mundial francamente desanimador mostra que Jair Bolsonaro não tem a menor noção de processos econômicos como também que Paulo Guedes é pusilânime o suficiente para aceitar, como qualquer gerente de loja, alcançar índices a todo custo, para não perder o emprego.

Li, agora há pouco, num destes fóruns de economia um comentário que tornou o riso inevitável: “os investidores locais não acreditam mais na politica econômica do governo porque ninguém pode acreditar naquilo que não existe!”

Cruel, porque até existe apenas para o mundo das finanças, que é parte, mas não toda a economia.

Em que aposta o Governo para chegar aos “magníficos” 2% de crescimento?

Em primeiro lugar, em prover liquidez ao mercado – rebaixando a níveis insustentáveis a taxa de juros básica, inundando o crédito imobiliário via Caixa e reduzindo os depósitos compulsórios da banca, o que vai, na veia, para a especulação em renda variável. O resto é só venda de patrimônio, que não é simples e não resolve senão as “contas de chegar” para a redução do déficit público.

Tudo ancorado numa taxa baixíssima de inflação que, esperam, a anemia da renda da população vá segurar assim.

Não é preciso ser um gênio para ver que a equação não fecha, porque sem consumo não há razão para investir, empregar e produzir, ainda mais com os níveis enormes de capacidade ociosa do parque produtivo. Aliás, essa ociosidade é a porta aberta para a obsolescência dos processos, que hoje envelhecem a um ritmo muito mais rápido.

A atividade econômica interna rateia e “bate pino” diante da estrada difícil que temos pela frente. A gasolina do posto, já se percebeu, é “batizada”.

Restaria como válvula para isso o comércio exterior. Igual não é preciso ser genial para ver que, ao menos este ano, deste mato não sai coelho, embora possam sair cobras, jacarés e escorpiões, a depender da continuidade dos bons índices econômicos dos EUA e do tamanho do desastre em China & companhia, pois a Europa e Japão estão com a língua de fora, como mostram os seus índices de PIB, zerados ou negativos.

A que nos conta a manchete da Folha é, em si, mais um elemento de agravamento da incerteza econômica. E dos grandes.

Guedes não é mais “intocável” e é possível que alguns leitores agora entendam porque tenho dado tanta atenção às ameaças econômicas, enquanto a política produz tantas manchetes chocantes.

E isso destrói o que resta de viabilidade política do Governo Bolsonaro.

Na juventude, quando dava aulas de matemática em curso supletivo, sempre que possível propunha os problemas com quantidades numéricas em dinheiro.

Ninguém se enganava.

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