Homem abduzido, parto no carro, elixir da juventude: motorista por aplicativo conta histórias ouvidas e vividas ao volante

Paulo Maia, quando tinha a pizzaria: histórias da cidade

Há pelo menos 50 mil pessoas que trabalham como motoristas por aplicativo na cidade de São Paulo. Todos os dias, da manhã até a madrugada.

Por esses carros, passam pessoas de todas as idades, de todas as tribos, pobres e ricos. Todos têm histórias para contar.

Histórias que, bem ouvidas, podem render um livro. E não é que rendeu?

Motorista por aplicativo há dois anos, Paulo Maia lançará na próxima terça-feira, na livraria da Vila, em São Paulo, “No Divã do Táxi Driver”.

Em 169 páginas, ele conta 42 histórias, de personagens muito diferentes, como um senhor que levou a filha de sete anos para acompanhar a Parada Gay e lhe deu uma aula sobre diversidade.

Ou uma gestante da periferia de São Paulo que acabou dando à luz no no carro dele.

Tem até a história de um homem que garante ter sido abduzido.

“Fui buscar um passageiro em meio a uma imensidão de verde em diferentes tons”, escreve Paulo Maia.

“À medida que eu percorria as ruas e avenidas, adentrava na mata presente, tanto do lado direito quanto do esquerdo, como também, a minha frente”, detalha. Estava na Serra da Cantareira.

“Ao me aproximar, percebi algo estranho. Aparentava ter uns 35 anos. Não me parecia ser um homem frágil, nem que pertencesse a uma classe sócio-econômica baixa, pelo contrário; estava bem vestido, trajava terno e gravata, sapatos e bolsa escolhidos a dedo. Senti mesmo que alguma coisa não tinha corrido bem, talvez durante a noite, parecia até que esteve fora do seu habitat natural. Parei o carro e ele entrou”, acrescenta.

Segundo seu relato, travou-se o seguinte diálogo:

— Desculpe-me, mas eu preciso perguntar: O senhor está bem? Sr. Otávio de Araújo, certo?

— Acho que eu fui abduzido. Estava indo para minha casa que fica bem longe dos restaurantes, etc. Não tenho vizinhos próximos. Eram 22 horas mais ou menos, uma luz no céu foi se aproximando, até que surgiu uma imensa forma que ficou pairando sobre meu carro. Abri a porta e saí no susto.

O homem queria ir para a casa da irmã. Paulo Maia o levou e foi convidado a entrar.

Ouviu a história com mais detalhes. Não diz no livro se duvidou do relato, apenas registra a fala do passageiro, a essa altura quase um amigo:

“Olhei a minha volta, e não muito distante de mim, na estrada mesmo, percebi que 11 humanoides com capas e uniformes muito brilhantes estavam vindo na minha direção. Fiquei paralisado. Não sabia o que fazer, meu coração adrenalizando, um zumbido no ouvido ensurdecedor, náuseas, tontura, e claro, eu desmaiei ou dormi. Sei lá.”

Paulo Maia é jornalista e já trabalhou em cinema. Até dois anos atrás, era dono de uma renomada pizzaria, a Mercatto, no Morumbi, eleita uma das melhores da cidade por mais de um júri, inclusive o da revista Veja.

A crise lhe custou o estabelecimento comercial e hoje trabalha 14 horas por dia, para sobreviver e pagar as contas que ficaram daquele período — principalmente as indenizações trabalhistas, cuja quitação ele considera prioridade.

O próprio Paulo tem muita história para contar.

Como jornalista, fez reportagem em quase todos os continentes, numa série publicada em diversos jornais do Brasil, que ele procurou para oferecer seu trabalho, patrocinado principalmente por empresas aéreas.

Nessa andança pelo mundo, viajou no Grande Expresso Transiberiano, esteve na Mongólia e na China, e em diversas países da Europa, onde entrevistou gente famosa como o diretor de cinema Bernardo Bertolucci.

Quando descobriu que tinha uma cardiopatia, passou a praticar natação, sob orientação médica. Acabou cruzando o Canal da Mancha, com o tempo recorde para sua idade — na época, 2007, 51 anos. Feito que despertou a curiosidade de Jô Soares, que o entrevistou em seu programa na Globo.

Quando a Mercatto fechou, em 2017, Paulo Maia foi trabalhar por aplicativo. Fez o que já sabia como repórter: ouvir. E descobriu, nesta época de grande individualismo, que as pessoas necessitam como nunca de um bom ouvinte.

Anotou tudo e fez o relato, que agora publica graças a patrocínios, inclusive de uma empresa por aplicativo, a espanhola Cabify. Para preservar a intimidade, trocou o nome dos personagens.

No livro, vê-se muito da cidade, gente solidária, gente egoísta, gente maluca e gente amalucada.

Gente desesperada, gente cheia de esperança, como um professor da Unicamp, que fez uma corrida de São Paulo para Campinas e contou sobre o estudo que realizava com o extrato de casca de jabuticaba nativa da Mata Atlântica.

Ele acredita estar próximo descobrir um novo remédio, que pode atenuar os efeitos do envelhecimento.

Elixir da juventude? Nem tanto, mas Paulo descreve o que disse o passageiro: um produto para combater doenças como diabetes, cardiovasculares, da próstata, gordura no fígado, colesterol alto e até para a perda de peso.

O jornalista Milton Jung, autor do prefácio, resume bem o que se encontra no livro:

“Paulo Maia, como um bom chofer ou um motorista cinco estrelas –para ficar mais atualizado – gentilmente nos convida a fazer essa travessia ao lado dele, nos levando por uma viagem que percorre a alma humana, entra na avenida mais próxima para nos revelar o que está na mente das pessoas e, desviando dos buracos do cotidiano, nos permite ouvir como bate o coração de cada um de seus passageiros.”

A vida é sempre surpreendente. A grande novidade está logo ali na esquina.

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Serviço:

Livro: No Divã do Táxi Driver.

Autor: Paulo Maia.

Lançamento: 10 de setembro de 2019 (terça-feira), a partir das 18h30.

Local: Livraria da Vila, à rua Fradique Coutinho, 915.

 

 

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