Guto Zacarias, o aborto, e a hipocrisia: por que o MBL é um câncer para a juventude. Por Nathalí

Atualizado em 4 de abril de 2026 às 16:00
O deputado estadual Guto Zacarias. Foto: Alesp

Quem pensa que o MBL não passa de um movimento flopado e obsoleto, e que não deve ser uma preocupação real para a esquerda (sobretudo em tempos de Nikolas Ferreira), está terrivelmente enganado.

Um de seus deputados estaduais eleitos, Guto Zacarias (Missão – SP), foi acusado de induzir a companheira grávida a um aborto — justamente eles, os paladinos da moral que vivem se autointitulando “pró-vida”.

Em áudio vazado, o deputado incentiva a ex-companheira a praticar o aborto, apresentando uma lista de argumentos pelos quais não haveria motivo para não abortar, segundo ele próprio declarou em 2024. Ele chegou a dizer que aborto só é perigoso quando é clandestino, “em periferia”.

O mesmo deputado que convenceu a companheira a fazer um aborto pago (e provavelmente seguro) nos Jardins é o que, no X, disse que “o feto é um corpo próprio, com vida própria”, tentando invalidar qualquer argumento a favor da liberdade da mulher sobre SEU próprio corpo. Segundo a biologia, que eles tanto invocam, o feto não é considerado corpo até a oitava semana de gestação — aliás, o nome científico é embrião.

Ou seja, além de ser um hipócrita que se beneficia do aborto, ele condena abortos seguros para mulheres pobres, SABENDO que são os abortos clandestinos nas periferias que matam mulheres. Percebe que, além da hipocrisia, há um terrível e nojento ódio de classe aí?

Se não bastasse, esse cara me faz perder tempo explicando argumentos básicos sobre por que o meu corpo é o MEU corpo, enquanto há coisas muito mais importantes a serem ditas sobre essa corja. Renan Santos, do partido Missão, tem crescido com o eleitorado jovem no maior estilo MBL: chamando gado em rede social e com aquele sensacionalismo que a gente já conhece.

O pré-candidato à presidência da República (embora com números, ainda inexpressivos no cenário atual) foi quem mais avançou entre a Geração Z, atingindo entre 6% e 10% das intenções de voto dos jovens entre 16 e 24 anos. Não sou eu quem estou dizendo, é o Datafolha.

O jovem médio frequentemente cai nessa armadilha, e deveríamos olhar para isso com mais cuidado do que temos olhado, sobretudo sabendo: as redes sociais são a arma mais poderosa dessa gente, que investe pesado no próprio discurso online — ainda baseado na retórica do ódio e do sensacionalismo.

É preciso, sobretudo se você for brasileiro e jovem, pensar política para além da polarização presente e compreender como movimentos como o MBL e discursos como esse moldarão, como já têm moldado, o nosso futuro político.

Se achamos que o problema se limita ao debate online ou aos números de pesquisa, estamos subestimando o efeito real dessa gente: o mesmo deputado que paga por aborto seguro para si e, ao mesmo tempo, condena mulheres pobres a arriscar a vida nas periferias é reflexo de um modelo político baseado em hipocrisia, manipulação e ódio de classe.

E esse modelo não se limita a um caso isolado: é o mesmo padrão que Renan Santos e outros jovens em ascensão seguem, conquistando espaço entre a Geração Z com retórica de ódio e sensacionalismo, transformando cada retuíte, cada meme, cada ataque digital em tijolos para construir um futuro político que privilegia a desinformação e o ódio.

Se não abrirmos os olhos, não é só Guto Zacarias que vai nos afetar: é uma geração inteira de políticos que aprende a lucrar com a hipocrisia e o ódio, enquanto finge lutar por moral e valores que nunca praticaram.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.