Habermas recusa o prêmio dos torturadores dos Emirados Árabes Unidos

Habermas. Foto: Reprodução/YouTube

Publicado no Instituto Humanitas Unisinos

“Habermas fez a escolha mais digna, aquela que além de nossa admiração deveria acender o desejo de que a ressaca do poder e da indiferença dê passagem para uma nova geração de justos. Deixem que tome a globalização em suas próprias mãos e faça algo diferente com ela”, Nando Dalla Chiesa, sociólogo, escritor e político, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 106-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

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Eis o artigo.

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Então é possível. Li que Jürgen Habermas, sociólogo e filósofo alemão, um dos mais eminentes intelectuais europeus, um dos principais protagonistas da Escola de Frankfurt, recusou um polpudo prêmio, 225 mil euros, em homenagem ao Sheikh Zaied, ex-sultão dos Emirados Árabes Unidos, destinado todo ano a personalidades da cultura mundial. O motivo pelo qual o professor de 91 anos não comparecerá para receber o prêmio em Abu Dhabi é a condição dos direitos humanos nos Emirados, da tortura ao encarceramento de líderes do movimento civil. Na verdade, parece que Habermas inicialmente mostrou-se disposto a aceitar o prêmio. Depois, uma reportagem do der Spiegel o convenceu do contrário. É certamente edificante ver, mais uma vez, que o espírito da democracia não tem idade. Mas desta vez há algo mais no gesto do idoso estudioso. E é o contexto. Um contexto em que os direitos humanos civis são espezinhados impunemente em toda longitude. Diante dos Estados, diante da ONU, diante da opinião pública mundial. Com pouca meritória indignação. À nossa volta, Europa e Mediterrâneo. E além, em todas as direções.

Hungria, Polônia, Egito, Líbia, Turquia, Síria, Arábia Saudita, mas também – e são apenas exemplos – Etiópia, Somália, Afeganistão, China, Rússia.

Por causa dos Estados, bem como pelas organizações que se tornam Estado, sejam as milícias do ISIS ou os cartéis mexicanos, direitos das mulheres e menores, migrantes e jornalistas, trabalhadores e intelectuais. Direito à água, saúde, trabalho e liberdade, meio ambiente e identidade étnica ou memória. Uma lista assombrosa de privação e violência. Claro que há progresso, é claro que nem tudo é uma catástrofe. Mas é impressionante que, na era da globalização, a única coisa que realmente não se globaliza são os direitos. Esses podem ser esmagados sem que movimentos poderosos se levantam em protesto do mundo culto e democrático. Não por instituições, desapropriadas de história gloriosa da geopolítica e das suas leis, de modo que até mesmo lembrar o genocídio armênio se torna uma empreitada corajosa. Mas nem mesmo dos partidos ou o que deveriam ser. Sentimo-nos inúteis observadores de estrelas, impotentes leitores de guerras e injustiças.

A ausência de uma autoridade mundial que imponha o respeito pelos direitos consagrados em dezenas de cartas solenes deveria pesar sobre todos, mas não parece ser um problema. Inventamos uma linguagem politicamente correta que muitas vezes beira o ridículo, em nossa pomposa corrida para nos tornarmos mais refinados, cada vez mais evoluídos no léxico formal, enquanto os fatos, crus e terríveis, não nos veem intervir nem mesmo em sonho. Diante do mundo, se reduz o Eufrates a um riacho, se ameaça confiscar o Nilo, os rios da Nigéria e da Amazônia são envenenados.

A idade dos direitos, dizia Norberto Bobbio. Suas novas gerações, escreveu Stefano Rodotà. Talvez estejamos tão fartos deles, em nossos minúsculos mundos geográficos e profissionais, que não nos damos conta dessa mentira da história, dessa dupla trilha que os torna cada vez mais afirmados e cada vez mais negados. O fato é que o aumento vertiginoso da desigualdade só pode se refletir em crescentes lacunas de poder. E, notoriamente, o poder e o direito não se afinam, eles estão em perene contenda. No coração da Europa, nas famosas pátrias do direito, se discute sobre outras coisas.

Para a França, os direitos humanos são aqueles dos “nossos” terroristas, que abalam a consciência parisiense muito mais do que as armas vendidas ao Egito de Regeni, Patrick Zaki e mil outros. Para a Itália, os direitos humanos são aqueles dos chefes da máfia libertados por falsas perícias médicas e corrupção judicial, enquanto o massacre silencioso se consuma no Mediterrâneo. Um colégio de arbitragem com sede em Haia pediu a absolvição da ex-Texaco, já condenada pela justiça equatoriana por ter envenenado um lago amazônico causando o desaparecimento de duas comunidades indígenas.

Jürgen Habermas parece reintroduzir repentinamente a grandeza do direito. Outros talvez tivessem encontrado as melhores justificativas para comparecer às celebrações. Se eu não levar o prêmio, outro o leva. Irei, mas farei um discurso memorável sobre os direitos humanos. Cultura e arte irmanam (assim como irmanavam o esporte na Copa do Mundo da Argentina, enquanto os coronéis atiravam vivos dos aviões milhares de jovens…). Ele fez a escolha mais digna, aquela que além de nossa admiração deveria acender o desejo de que a ressaca do poder e da indiferença dê passagem para uma nova geração de justos. Deixem que tome a globalização em suas próprias mãos e faça algo diferente com ela.

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