“Hoje valemos R$ 20 milhões. Não há crise para quem trabalha duro”, diz o inventor do óculos de realidade virtual brasileiro. Por Pedro Zambarda

José Evangelista Terrabuio Jr., fundador da empresa
José Evangelista Terrabuio Jr., fundador da empresa

 

José Evangelista Terrabuio Jr. tem 46 anos, possui uma voz serena e é o entendedor de tecnologia da empresa que criou com o irmão em Curitiba, no Paraná.

Dois anos mais novo, Rawlinson Terrabuio é o homem da comunicação e organiza suas ações de marketing. A dupla desenvolveu o Beenoculus, primeiro óculos de realidade virtual brasileiro, que funciona com smartphones para games, animações e filmagens em 360 graus.

Eles estão há 20 anos no mercado de tecnologia e já desenvolveram softwares antes de entrar na confecção de produtos físicos. Nos anos 2000, eles criavam aplicações em Lnux, um sistema operacional com código aberto.

Desenvolveram um projeto em 2002 que era chamado de Caderno Digital, um computador educacional e chegou a ser implantado em escolas públicas com participação de mais de 100 profissionais. Como a grande imprensa não deu destaque algum, o negócio acabou naufragando.

Ao lançar o Beenoculus na Consumer Electronics Show (CES) no mês de janeiro de 2015, José Terrabuio e Rawlinson tiveram mais sorte e já emplacaram reportagens na mídia internacional. O motivo? Os óculos de realidade virtual custavam cerca de US$ 25, o mesmo preço do modelo de papelão desenvolvido pelo Google, chamado de Cardboard.

O modelo brasileiro, no entanto, trazia componentes mais acabados em plástico e foi inspirado no Oculus Rift, óculos top de linha que começou como crowdfunding em 2012 e foi comprado pelo Facebook por US$ 2 bilhões.

Em 2016, o Beenoculus realizou uma oficina de montagem e desenvolvimento de aplicações em games para realidade virtual no evento paulistano Campus Party. A apresentação levou o produto para diversas reportagens da mídia e até o programa da Fátima Bernardes, na TV Globo. A publicidade da imprensa rendeu uma valorização milionária para a empresa, mesmo com a retração de 3,8% do PIB do Brasil de acordo com o IBGE.

O DCM entrevistou José Terrabuio e Rawlinson sobre o sucesso do Beenoculus, o desempenho da empresa na crise e a importância do desenvolvimento da realidade virtual para o Brasil.

DCM: O José Terrabuio Jr. é o inventor? Como surgiu a ideia do Beenoculus?

Rawlinson Terrabuio: Sim, o inventor é o Junior [José Evangelista Terrabuio Jr.] e podemos dizer que foi uma conjuntura de ideias somadas que o levaram a criar o Beenoculus. Um projeto de capacete para realidade virtual de 2001 que o inspirou. Nós temos um equipamento desses conosco. No ano de 2012, o José se deparou com um projeto chamado Dive de um alemão que fazia o jogo Quake.

José Evangelista Terrabuio Jr.: Apoiamos o Occulus Rift também em 2012 pela plataforma online de crowdfunding Kickstarter. Doamos em agosto e depois compramos o Developer Kit 1 e o DK2. Gastamos ao todo R$ 6 mil reais nos dois kits e compramos uma impressora 3D para fabricar componentes. Tudo isso colaborou para a criação do Beenoculus.

DCM: O Beenoculus tem componentes parecidos com o Oculus Rift?

Junior: Os componentes parecidos são as lentes e o próprio acabamento de plástico.

DCM: Como era o primeiro protótipo do aparelho?

Junior: Eu não tinha ainda a impressora e usei um pote de sorvete para colocar o celular para funcionar. Recortei-o com estiletes e colei as lentes. Aquele Beenoculus funcionou. Já com a impressora 3D, eu consegui desenhar melhor o aparelho.

DCM: Rawlinson Terrabuio, qual é seu papel na empresa? 

Rawlinson: Eu faço a estratégia de marketing e o setor corporativo, atendendo outras empresas. Falo com corporações e instituições educacionais. Vou também aos eventos, promovo a marca e levo informações do mercado para nosso departamento de pesquisas e desenvolvimento.

DCM: Vocês estão há 20 anos no mercado de tecnologia. O que faziam antes do Beenoculus? 

Rawlinson: Começamos desenvolvendo soluções para conservação de energia elétrica, sempre tivemos uma visão em investir em soluções que resolvessem grandes problemas para a sociedade. É isso que nos move. Em 1989, o Junior patenteou um dispositivo chamado “interruptor de uso geral acionado por infravermelho passivo”. Hoje, esse nome gigante é equivalente aos sensores de presença comuns em corredores e garagens de condomínios. Existem famílias que vivem ainda hoje da instalação desses dispositivos em condomínios.

Junior: Nós crescemos muito com essa empresa e a vendemos ao final de 1999, para fundar uma indústria de hardware em Curitiba de computadores para uso industrial e militar. O negócio ia muito bem e exportávamos toda a nossa produção para o Canadá, o que permitia diminuirmos os custos de fabricação de produtos para atender o mercado brasileiro.

Rawlinson: Aportamos todos os nossos recursos nessa empresa, mas tivemos um problema com o sócio investidor que quebrou e não honrou com os compromissos de investimento.Entramos em um processo de dissolução de sociedade e até hoje corre uma ação na justiça onde tentamos recuperar nosso capital integralizado.

Junior: Da noite para o dia perdemos tudo, mas desenvolvemos um projeto pioneiro no mundo de um computador por aluno chamado Caderno Digital. Fizemos isso antes do MIT com o laptop de US$ 100 que surgiu em 2005. Há 10 anos, foi assim que começamos nosso trabalho no desenvolvimento de soluções tecnológicas para melhorar a educação.

DCM: Como foi o lançamento do Beenoculus na CES 2015?

Junior: Foi algo surreal ter ido a CES em Las Vegas e se tornou um marco na nossa história.

Rawlinson: Recebi um convite da CES para participar como visitante e pensei: por que não ir como expositor? Cotamos os espaços com a organização os valores foram altos. Quem me atendeu não desistiu, disse que poderíamos submeter nosso projeto e, se fosse inovador, poderia participar do espaço Eureka para estandes pequenos voltado para cerca de 300 startups. Nos Estados Unidos, conhecemos o Manfred Zabarauskas, chefe do projeto Google Cardboard, que nos disse: “o produto que vocês fizeram eu gostaria de ter feito”.

Junior: A imprensa internacional nos considerou como uma das 10 maiores inovações da CES 2015.

DCM: Por que o Beenoculus custava R$ 100 na estreia e hoje sai por cerca de R$ 140?

Rawlinson: Nossa meta sempre foi ter um produto que chegasse ao consumidor abaixo de R$ 100, porque mais de 82% das famílias no Brasil tem renda inferior a mil dólares por mês. Os preços de alguns produtos em nosso país são imorais e a ganância é muito grande em inovações como a realidade virtual. Essa tecnologia trará um impacto muito grande para a educação em quase todas as disciplinas. O recurso também muda o setor de games e de filmes.

Nossa missão como empresa é democratizar a realidade virtual no nosso país e no mundo. No entanto, a operação tem de ser sustentável, o dólar dobrou de valor no período e todos os nossos insumos subiram de preço. A inflação nos impactou e não conseguiríamos manter as margens sustentáveis se não fizéssemos um reajuste. Mesmo com o aumento, a Beenoculus não desistiu está investindo em pesquisa de novos materiais para ter um novo produto abaixo dos R$ 100.

O Beenoculus
O Beenoculus

DCM: Como foram as vendas de vocês em 2015?

Rawlinson: As vendas foram boas mesmo na crise. Seriam melhores se a economia estivesse mais forte. Terminamos 2015 com um faturamento considerável. A empresa vale entre R$ 15 e R$ 20 milhões, o que mostra que não há crise para quem trabalha duro. A nossa sociedade não pode ter medo de inovar.

DCM: Como vocês explicariam a um leigo, uma pessoa fora da tecnologia, a importância da realidade virtual hoje? 

Junior: As novas tecnologias de realidade virtual e a realidade aumentada permitem que as pessoas vivenciem experiências próximas da movimentação digital. Por esse motivo, tais tecnologias têm um potencial muito grande nas áreas de educação, saúde, entretenimento, games e outras que estão presentes em nossas vidas.

O uso dos próprios smartphones barateia a tecnologia de realidade virtual ao utilizar a tela do celular como visor. Esses aparelhos permitem enxergar muito mais, mais longe e mais perto. Podemos entrar num mundo virtual e olhar através de outra pessoa para viver experiências diferentes.

DCM: Quais tipos de aplicação para realidade virtual vocês fizeram mais?

Junior: Estamos trabalhando muito com audiovisual e games. Não trabalhamos mais com uma ou com outra, pensando naquela que resolve o problema para o qual estamos buscando a solução. Damos prioridade para a solução que tenha o menor custo e a melhor experiência.

DCM: Quais cortes de orçamento na produção do Beenoculus podem diminuir o preço?

Rawlinson: Contamos com dois sócios especialistas na indústria plástica que atendem o setor automotivo e podem baratear o design do Beenoculus em futuras versões. Nossa ideia é ser competitivo.

DCM: Como tem sido o desempenho do Beenoculus em eventos?

Rawlinson: Para nós tem sido muito importante participar de eventos como a Campus Party. Para a Beenoculus, é uma oportunidade de estar perto do público e dos parceiros como as empresas americanas Unreal e Epic, que são responsáveis por motores gráficos.

DCM: Vocês acreditem que políticas governamentais que apoiam o cinema e a animação poderiam ajudar apps voltados para realidade virtual?

Rawlinson: Sim, políticas de incentivo para a indústria criativa são fundamentais para o desenvolvimento do setor, mas precisamos ter acesso aos melhores meios de produção para aumentar a competitividade.

A maioria das empresas são pequenas no Brasil e elas devem ser objeto de políticas públicas, porque a realidade virtual está só começando a ter sucesso no mundo. O Brasil está no mesmo estágio de desenvolvimento da curva de aprendizado dos empreendedores mundiais. Nós não podemos perder essa oportunidade.

DCM: Para vocês, a evolução tecnológica está associada com a melhoria da educação?

Rawlinson: Não é em si a evolução tecnológica que melhora a educação, mas sim o uso inteligente da tecnologia que pode melhorar a educação. A tecnologia tem de ser vista como linguagem e não como mera ferramenta. A Beenoculus trata realidade como uma nova forma de comunicação que pode estabelecer o diálogo entre alunos e professores.

DCM: Vocês não têm medo dessa tecnologia ser encarada apenas como nicho de mercado?

Rawlinson: Isso não nos preocupa, estamos perto de resultados que comprovam esse potencial transformador, só não os temos ainda porque tudo é muito novo, mas a luz no fim do túnel está brilhando muito. Nosso objetivos são muito claros para a educação.

DCM: Quais são os próximos passos da empresa de vocês e do Beenoculus?

Rawlinson: Vamos consolidar os projetos em desenvolvimento trazendo os resultados para a sociedade que comprovam o potencial transformador da realidade virtual. Agora em março estamos lançando uma plataforma de software na nuvem com a IBM para distribuição de conteúdos em audiovisual virtuais.

Será uma ferramenta interesse para produzir conteúdos em 360 graus através de um aplicativo próprio e personalizado. Já estamos com a solução pronta para apresentar a interessados.

DCM: Como vocês enxergam dispositivos de realidade virtual que movimentam o corpo todo, como o HTC Vive?

Junior: Já estamos usando sensores e acreditamos que você vai se movimentar na realidade virtual. Isso já está em projetos com simulação de ambientes temáticos como a iniciativa do parque VOID em Utah, nos Estados Unidos. O que ocorre é que quanto mais sofisticada for a solução, mais cara e menos democrática ela é. No entanto, nós estamos indo em direção de um mundo tecnológico criativo que está apenas no começo.

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