Homenagem para papai. Por Camila Nogueira

Atualizado em 29 de junho de 2018 às 15:44

Meu querido papa,

Quando alguém a quem amamos parte, a saudade é um sentimento constante. Esse é um fato reconhecido por todos aqueles que perderam uma pessoa por quem nutriam os mais especiais sentimentos.

No entanto, há momentos em que essa falta é muito mais intensa.

Isso pode ocorrer em datas comemorativas, como na ocasião do aniversário daquele que se foi, ou em momentos aleatórios nos quais essa companhia perdida é desejada com um fervor especial.

Não há, papa, um único dia em que eu não pense em você.

A duração de meus pensamentos, assim como a dor que sinto ao deparar-me com eles, é variada. Às vezes, passo horas com sua imagem em minha mente e em meu coração. Em outros momentos, tenho somente lembranças passageiras.

Quando penso em você, em geral sou levada a revisitar os momentos finais – os terríveis meses em que transitamos entre a nossa casa e o hospital. Com o tempo, espero que isso passe. Espero que eu possa pensar em nós como éramos antigamente.

Um dos momentos em que mais o amei foi quando ficamos sozinhos, em Londres. Talvez não tenha sido uma época tão boa para você quanto foi para mim, pois a sua mãe faleceu naquele período. Entretanto, não posso deixar de pensar naqueles dias como os melhores e os mais agradáveis de toda a minha vida.

Poucos meses depois de sua morte, passei por um período no qual voltei-me com grande entusiasmo para os romances de Dostoiévski. Os Irmãos Karamazov, Crime e Castigo…

Enquanto eu os devorava, não conseguia deixar de pensar nas conversas que teríamos. E receio que, em alguns momentos particularmente sentimentais, voltei-me para a sua foto e fiz um ou outro comentário relativo à trama ou às personagens.

Você sempre foi meu melhor amigo e companheiro. Sinto-me alegre ao sair com todas as outras pessoas que fazem parte da minha vida, mas não espero voltar a sentir a felicidade e o prazer que me tomavam quando estávamos juntos.

Quando você se foi, papa, fui confrontada com o fato de que jamais voltaria a amar outra pessoa tanto quanto o amo. Posteriormente, ocorreu-me que essa era somente uma face da moeda. Papa, eu jamais voltarei a ser tão amada quanto fui por você. Isso é triste, mas ao mesmo tempo é um alívio. Poucas pessoas experimentaram um amor semelhante. Nós tivemos sorte.

Consegui prosseguir, ainda que frente a um acontecimento que partiu o meu coração.

Você me inspirou a isso, papa. Não somente por meio de palavras, como naquele dia em que afirmou admirar a minha serenidade diante das adversidades, porém através de seu próprio e indelével exemplo. Apesar da dor que a morte de seu pai lhe causou, você seguiu em frente e permaneceu vivo, criando novos laços afetivos e novas recordações.

Sinto que perdi meu pai, meu filho, meu irmão, meu mestre e meu marido. Você era uma combinações de todas essas coisas na minha vida.

Vinte anos ao seu lado, papa, foram mais satisfatórios e produtivos do que quarenta anos ao lado de qualquer outro teriam sido. Você foi a minha alma gêmea, meu querido. Você é a minha alma gêmea.

Camila Nogueira
Aos 19 anos, Camila Nogueira estuda Letras na USP. Já aos 10 anos, constatou que seus maiores interesses na vida consistiam em sua família, em cerejas e em Machado de Assis. Em uma etapa posterior, adicionou à sua lista ópera italiana e artistas coreanos.