Haddad e Ciro seguem os exemplos de Lula e Brizola e reeditam aliança do sapo barbudo. Por Joaquim de Carvalho

Boulos, Ciro e Haddad na Globo

Passado o momento da disputa, Ciro Gomes emitiu sinal de que trilhará um movimento oposto ao de Marina Silva em 2014, quando o ressentimento a levou a hostilizar o PT e, pior, apoiar Aécio Neves. Ao receber um telefonema de Haddad, como informa a coluna Mônica Bergamo, disse: “Presidente!”.

A reação de Ciro seguiu o tom proposto por Haddad, na entrevista que deu ontem em Curitiba:

“Eu falei ontem (domingo) com o Ciro Gomes, mas foi um telefonema de cortesia mútua e respeito mútuo que temos em razão da longa amizade que mantemos desde o primeiro governo Lula. Vou ligar para o Ciro agora institucionalmente e, se ele se dispuser, vamos sentar para conversar e vamos tratar desses assuntos como tratamos no primeiro turno com o PCdoB. Temos total tranquilidade de ajustar parâmetros do programa para que ele seja o mais representativo dessa ampla aliança democrática que nós pretendemos fazer para resgatar uma perspectiva de reafirmação dos direitos, reafirmação dos valores democráticos que está no cerne do nosso projeto”, afirmou Haddad.

A conversa com Ciro Gomes é o passo mais importante na busca da consolidação de uma ampla aliança para derrotar a volta ao passado representada pela candidatura de Jair Bolsonaro. Disse Haddad:

“Nós precisamos restaurar um projeto de desenvolvimento com inclusão. Vou conversar com as forças democráticas do país, representadas por algumas candidaturas sim. Citei Ciro Gomes, Guilherme Boulos. Estou mantendo contato com alguns governadores do PSB, com quem tenho longa relação de amizade e política. Falei com o Paulo Câmara. Vamos falar com o Carlos Siqueira, presidente do PSB. Temos todo interesse de que as forças democráticas progressistas estejam unidas em torno desse projeto de restauração, de um projeto de desenvolvimento com inclusão social. Eu entendo que temos todas as condições de nos apresentarmos no segundo turno com a força que esse projeto merece, e disputar voto a voto o eleitorado no segundo turno.”

Haddad já tomou decisões concretas na direção da aliança com Ciro Gomes, ao recuar da proposta de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, para redigir uma nova carta. Foi Ciro quem alertou, em um debate, para a impossibilidade jurídica de levar adiante essa proposta. A Constituição não prevê a convocação de uma nova Constituinte.

Haddad pretende fazer essas mudanças por meio de propostas de emenda constitucional.

“Eu já falei no primeiro turno que nossa questão de reformar a Constituição é muito importante em função da reforma bancária, da reforma tributária e da reforma política. Não há como fazer isso sem uma reforma constitucional. Agora, a forma, nós podemos discutir com o Ciro, com o Boulos, a melhor maneira de fazer isso. Agora os nossos objetivos estão muito claros nos nossos programas, e eu penso que, em grande medida, eles são muito próximos. Eu li o programa do Ciro e vi muita convergência de ideias em relação ao que precisa ser feito. Mas é óbvio que o Ciro é uma personalidade importante do Brasil, terei a maior satisfação de sentar com ele, e depois as nossas equipes, para discutir uma formatação adequada para nos apresentarmos no nosso segundo turno com um projeto ainda mais amplo e abrangente. É assim que se faz democracia. A democracia se faz no diálogo, buscando convergência, buscando consenso, que aliás é o precisa ser feito no governo com o Congresso Nacional, buscando o texto que tenha maior respaldo da sociedade”, declarou.

Pela experiência e liderança que tem, Ciro Gomes está capacitado a desempenhar um papel central na equipe de Fernando Haddad, numa reedição do que aconteceu em 1989, quando Leonel Brizola definiu sua aproximação com Lula em uma frase: “Vamos engolir o sapo barbudo.”

Brizola e Lula haviam disputado voto a voto quem iria para o segundo turno. Lula venceu por uma diferença pequena e, credenciado para o turno decisivo, contou com a lealdade de Brizola.

Na época, Lula comandou também a articulação para uma formação de uma frente ampla e foi subindo nas pesquisas até que, na véspera, era nítida a chance de vencer, até que as TVs, Globo à frente, exploraram à exaustão a farsa de que o sequestro de Abílio Diniz tinha relação com a campanha do PT.

Além disso, a Globo fez uma edição desonesta do último debate, destacando os melhores momentos de Fernando Collor e os piores de Lula.

Nas voltas que o mundo dá, Lula venceria as eleições treze anos depois e, agora, quinze anos depois dessa vitória, mais uma vez é Lula quem dá as diretrizes para a campanha de Haddad e, para isso, conta com um momento raro de grande unidade no PT.

As tendências do partido estão unidas em torno do projeto da eleição de Haddad, e isso conta muito.

Jacques Wagner, que disputou com Haddad a indicação de Lula para a candidatura a presidente, assumiu a coordenação da campanha, e disse que o ex-prefeito deve agora assumir feições próprias, mostrar a sua personalidade ao eleitor.

É uma solução inteligente, e pode ter certeza de que, por trás dessa fala, está o faro de Lula que indica caminhos a seguir dentro do PT. Quem dispensaria conselhos de quem terminou o governo com 87% de ótimo e bom nas pesquisas?

Na formação de um exército para enfrentar a truculência dos adversários, Ciro Gomes é um aliado que soma, e é disso que a candidatura de Haddad precisa.

As diferenças não são maiores do que os interesses que unem os democratas.

É preciso isolar Bolsonaro. 

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