Guerra Mundial Z acabou com um livro excelente

O enredo da obra cult de Max Brooks parece ter sido devorado por zumbis em busca de cérebros que já não existem mais em Hollywood.

O filme Guerra Mundial Z, com Brad Pitt, não ficou à altura do livro
O filme Guerra Mundial Z, com Brad Pitt, não ficou à altura do livro

Em 1980 Stanley Kubrick gravou para sempre seu nome nos anais do cinema de horror com uma obra perturbadora e original.

Tratava-se de “O Iluminado” (The Shining). Um filme sobre a descida vertiginosa de um aspirante a escritor aos obscuros porões da loucura após aceitar um trabalho como zelador de um hotel assombrado.

O roteiro, como em quase todos os seus grandes filme, era uma adaptação de um romance.

O diretor, já considerado um gênio da sétima arte, procurava um jeito de emplacar um sucesso de bilheteria. Para isso transformou o livro de Stephen King num dos filmes mais emblemáticos do gênero.

Sem muitas mudanças, Kubrick logrou mudar quase tudo.

Certas cenas são absolutamente inesquecíveis. Os fantasmas das gêmeas no corredor do hotel, o elevador cujas portas liberam uma enxurrada de sangue, Jack Torrance ensandecido, destroçando com um machado a porta do banheiro onde se refugiara sua esposa.

Elementos que não aparecem no livro e, no entanto, enchem nossos olhos no filme.

Exceto por alguns contatos telefônicos esporádicos, Kubrick e King não mantiveram qualquer colaboração ao longo da produção. E no fundo, o escritor jamais perdoou o cineasta pelo que fez com sua história e com seu ego.

Ressentimento piorado pelo consenso quanto ao fato de que Kubrick foi capaz de transformar um livro ruim num filme paradigmático com uma assinatura própria.

Dificilmente se pode mensurar a falta que faz hoje em dia um Midas cinematográfico como Kubrick, capaz de transformar o mais medíocre dos projetos em algo além do seu tempo.

Mais que isso, no entanto, destacava seu talento em preservar a reputação das obras que adaptava. Desde projetos bem sucedidos como “2001”, “Barry Lyndon” ou “Nascido para Matar”, até aqueles jamais realizados como a transposição para as telas do conto “Superbrinquedos duram o verão todo”, de Brian Aldiss.

A lucidez (ou sua ausência) ao moldar uma história originariamente concebida no formato de um livro, para as telas do cinema revela-se capital diante de fracassos clamorosos como foi o caso de “Guerra Mundial Z”, dirigido por Marc Forster, um dos lançamentos mais esperados do ano.

Aqui, a relação entre cinema e literatura culminou na transformação de uma boa idéia numa porcaria intragável.

O livro de Max Brooks é provocante e engenhoso. Estruturalmente, assemelha-se a um clássico da ficção apocalíptica escrito por Whitley Strieber e James Kunetka, na década de 80, chamado “Warday”.

Neste, dois escritores percorrem os EUA cinco anos após uma guerra nuclear limitada, construindo um mosaico do que restou da nação através de entrevistas, documentos e estatísticas.

O livro de Brooks segue a mesma linha. Através de relatos de protagonistas de um esforço global contra uma epidemia zumbi, desvela seu impacto numa sociedade em rede.

As ideias não são simplórias e a história não é medíocre. Trata-se de um fino exemplar da safra de talentosos autores que têm resgatado o tema criado por George Romero, diretor de A “Noite dos Mortos-Vivos”, e consolidado seu status de ficção séria.

Sem muitas dificuldades, “Guerra Mundial Z” transformou-se num livro cult para toda uma geração.

Fora o título, o filme homônimo que estreou mundialmente no último mês de junho não tem nada em comum com essa história. No trânsito para as telas, o enredo do livro parece ter sido devorado por zumbis em busca de cérebros que já não existem mais em Hollywood.

Marc Forster revelou-se um Kubrick às avessas.

O filme neutraliza os efeitos do enlace entre as complexas camadas sociais cuidadosamente descrito no livro de Brooks e distancia-se de qualquer contribuição séria para o gênero.

A reflexão sobre a forma como uma doença global e letal pode minar estruturas sociais, militares, políticas e econômicas é completamente ignorada na película.

A produção, além do mais, é uma demonstração patente de como o processo criativo em Hollywood alimenta e é alimentado pela imbecilização coletiva, deixando à mostra os cacoetes utilizados para anestesiar multidões nos cinemas mundo à fora.

Nada da complexidade narrativa fragmentada de Brooks. Repetiu-se a velha e nunca suficientemente saturada fórmula: a margarinesca família Lane, núcleo permanentemente ameaçado ao longo da história, cuja proteção leva o herói semidivino e reticente a assumir uma luta titânica.

É menos uma adaptação de um livro do que uma mistura entre dois filmes preexistentes: “Extermínio” (2002) e “Troia” (2004). Uma horda de zumbis velocistas dando de cara com Brad “Aquiles” Pitt.

Não saberia como designar um filme que, pretendendo escorar-se num título consolidado, apresenta-se estrutural e essencialmente como algo distinto e de qualidade indiscutivelmente inferior.

Sim. Porque “O Iluminado” de Kubrick apresenta a mesma estrutura do livro de Stephen King. As mudanças drásticas decorrem da capacidade do diretor de aprofundar a história e contribuir para melhorá-la.

Seria muita ingenuidade, no entanto, culpar unicamente o estúdio, cujo objetivo é o lucro a todo custo, por tal fraude para fãs do gênero. Sobretudo quando o autor do livro carrega o sobrenome “Brooks”.

Filho do famoso comediante Mel Brooks com Anne Bancroft, Max foi criado em Hollywood, e certamente não ignorava o possível destino do seu livro ao ser adaptado para o cinema.

Curiosamente, revelou há pouco tempo ter se negado a assinar dois contratos com editoras para a publicação e distribuição da obra na China em razão das alterações forçosas impostas pelo regime.

No livro, a epidemia inicia-se em terras chinesas. As editoras locais não poderiam publicá-lo sem trocar o nome do país por outro, imaginário. Não é a toa que o filme evita qualquer referência à China.

Brooks não aceitou a proposta.

Foi nacionalista, preferiu ver sua história desfigurada por Hollywood.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!