Haddad e a esperança que nunca morre: o Brasil feliz de novo. Por Pedro Zambarda

Haddad no Largo São Francisco

No ato pró-Jean Wyllys na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, 29 de janeiro, nenhum representante ou parlamentar do PDT compareceu.

Já os outros partidos de esquerda compareceram em peso.

PCdoB enviou Manuela D’Ávila. O PT mandou para o evento o seu ex-candidato Fernando Haddad. E até a Rede Sustentabilidade de Marina Silva, acredite se quiser, enviou um representante.

Foi o deputado Zé Gustavo.

Todos discursaram, ao lado dos anfitriões — Juliano Medeiros, presidente do PSOL, Guilherme Boulos, ex-candidato presidencial do mesmo partido, e, claro, os representes do Centro Acadêmico XI de Agosto.

Alguns participantes nem eram nascidos quando, no mesmo local, homens e mulheres comprometidos com a democracia se manifestavam como podiam contra o autoritarismo, que, à época, vestia farda.

E pediam, por exemplo, a anistia ampla, geral e restrita, para trazer de volta ao Brasil o irmão do Henfil, como na música imortalizada pela voz de Elis Regina, e também Leonel Brizola, o fundador do partido agora ausente.

Mas estavam lá o professor e filósofo Vladimir Safatle, Amelinha Teles (Tortura Nunca Mais) e a ex-mulher de Marielle Franco, Mônica Benício.

Resistência, fé e esperança para mudar…

Se houvesse como resumir o tom do discurso, esta seria a frase.

Mas a realidade é bem mais complexa e, por isso, seguem transcrições um pouco mais extensas das manifestações.

Manuela D’Ávila, por exemplo, disse:

“Temos que acolher uns as escolhas dos outros. Ninguém vive a vida de ninguém. Ninguém sabe como é o processo de cada um. Ninguém sabe como cada um reage. Ninguém sabe como a Mônica [Benício] se tornou a gigante que se tornou diante da execução, pelas milícias, da Marielle. Essa não é a única reação que ela poderia ter. Nós temos a obrigação de acolher as decisões das nossas companheiras e dos nossos companheiros para resguardarem suas vidas e a sua sanidade mental. Eles tentam, o tempo todo, ocupar um espaço sagrado que é as nossas mentes e os nossos corações. Eles tentam nos transformar em monstros, que são o que eles são.”

Enquanto Manuela falava, reinava silêncio na plateia.

Também causou impacto o discurso de Fernando Haddad, palavras que pareciam um fôlego de esperança:

“Eu estou disponível e estou animado para reconstruir as condições pro Jean voltar ao Brasil amanhã, se ele quiser. Uma pessoa da qualidade do Jean, com a capacidade política do Jean, que é inestimável e representa tanto pra tanta gente do ponto de vista da esperança, se sente com toda a razão ameaçada em nosso país, temos que ter um compromisso com todos que se sentem assim. Ele não é o único”.

Havia brilho nos olhos de quem ouvia. Seguiu Haddad:

“Infelizmente, ele não é o único. São muitas pessoas que estão se sentindo progressivamente cada vez mais inseguras no Brasil. Nós precisamos estabelecer as condições de sociabilidade para que todos possam morar no local em que nasceram, no local que eles decidiram lutar por uma vida melhor para a sociedade”.

Ele não disse, mas sua falava remetia ao slogan da campanha formatada para Lula e herdada por ele, que foi o candidato de Lula: O Brasil feliz de novo.

Haddad também fez críticas ao ministro Ricardo Vélez Rodrigues, que afirmou que a universidade brasileira não é para todos.

“Recebi contatos da Colômbia que me disseram que ele não é reconhecido academicamente nem por lá”, exclamou.

Para fechar o ato pró-Jean Wyllys, Guilherme Boulos discursou.

“Quero saudar a iniciativa do PSOL, do Centro Acadêmico XI de Agosto, do Haddad representando o Partido dos Trabalhadores, a Manuela representando o PCdoB, o Zé Gustado da Rede, porque nós não vamos retomar o ambiente democrático se não for com unidade. Se não for com todo mundo junto de verdade. Se a gente não tiver a maturidade de colocar aquilo que nos divide de lado pra agarrar aquilo que nos une”.

E o que nos une?

“O resgate da democracia”, concluiu Boulos.

Lamentável que, num evento tão importante como este, o PDT de Ciro Gomes, que um dia teve as feições de Brizola, não tenha comparecido.

Já não é para trazer Brizola, o irmão do Henfil ou tantos outros, combatentes da redemocratização.

É por Jean Wyllys e outros tantos que, quarenta anos depois, voltaram a sentir medo de viver nesta Pátria Mãe Gentil.

Quem combate o bom combate, hoje ou ontem, não pode abandonar a trincheira.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!