“Homeland” e a arte de embalar terrorismo com amor

Uma mulher humilhada é capaz de qualquer coisa. Até mesmo de salvar o seu país

A série dramática que arrebatou o maior número de Emmys deste ano é um prodígio que consegue misturar dois assuntos de uma maneira engenhosa: a chamada Guerra ao Terror e a vingança de uma mulher humilhada. A agente Carrie Mathison (Claire Danes) se apaixonou por seu algoz — e ele por ela. Na segunda temporada, que está passando no canal FOX, o sargento Nicholas Brody (Damian Lewis) é desmascarado aos poucos. Brody se converteu num jihadista depois de oito anos sob cativeiro da Al Quaeda e de ver o filho de seu protetor Abu Nazir ser morto num bombardeio com dezenas de crianças. Volta aos Estados Unidos como heroi, entra na política e se envolve com Carrie. Ao ver que ela descobriu seu segredo, ele provoca a demissão dela, acusando-a de tê-lo espionado e expondo sua doença mental.

Carrie, a Estranha. Funcionária exemplar da CIA, ela acaba sendo readmitida. Seu objetivo, agora, mais do que salvar os EUA, é destruir Brody. Desde Vivien Leigh em Um Bonde Chamado Desejo uma louca não é tão cativante. Fosse um filme de Hollywood ou uma novela brasileira, esse enredo facilmente seria destruído com patriotadas ou transformado um dramalhão mexicano. Homeland tem o mérito — e este é só um deles — de não ceder a soluções fáceis. O anti-heroi Brody é um personagem complexo. É difícil não criar empatia por alguém que se revoltou ao ver meninos e meninas serem trucidados e cuja mulher (a belíssima brasileira Morena Baccarin, radicada nos Estados Unidos) estava tendo um caso com o melhor amigo durante sua ausência. Ele tem dúvidas. Ele não é desprezível como o político que quer se aproveitar de sua bravura para se eleger presidente. Ele tem uma causa.

Obsessão fatal

Não chega a ser uma série subversiva, mas mostra muito bem um outro lado. Baseada num seriado israelense chamado Captives, Homeland está distante da audiência das novelas brasileiras. Enquanto o último capítulo de Avenida Brasil foi visto por cerca de 40 milhões de pessoas, Homeland tem média de 2,5 milhões. Isso justifica a nivelação por baixo? Eu acho que não. Uma vez que você assista a série americana, fica difícil engolir, depois, um folhetim de Glória Perez ou seja lá quem for. Claro que há exageros e reviravoltas, eventualmente, rocambolescas. É preciso manter a sua atenção, afinal de contas.

Joseph Massad, professor associado da Universidade de Columbia e colunista da Al Jazeera, enxergou racismo num longo e bem defendido artigo. “Se, nos anos 70, as crianças americanas eram ensinadas, no programa Vila Sésamo, que a palavra árabe significava ‘perigo’, Homeland não se desvia dessa fórmula — exceto para acrescentar que os árabes são tão perigosos que até brancos americanos podem ser corrompidos por eles e tornar-se igualmente perigosos para a América. Não é uma surpresa que Homeland é uma adaptação de um seriado israelense”.

A brasileira Morena Baccarin, que faz a mulher do sargento Brody

Se o vilão Brody for desmascarado agora, o que pode acontecer ainda? Ele ser torturado em Guantánamo por Carrie? Ela forçá-lo a confessar seus crimes enquanto se queixa de ter sido preterida? Provavelmente. Uma coisa é certa: você terá um retrato interessante e sabido da política externa americana embalado na história de um relacionamento trágico. Ou, como diria a velha Rosana, o amor e o poder.

 

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