Hipocrisia: Luciano Huck não paga IPVA pelo iate e jatinho, e diz que busca solução até no exterior para acabar com favela

Huck, o iate de 30 milhões e o jatinho do 20: tributar fortunas é um bom caminho para acabar com as favelas

Em artigo publicado hoje na Folha de S. Paulo, o apresentador Luciano Huck trata do maior problema brasileiro: a desigualdade social.

Ele não usa uma única vez esta expressão: desigualdade social.

Mas, como muita gente que como ele ocupa o topo da pirâmide, Luciano expõe o incômodo de ver gente vivendo em condições subumanas.

“Não consigo pensar em nenhum país que seja realmente admirado e tido como referência em qualquer área do desenvolvimento humano que ainda tenha parte significativa de sua população vivendo em favelas”, escreveu.

Também foi certeiro quando afirmou:

“A materialização do abismo social que nos divide é capaz de colocar no mesmo CEP a miséria e o luxo em cidades partidas como o Rio de Janeiro, consegue proezas como fazer a expectativa de vida oscilar mais de uma década nas poucas quadras que separam o Arpoador do Pavão Pavãozinho.”

Luciano Huck acerta na descrição do problema, mas erra feio na proposta de solução.

Como é comum na elite, joga a responsabilidade pelo fracasso brasileiro na classe política, como se os políticos não fossem, em grande parte, agentes da elite que perpetua a desigualdade.

“E, por favor, que ninguém apareça com a velha ‘solução mágica’: a ideia de gastar bilhões do erário com construções de qualidade e arquitetura questionáveis, a quilômetros de distância dos centros urbanos, cercadas por nada e serviço nenhum, e muitas vezes nem sequer atendidas pelo transporte coletivo”, registrou.

Huck conta que participa de um movimento, o Agora, que está buscando soluções para enfrentar o problema das favelas.

“O Movimento Agora, do qual faço parte, vem articulando neste sentido, cruzando e tabulando o que existe de melhor no universo acadêmico, na ciência, no urbanismo e em políticas públicas que se mostraram eficazes mundo afora”, afirmou.

Isso já foi tentando outras vezes — por exemplo, o projeto Cingapura, em São Paulo, era inspirado em uma experiência do país asiático —, e não teve eficácia, porque o problema não está na favela, mas na estrutura que leva à criação das favelas: a gigantesca concentração de renda no Brasil.

Pesquisa do economista Thomas Piketty, um dos maiores especialistas da área, apontou que o Brasil tem a maior concentração de renda do mundo.

Quase  30% da renda do Brasil está nas mãos de apenas 1% dos habitantes. Até no Oriente Médio, com príncipes e sultões, a concentração de renda é menor — cerca de 26%.

Se se considerar a renda nas mãos dos 10% mais ricos, o dado também é alarmante: 55%. Para efeito de comparação, basta citar que, na Europa, esse índice é de 37%.

Luciano Huck — que, como disse, reproduz um pensamento comum da elite — posa de bom moço quando afirma:

“Não podemos aceitar que nenhum brasileiro ainda viva em condições tão adversas; das escadas intermináveis enfrentadas todos os dias por senhoras carregadas de sacolas aos valões, passando pelas paredes que emendam com paredes, vielas sinuosas, esgoto a céu aberto, balas perdidas, ausência do Estado e todas as mazelas que a total falta de planejamento urbano e uma ocupação caótica podem trazer.”

Ok, Luciano Huck, estamos de acordo.

Mas esta frase perde sentido quando se sabe que, por exemplo, ele não recolhe um centavo de IPVA pela propriedade do iate e do jatinho que tem.

O Estado cobra IPVA de UNO com até 20 anos de uso, mas isenta milionários como ele do pagamento de tributo semelhante.

Para Huck, soa até hipocrisia demonstrar indignação com  sofrimento dos mais pobres quando se sabe que ele adquiriu seu jatinho com financiamento a juro subsidiado do BNDES.

Em todos esses casos, seja no acesso a dinheiro barato do BNDES quanto na isenção de impostos para avião e iate, Huck usou apenas o que lei lhe faculta.

E aí está a raiz do problema: quem faz as leis no Brasil atende a interesses de uma elite voraz, incapaz de apoiar iniciativas como a criação de impostos progressivos e a taxação de grandes fortunas (como no caso de herança), medidas que já foram tomadas pelos países que Luciano Huck admira.

O artigo de Huck tem como título “Inaceitável”, e é mesmo inaceitável ver tanta gente vivendo com migalhas a poucas quadras de tanta gente ostentando.

Mas, se Luciano Huck e outros da elite quisessem mesmo enfrentar o problema da favela, começariam pela defesa de um sistema justo de tributação e pelo combate à sonegação, um problema que tira do orçamento público bilhões de reais todos os anos.

Mas esta é uma bandeira que, se Huck levantar, corre o risco de perder o lugar de apresentador da Globo, onde a cultura de sonegação tem raízes, seja na banalização dos contratos de PJ ou na estruturação de operações de sonegação descarada, como aconteceu no caso da aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo em 2002.

No pacote anticrime de Moro, que a Globo enaltece, não há uma linha sobre sonegação.

E tudo tende a ficar como está.

O dinheiro que o rico deixa de pagar poderia ser bem empregado na solução de problemas que Huck aponta.

Se a renda no Brasil fosse melhor distribuída, as favelas seriam melhor cuidadas ou desapareceriam.

A má notícia para Huck é que o governo que ele ajudou a eleger — lavando as mãos no segundo turno — vai tornar a cena que tanto o incomoda no Rio de Janeiro ainda mais feia.

Com as reformas trabalhista e da Previdência, a renda do andar de baixo vai ficar menor, em favor da do andar de cima.

Porque a conta do desequilíbrio orçamentário será paga pelos mais pobres.

Huck poderá escrever artigos bonitos na Folha ou em qualquer outro veículo da velha imprensa, mas a realidade é que o Brasil continuará com a paisagem feia que tanto o incomoda.

Ele, pelo menos, poderá ver tudo do alto de seu jatinho ou relaxar um pouco, a bordo do seu iate.

 

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