Helen Mirren está certa ao detonar homens que põem as mãos nos ombros das mulheres? Por Nathali Macedo

Não coloque as mãos nos ombros dela
Não coloque as mãos nos ombros dela

O último pronunciamento de Helen Mirren me fez desistir da cruel certeza de que o meu feminismo é desmedido, demente, desproporcional. É que as pessoas – a mídia, os veículos de comunicação, e sobretudo os homens – nos convencem tanto e tão bem de que somos exageradas e vitimistas que, vez ou outra, é um bálsamo que uma mulher exemplar como ela apresente um discurso tão plausível e tão intimamente compreendido por cada mulher.

Mirren, que, ao lado de outras celebridades do cenário mundial, tem dado voz ao feminismo na grande mídia, não falou da violência contra a mulher, dos estupros institucionalizados no Oriente Médio ou da latente desigualdade de gênero mercadológica; ela referiu-se a uma opressão sutil, quase suave, mas que, por isso mesmo, merece toda a nossa atenção: o quão irritantes são os homens que colocam seus braços ao redor dos pescoços de suas mulheres. Irrita-a, diz Helen, porque ela vê nisso um sinal nítido de propriedade.

Posso ouvir dezenas de justificativas aparentemente coerentes para classificar como absurdo o discurso de Helen. “É só um sinal de proteção”, eles diriam. “É apenas carinho, independe de gênero!” ou “Diabos, que diferença isso faz para o feminismo? É só um gesto particular numa relação conjugal.”

Não, amigo, não é só um gesto particular. Não é só um fato isolado. É a opressão manifestando-se de maneira tão sutil e aparentemente inguênua que é a mais perigosa porque perpetua o machismo sem se deixar notar.

É estranho, de fato, problematizar algo que pode parecer, para alguns, tão insignificante em uma sociedade em que é preciso discutir o óbvio, mas o fato é que pode haver – e há – opressões diversas inclusive em relações aparentemente respeitosas e igualitárias.

O mundo mudou e nossas lutas têm que mudar junto. E assim como questões alarmantes como a violência doméstica precisam continuar em pauta, pequenas opressões também devem começar a ser problematizadas – como um ‘inocente’ braço sobre os ombros que denota demonstração de posse e dominação.

O homem que mantém com sua companheira uma relação de fato livre de opressões precisa estar disposto a ouvir, para que pequenos e significativos gestos como estes, arraigados silenciosamente mesmo nas relações mais modernas, não passem despercebidos.

Não nos contentaremos com salários equalizados, dignidade e liberdade sexual: queremos relações cujas simbologias sutis não nos violentem. E que a confiança e o respeito mútuo estejam tão nitidamente presentes que nenhum sinal de posse, ainda que involuntário, se faça necessário. É o que merecemos – você, Helen, eu, todas nós: mãos livres e ombros leves.

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