Guerra no bolsonarismo: Flávio avança, Tarcísio recua e a direita racha. Por Luis Felipe Miguel

Tudo indica que Flávio vai ser mesmo candidato – e que não vai conseguir unificar a direita em torno de seu nome. Mas isso não é necessariamente uma boa notícia

Atualizado em 27 de janeiro de 2026 às 18:54
Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Foto: reprodução

Ao contrário do que muita gente julgou, inclusive eu mesmo, parece que a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República é para valer. Todo mundo sabe que ele não é o melhor candidato, mas Jair precisa de alguém em quem tenha confiança absoluta, que coloque os interesses pessoais dele, Jair, acima de qualquer coisa – e não vê ninguém, além de seu rebento, que preencha este figurino.

O que não significa que ele seja capaz de pacificar a extrema-direita. Muitos preferiam um nome capaz de (ainda que risivelmente) se vender como “moderado”, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Há resistências no União Brasil, no PP, no Republicanos e no PSD. Abre-se uma brecha para que Lula negocie a sonhada “neutralidade” de algumas destas legendas.

Até lá, enquanto o filho zero-um tenta se aproximar de banqueiros e caciques partidários, a direita fica batendo cabeça, discutindo curtidas em redes sociais, denunciando traições de lado a lado. Um episódio, em particular, adquire maior dimensão: Tarcísio cancelou a visita que faria a Jair na Papudinha depois que Flávio quis transformá-la em uma rendição. Foi o mais próximo que o governador chegou de uma ruptura pública com o clã.

Zema, Jorginho Mello, Tarcísio, Bolsonaro, Caiado, Wilson Lima, Ratinho e Mauro Mendes. Foto: reprodução

Depois, claro, se enquadrou. Tem medo de perder apoio do ex-chefe e isso azedar sua reeleição.

No caso da eleição presidencial, ainda tem muita água para correr debaixo da ponte, mas, no momento, é improvável que o campo bolsonarista se una por completo em torno do senador das rachadinhas.

Se a decisão sobre as candidaturas tivesse que ser tomada hoje, o provável é que, ao lado de Flávio, estivessem nomes como o de Ronaldo Caiado, que parece realmente disposto a uma nova aventura em eleição presidencial, quase 40 anos depois de seu fracasso em 1989, e de algum outro governador, como Ratinho Jr., Zema ou mesmo Eduardo Leite.

Há ainda outro nome posto no campo da direita, cuja candidatura parece irreversível: Aldo Rebelo. Agora filiado à Democracia Cristã, simpático a Bolsonaro, o ex-dirigente do PCdoB ocupará o posto que sempre foi de José Maria Eymael (em sua sexta candidatura presidencial, em 2022, ele alcançou 11 mil votos, ou 0,01% do total). Mas, provavelmente, seu papel será o do Padre Kelmon: o de provocar Lula e tumultuar o debate.

Curioso fim para quem foi, um dia, o apparatchik de maior sucesso no Brasil.

Além disso, no campo dos apoiadores oficiais de Flávio, existe muita gente que obviamente está fazendo e vai fazer corpo mole, ou até se dedicar ao boicotar a candidatura. É o caso, em particular, de Tarcísio e de Michelle.

Existem muitos bons motivos para Tarcísio não desejar a vitória de Flávio. Com a derrota do filho de Jair, ele está em melhores condições para ser o candidato em 2030. Caso contrário, Flávio seria o nome natural, buscando a reeleição.

Publicado originalmente no Substack do autor

Luís Felipe Miguel
Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Demodê - Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades.